quarta-feira, 17 de julho de 2019

Justiça Divina


Justiça Divina.
  
Um assunto que deveria interessar a todos os que estão embarcados nesta nave que transita pelo Universo.

Já vimos que de grande, só mesmo o nosso orgulho, nossa vaidade, cultivada e alimentada pela ignorância, característica de seres ainda necessitados de adiantamento moral.


Entretanto, ainda que no estado de ignorância relativa, já nos foi dito que somos centelhas divinas, há latência de dons divinos em cada um dos filhos do Pai. E ÊLE quer que cada um de nós assuma seu verdadeiro lugar e somente pelo aprendizado e pela dor que se atinge essa condição.


Léon Denis, no capítulo IX (Evolução e Finalidade da Alma" de "O Problema do Ser, do Destino e da Dor", ratifica, que o ser humano contém os germens da sua evolução, mas é muito importante que cada uma dessas criaturas saiba como manter sob contrôle essas forças contidas na alma.  
Há mecanismos das Leis de Deus que se apresentam a cada situação, os problemas que surgem sempre já estão resolvidos, nós é que tentamos alterá-los para as nossas conveniências.  Um exemplo com o qual temos bastante contato é o das defesas do organismo, o ser humano saudável tem as suas defesas sempre organizadas e quando elas por algum motivo diminuem veem as doenças, trazidas pelo crescimento das bactérias existentes em nossa organização física e que as defesas naturais trazem dominadas; uma vez que estas defesas se enfraquecem as bactérias ganham espaço.  Assim é que acontece com nossa moral. O Bem convive com o mal e cabe a nós, individualmente e coletivamente manter a prevalência do bem sobre o mal, que é nada mais que a ausência do primeiro. E num espaço onde o bem não é exercitado, o mal se fortifica.

 vamos ler um trecho do que Léon Denis  nos ensina:



" A alma contém, na estada virtual, todos os germens dos seus desenvolvimentos futuros. E destinada a conhecer, adquirir e possuir tudo.
Como, pois, poderia ela conseguir tudo isso numa única existência? A vida é curta e longe está a perfeição! Poderia a alma, numa vida única, desenvolver o seu entendimento, esclarecer a razão, fortificar a consciência, assimilar todos os elementos da sabedoria, da santidade, do gênio? Para realizar os seus fins, tem de percorrer, no tempo e no espaço, um campo sem limites. É passando por
inúmeras transformações, no fim de milhares de séculos, que o mineral grosseiro se converte em diamante puro, refratando mil cintilações. Sucede o mesmo com a alma humana. 
O objetivo da evolução, a razão de ser da vida não é a felicidade terrestre, como muitos erradamente creem, mas o aperfeiçoamento de cada um de nós, e esse aperfeiçoamento devemos realizá-lo por meio do trabalho, do esforço, de todas as alternativas da alegria e da dor, até que nos tenhamos desenvolvido completamente e elevado ao estado celeste. Se há na Terra menos
alegria do que sofrimento, é que este é o instrumento por excelência da
educação e do progresso, um estimulante para o ser, que, sem ele, ficaria retardado nas vias da sensualidade. A dor, física e moral, forma a nossa experiência. A sabedoria é o prêmio.
Pouco a pouco a alma se eleva e, conforme vai subindo, nela se vai acumulando uma soma sempre crescente de saber e virtude; sente-se mais estreitamente ligada aos seus semelhantes; comunica mais intimamente com o
seu meio social e planetário. Elevando-se cada vez mais, não tarda a ligar-se por
laços pujantes às sociedades do Espaço e depois ao Ser Universal." 



Trago para meus irmãos, publicações feitas no site www.crbbm.org sobre o assunto "Justiça Divina".  É apenas uma fração do que existe, mas já é um primeiro passo nos atualizarmos com este conteúdo.





REVELAÇÃO DA REVELAÇÃO: O JUÍZO DE DEUS

Foto preto e branco de uma balançaQue céu e inferno não existem a Doutrina Espírita - Revelação da Revelação - já o ensina desde o tempo de Kardec, inclusive com a publicação de obra específica do próprio Codificador sobre o tema, "O Céu e o Inferno", em 1865. Mas, levando em conta esse ensino, e desmitificada a morte e a chamada "vida eterna", apenas como o outro lado e aspecto da vida que prossegue sempre, em todos os planos do universo, como se dá o "juízo de Deus" - o balanço de cada existência -, no plano espiritual?
A vida no plano material é a hora da ação, da provação, do teste, da expiação, da missão, do movimento e da extroversão, enfim. Além do túmulo, é natural e necessário que a energia do Espírito se dirija ao aspecto complementar e oposto dessa fase de aprendizado, exatamente a de reflexão, de análise, de exame íntimo e introspectivo dos avanços obtidos.

Quando se fala em "juízo divino" a imagem que nos ocorre à mente é toda antropomórfica, na forma de um tribunal humano, com juiz, advogados de defesa e acusação... A revelação espírita nos ensina, no entanto, que não é assim que se dá esse processo. Como será, então? No sábado,  22/06/19, um interessante estudo de nossa irmã Paula Reis sobre esse tema, em uma de nossas reuniões, a partir do Capítulo XII do 4o. Tomo da Obra de Roustaing, "Os Quatro Evangelhos", especialmente dos versículos 44 a 50.

E, tamanho interesse despertou o conteúdo apresentado, que decidimos reproduzír alguns de seus destaques, enriquecido como mais algumas transcrições de três diferentes experiências do gênero, em três valiosas obras da literatura espírita: "Voltei", do irmão Jacob (pseudônimo de Fred Figner), e "E A Vida Continua", esses dois primeiros recebidos psicograficamente por Francisco Cândido Xavier, e, finalmente, "Memórias de um suicida", de Camilo Botelho (pseudônimo do escritor português Camilo Castelo Branco), psicografada pelas mãos abençoadas da nossa igualmente admirável Yvone do Amaral Pereira. Esperamos que nossos irmãos apreciem... são três diferentes encontros consigo mesmo e com a própria consciência na "hora da verdade", que para todos nós soará...


*
A MORAL QUE JESUS PREGOU NÃO É SUA, MAS DE DEUS
JESUS, QUE É A LUZ, VEIO PARA SALVAR O MUNDO
O HOMEM SE JULGA A SI MESMO, E SUA CONSCIÊNCIA É QUEM PRONUNCIA A SENTENÇA

V.44 Ora, Jesus exclamou: O que em mim crê não é em mim que crê, mas naquele que me enviou.
– 45. E o que me vê a mim vê aquele que me enviou.
 – 46. Eu, que sou a luz, vim ao mundo para os que em mim crêem não fiquem nas trevas.
– 47. Se alguém ouve as minhas palavras e não as guarda, eu não o julgo; pois que não vim para julgar o mundo, mas para o salvar.
– 48. Aquele que me despreza e não recebe as minhas palavras tem por juiz a palavra mesma que hei pregado; será ela que o julgará no último dia.
– 49. Porque, não é por mim mesmo que tenho falado; meu Pai que me enviou, é quem me prescreveu, por seu mandamento, o que devo dizer e como hei de falar.
– 50. E eu sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que digo, digo-o conforme meu pai mo ordenou.
Fotomontagem de gato com sombra de leão 

"Jesus não veio para julgar o mundo, mas para o salvar, pois que veio para ensinar aos homens como devem viver e morrer, tendo em vista o progresso do Espírito. Veio para regenerar a humanidade, ensinando e exemplificando-lhe todas as virtudes; traçando para todos os homens, quaisquer que sejam, Judeus ou Gentios, a estrada que, abstração feita de todos os cultos exteriores, os conduzirá a fraternidade e, por esta, à unidade; obedecendo à lei de amor; praticando, portanto, a justiça e a caridade. [...]
O homem é julgado por si mesmo, pelos seus atos. “No último dia” do seu corpo, o julgamento que a sua consciência profere, mas que ele quase nunca quer ouvir, se lhe tornará claro e preciso. E, para a consciência do homem, o critério desse julgamento oferece-o a moral pura que Jesus pregou e na qual, como ele próprio o disse, estão toda a lei e os profetas.

Deus espera que pouco a pouco se aproximem os filhos que dele se afastaram. E todos acabarão certamente por ir a ele, pois que a lei do progresso, imutável como o próprio Deus de quem emana, é da essência mesma de tudo o que é. E o Espírito está submetido a esta lei, quaisquer que sejam as oscilações, os desvios, os desvairamentos do seu livre-arbítrio.

O julgamento de Deus, porém, não existe como ato, como sentença formulada e aplicada em consequência de julgamentos parciais, proferidos com relação a cada culpado, após acalorados debates sobre seus crimes, faltas e delitos como o julgamento humano.

O julgamento e sua aplicação estão na lei de atração espiritual, lei imutável e eterna como o próprio Deus de quem emana e que, conforme o pendor de cada um, determina as relações entre os Espíritos, por efeito da influência atrativa dos fluidos, que a si mesmos se atraem uns aos outros, por analogia de espécies, de natureza. É essa a lei, que como sabeis, por meio dos fluidos magnéticos, religa todos os mundos do Universo, une todos os Espíritos, encarnados ou não, constitui o laço universal que os prende a todos, fazendo que formem um único ser, e os auxilia a subirem para Deus, conjugando-lhes as forças, determinando que os superiores trabalhem sem descanso pelo progresso dos inferiores. O Espírito é quem livremente aplica a si mesmo essa lei, com a consciência, que Deus lhe outorgou, do bem e do mal, e ao julgamento da qual ele se acha inelutavelmente submetido. O Espírito tem o livre-arbítrio. Cabe a ele corrigir e reparar os transviamentos desse livre-arbítrio. É ao próprio Espírito que compete abrir para si o caminho que leva ao progresso e avançar por ele. Se o anima o firme propósito de renunciar ao mal e de entrar na senda do bem, atrai a si as boas influências e se põe em relações com os bons Espíritos, encarnados e errantes, principalmente com estes, os quais, animados de idênticos pendores, dos mesmos sentimentos, o ajudam a progredir. Sob a inspiração e proteção dos bons Espíritos, ele se adianta e o julgamento de Deus não o atinge. Se, ao contrário, se compraz no mal e não atende as vozes amigas que o chamam para afastá-lo daí e fazê-lo enveredar pela senda do bem, o Espírito atrai a si as más influências e entra, inconscientemente, em relações com Espíritos maus, encarnados e errantes, com estes sobretudo, animados dos mesmos pendores e sentimentos que ele. Permanece então estacionário, porquanto o Espírito não retrograda, e o juízo de Deus o atinge. O juízo de Deus é a ausência de progresso. É a lei imutável do sofrimento, que cedo ou tarde, atinge o culpado, provocando-lhe o remorso. Imutável, e portanto, certa, inevitável, é, para o Espírito culpado, essa lei, como o são a consciência, que ele tem, do bem e do mal e, em face dessa consciência, a lei de perfectibilidade, ambas as quais de Deus emanam. É o tempo que se escoa sem trazer ao Espírito melhora alguma, sem lhe satisfazer às aspirações. E o Espírito nem sempre aspira ao progresso, visto que também tende para o crime, para a preguiça, para a maldade, para a luxúria, a intemperança, o orgulho, a inveja, o egoísmo, a avareza. Pois bem: desde que seus desejos não são satisfeitos, aí tendes a condenação que ele a si mesmo inflige, como consequência dos seus pendores. O juízo de Deus é, finalmente, a luta sem resultado em que o Espírito permanece, enquanto não toma o propósito firme de renunciar ao mal e de entrar na senda do bem. Porque, não podendo, na sua condição de culpado, caminhar para Deus, o Espírito se vê retido, pela influência atrativa dos fluidos que assimila, entre Espíritos inferiores, nas esferas de expiação, e constrangido a renovar suas provas, até que estas o induzam a querer progredir, e a sofrer outras, até que haja realizado o progresso que isenta o ser espiritual de reencarnar nessas esferas.

O “juízo” de Deus é um termo que precisa ser mantido, por ser o único capaz de lembrar ao Espírito do homem a ação incessante da divindade sobre tudo o que existe.

O julgamento é o resultado das obras humanas, sua consequência inevitável. Nada há que não produza frutos, não o esqueçais. Tudo está em saber colhê-los a tempo. Jesus apenas aplica a lei.

A repressão dos Espíritos culpados não é um julgamento seguido de condenação, mas tão-somente um meio paternal de os reconduzir à senda do bem, de os salvar de si mesmos, forçando-os a que entrem em expiação, a fim de que se julguem e se condenem a si mesmos. Neste sentido é que como intermediário entre Deus e vós, Jesus recebeu do pai o poder de julgar, isto é: de presidir ao desenvolvimento e ao progresso dos homens, de os ajudar, por todos os meios, a se adiantarem, conformemente às faculdades e necessidades de cada um. [...]

O juízo é a retribuição de acordo com as obras. O Homem o provoca pelos seus pensamentos e pendores e o recebe, por efeito de suas palavras e atos, conformemente às leis imutáveis e eternas da justiça divina, que a sua consciência aplica após a morte. Essas leis, para os pendores viciosos, contrários à lei divina, bem como para os atos culposos, são as leis imutáveis, inevitáveis do sofrimento, da expiação, da reencarnação, meio único de reparação, de purificação e de progresso, caminho único para a perfeição".

O "JUÍZO DE DEUS" EM "MEMÓRIAS DE UM SUICIDA"

Capa do livro Memórias de um Suicida"Colocaram o ex-professor de línguas à frente do aparelho luminoso que despertara nossa atenção à chegada, ao qual ligaram-no por um diadema preso a tênues fios que se diriam cíntilas imponderáveis de luz. Enquanto Alceste o ligava, Romeu informava-o, em tom assaz grave, de que conviria voltasse a alguns anos passados de sua vida, coordenando os pensamentos a rigor, na seqüência das recordações, e partindo do momento exato em que a resolução trágica se apossara das suas faculdades. Para que tal conseguisse, auxiliava-o revigorando sua mente com emanações generosas que de suas próprias forças extraía.
Belarmino obedeceu, passivo e dócil a uma autoridade para que não possuía forças capazes de desagradar. E, recordando, reviveu os sofrimentos oriundos da tuberculose que o atingira, as lutas sustentadas consigo mesmo ante a idéia do suicídio, a tristeza inconsolável, a veraz agonia que se apoderara de suas faculdades em litígio entre o desejo de viver, o medo da moléstia impiedosa que avassalava sua organização física, supliciando- o sem tréguas, e a urgência do suicídio para, no seu doentio modo de pensar, mais suavemente atingir a finalidade a que a doença o arrastaria sob atrozes sofrimentos. A proporção que se aproximava o desfecho, porém, o filósofo comtista esquivava-se, recalcitrando à ordem recebida. Suores gelados como lhe banhavam a fronte ampla de pensador, onde o terror mais e mais se acentuava, estampando expressões de desespero a cada novo arranco das dolorosas reminiscências...

Entretanto, o que mais surpreendia era que, na tela fosforescente à qual se ligava, iam-se reproduzindo as cenas evocadas pelo paciente, fato empolgante que a ele próprio, como à assistência, facultava a possibilidade de ver, de presenciar todo o amaro drama que precedeu o seu ato desesperador e as minúcias emocionantes e lamentáveis do execrável momento! A este seguiam-se as tormentosas situações de além-túmulo que lhe foram conseqüentes, o drama abominável que o surpreendera, as confusas sensações que durante tanto tempo o mantiveram enlouquecido.

Enquanto o primeiro operador auxiliava o paciente a extrair as recordações próprias, o segundo comentava-as explicando os acontecimentos em torno do suicídio, antes e depois de consumado, qual emérito professor a elucidar ignaros em matéria indispensável. Fazia-o mostrando os fenômenos decorrentes do desprendimento do ser inteligente do seu casulo de limo corporal, violentado pelo desastroso gesto contra si mesmo praticado. Assistimos assim a surpreendente, inglória odisséia vivida pelo Espírito expulso da existência carnal sob sua própria responsabilidade, a esbater-se como louco à revelia da Lei que violou, presa dos tentáculos monstruosos de seqüências inevitáveis, criadas pela infração a um acúmulo determinante e harmonioso de leis naturais, sábias, invariáveis, eternas!"

O "JUÍZO DE DEUS" EM "VOLTEI",
DE IRMÃO JACOB (FRED FIGNER)

Capa do livro Voltei"Desejando preparar-me convenientemente, a fim de servir, passei a visitar, sozinho ou acompanhado de outros colegas, as mais diversas associações de Espíritos endurecidos e sofredores.

O Irmão Andrade, Marta e outros amigos que me prestavam contínua assistência, atentando agora para as minhas necessidades de reajustamento, deixaram-me sob o exclusivo cuidado da escola de iluminação, que passei a frequentar carinhosamente. Cada lição era nova página de sabedoria reveladora, concitando-me ao desejável aprimoramento.

Procurava, pois, nas demonstrações práticas, despertar minhas energias superiores, com a juvenil atenção do universitário dedicado aos livros, interessado em organizar conscienciosamente o próprio futuro.

Era preciso buscar humildade no autoconhecimento, através das acusações merecidas ou imerecidas? Não me faltaria coragem para faze-lo. Sempre que os intervalos naturais dos estudos e tarefas do instituto iluminativo me favoreciam, dirigia-me incontinenti para as zonas de Espíritos transviados, exercitando a minha capacidade de suportação.

Da boca de inúmeros infelizes e ignorantes, ouvi longas recordações demais atos. Criticavam-me acerbamente, discutiam-me propósitos e intenções. Antigas faltas de épocas recuadas, que eu supunha esquecidas, eram trazidas à tona dos remoques verbais. Erros da mocidade, omissões da idade madura, gestos eventuais de aspereza, pequenas promessas não cumpridas, problemas de sentimento não liquidados, tudo, enfim, era resolvido pelos inimigos do bem, dos quais me aproximei nas melhores disposições de entendimento fraterno.

Consoante as lições novas, armazenava semelhante material, com o cuidado do homem prevenido que guarda lanternas adequadas para as horas escuras. Em muitas ocasiões, afastei-me do campo de luta, em lágrimas, considerando as alegações que me eram atiradas em rosto. Mas... Que fazer? Esse, sem dúvida, era o melhor caminho para identificar os próprios defeitos e extirpa-los.

Há companheiros que se não resignam a esse gênero de esforço; no entanto, para ganhar tempo observei, desde o primeiro instante, que nesse processo de esclarecimento é possível abreviar a própria renovação para o bem e limitar grandes lutas. (Cap. Reajustamento)

O "JUIZO DE DEUS" EM "E A VIDA CONTINUA", DE ANDRÉ LUIZ

Capa do livro E a Vida Continua"Estariam no Mundo Espiritual ou na Terra mesmo, na Terra que lhes era familiar, em algum sítio desconhecido, onde se lhes falava do espírito libertado com alguma finalidade terapêutica? — pensavam os dois. E chegavam quase a admitir que talvez tivessem estado loucos, achando-se agora em recuperação.

Acalentando semelhantes dúvidas, Evelina acompanhou, docilmente, o médico, e, chegados a uma sala, mobilada com distinção e singeleza, assentou-se na poltrona que ele lhe indicou, explicando, atencioso:
— Esteja tranquila. Nosso Instituto se consagra àproteção e ao tratamento de seus tutelados. Primeiro, a cobertura socorrista, depois, o reajustamento, se necessário. Em razão disso, teremos tão-só um entendimento fraternal. Nada de cerimônias. Conversaremos simplesmente e todos os seus informes serão gravados para estudos posteriores. A bem dizer, funciono aqui quase que apenas na condição de introdutor dos clientes, de vez que os nossos analisados possuem vasta coleção de amigos na retaguarda, amigos que lhes examinarão as palavras e reações, de modo a saber em que sentido e até que ponto lhes prestarão o auxílio de que se mostrem carecedores.
Diante de Evelina admirada, a um gesto do mentor grande espelho se fêz visível, junto à poltrona, dando a idéia de que a peça fora ligada ao sistema elétrico, por disposições especiais.

— Nossa palestra será filmada. Simples recurso para que os seus contactos com a nossa casa sejam seguidos com segurança, no capítulo da assistência de que não prescindirá em seus primeiros tempos de vida espiritual. Tranquilize-se, compreendendo, porém, que todas as suas perguntas e respostas se revestem da maior importância para seu beneficio. Por suas indagações, a autoridade do Instituto identificará a sua posição no conhecimento e, por suas respostas, saberá o montante de suas necessidades. Conversemos.
Perante aquele olhar, brando e enérgico ao mesmo tempo, reconheceu-se Evelina qual criança de letras primárias, ante examinador experiente, e, concluindo que não lhe seria licito recusar a prova, perguntou com respeitosa coragem:
Instrutor Ribas, conquanto o senhor tenha feito referências a meus «primeiros tempos de vida espiritual», é verdade que somos Espíritos desencarnados, pessoas que não mais habitam a Terra?

— Perfeitamente, embora a irmã não consiga ainda certificar-se disso. — Porque semelhante inadaptação?

— Falta de preparo na vida física. De modo geral, a sua posição de surpresa é comum à maioria das criaturas terrestres, em virtude da ausência de integração real com as experiências religiosas a que se afeiçoam.

— Se estamos efetivamente mortos, acredita o senhor que eu, na condição de católica, devo apresentar ou deveria apresentar um índice mais completo de comunhão com a verdade espiritual que não estou conseguindo entender?

— Claramente.

— Como assim?

— Se a irmã, durante a sua existência no corpo denso, pensasse firmemente nos ensinos de Jesus, o Divino Mestre que se reergueu do túmulo para a demonstração da vida eterna, se meditasse na essência dos ofícios religiosos de sua fé, todos eles dirigidos a Deus e, depois de Deus, aos mortos sublimes, como sejam Nosso Senhor Jesus-Cristo, sua Augusta Mãe e aos Espíritos heróicos que veneramos por santos da vida cristã, decerto não experimentaria o assombro que, até agora, lhe insensibiliza os centros de força, apesar da elevação e da delicadeza de suas aspirações. Viu-se Evelina, de repente, transportada pelas molas mágicas da imaginação, ao seu velho templo religioso... Recordou as preces, os cânticos, as novenas e os rituais litúrgicos de que partilhara, como se únicamente ali, naquele gabinete de análise espiritual, pudesse penetrar-lhes o sentido. Como não se inclinara a interpretá-los, antes, por invocações ao Mundo Espiritual? como não lhes percebera, até aquela hora, a função de canais de comunicação com as Forças Divinas?...
Em pensamento, aspirava a rever-se em São Paulo, caminhar para o recinto de sua devoção religiosa e saudar na própria crença o ponto mais alto da vida, aquele, através do qual, lograva entregar-se à proteção do Todo- Misericordioso, com as suas dores e alegrias, aflições e ânsias mais íntimas... Lembrou-se de Jesus, fôsse nas esculturas ou nos painéis, nas pregações e conversações, como sendo um Espírito Divino a bater-lhe, debalde, às portas do coração, tentando ensinar-lhe a viver e a compreender...
E, ao refletir no Mestre de paciência infinita, a cuja magnanimidade recorria em todas as dificuldades e tribulações, sem se dar ao trabalho de perquirir-lhe as lições e acompanhar-lhe os exemplos, entrou em crise de lágrimas, qual se a fé cristã, excelsa e piedosa, se lhe transfigurasse em juiz nos recessos da alma, exprobrando-lhe o comportamento.
— Oh! meu Deus!... — inferia em pranto — porque precisei morrer para compreender? porquê, Senhor? porquê?..." (Cap. 10)

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Jesus, Judas e as Entidades Angélicas


AS ENTIDADES ANGÉLICAS


Narra o benfeitor espiritual que enquanto o Mestre agonizava na cruz, rasgava-se o céu em Jerusalém e entidades angélicas, em grupos extensos, desciam sobre o Calvário doloroso...


Na poeira escura do chão, a maldade e a ignorância expeliam trevas demasiadamente compactas para que alguém pudesse divisar as manifestações sublimes.


Fios de claridade indefinível passaram a ligar o madeiro ao firmamento, embora a tempestade se anunciasse à distância...


O Cristo, de alma sedenta e opressa, contemplava a celeste paisagem, aureolado pela glória que lhe bafejava a fronte de herói, e os emissários do paraíso chegavam, em bandos, a entoarem cânticos de amor e reconhecimento que os tímpanos humanos jamais poderiam perceber.


Os anjos da ternura rodearam-lhe o peito ferido, como a lhe insuflarem energias novas.


Os portadores da consolação ungiram-lhe os pés sangrentos com suave bálsamo.


Os embaixadores da harmonia, sobraçando instrumentos delicados, formaram coroa viva, ao redor de sua atribulada cabeça, desferindo comovedoras melodias a se espalharem por bênçãos de perdão sobre a turba amotinada.


O ANJO QUE OUVIU O ÚLTIMO PEDIDO DE JESUS


Trabalhavam os mensageiros do Céu, em tomo do Sublime Condutor dos homens, aliviando-o e exaltando-o, como a lhe prepararem o banquete da ressurreição, quando um anjo aureolado de intraduzível esplendor apareceu, solitário, descendo do império magnificente da Altura.


Não trazia seguidores e, abeirando-se do Senhor, beijou-lhe os pés, entre respeitoso e enternecido.


Não se deteve na ociosa contemplação da tarefa, que naturalmente cabia aos companheiros, mas procurou os olhos de Jesus, dentro de uma ansiedade que não se observara em nenhum dos outros.


Dir-se-ia que o novo representante do Pai Compassivo desejava conhecer a vontade do Mestre, antes de tudo.


E, em êxtase, elevou-se do solo em que pousara, aos braços do madeiro afrontoso. Enlaçou o busto do Inesquecível Supliciado, com inexcedível carinho, e colou, por um instante, o ouvido atento em seus lábios que balbuciavam de leve.


Jesus pronunciou algo que os demais não escutaram distintamente.


O mensageiro solitário desprendeu-se, então, do lenho duro, revelando olhos serenos e úmidos, e de imediato, desceu do monte ensolarado para as sombras que começavam a invadir Jerusalém, procurando Judas, a fim de socorrê-lo e ampará-lo.


Se os homens não lhe viram a expressão de grandeza e misericórdia, os querubins em serviço também não lhe notaram a ausência.


Mas suspenso no martírio, Jesus contemplava-o, confiante, acompanhando-lhe a excelsa missão, em silêncio.


Este era o anjo da Caridade.


Pelo visto, as derradeiras palavras de Jesus na cruz não foram "Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem", mas sim as palavras balbuciadas ao ouvido do Anjo Solitário para socorrer o amargurado espírito de Judas.


JUDAS QUERIA TRAIR JESUS DE FATO?


A prova de que Judas Iscariotes não queria simplesmente trair Jesus e levá-lo a morte está no fato de que ele, ao receber do Sinédrio as trinta moedas de prata como pagamento para entregar Jesus, não esperava receber o fel da amarga desilusão, ao ver o Cristo duramente torturado.


Ao perceber a traição dos fariseus, pois não era isso que desejava para o seu Mestre, ele de imediato foi devolver as moedas recebidas para desfazer o acordo infeliz.


Nesta oportunidade, porém, recebeu em troca a expressão de deboche dos príncipes dos sacerdotes: “Isso é contigo”.


Nada mais restava fazer para salvar o Mestre dos Mestres. Infelizmente o plano sinistro estava consumado!


Foi então que Judas, depois de assistir as cenas do Calvário, levado por tremendo remorso, pois sua intenção não era eliminar Jesus, cometeu o suicídio.


No entanto, o Mestre, após a sua morte e tocado de compaixão, foi ao encontro do espírito enlouquecido de Judas, permanecendo três dias ao seu lado até que ele adormecesse, segundo a revelação da poetisa desencarnada Maria Dolores, no livro Coração e Vida, psicografado por Chico Xavier.


Só depois desse gesto de amor e de perdão é que Jesus apareceu materializado a Maria Madalena, segundo o Evangelho de João (Cap. 20: 11 a 18).


A HISTÓRIA E A REVELAÇÃO MEDIÚNICA


Através da mediunidade educada e disciplinada conforme os princípios do Espiritismo, podemos receber dos Espíritos revelações importantes que esclarecem os fatos históricos registrados muitas vezes de forma incompleta, como é o caso de muitas passagens do Novo Testamento, e que levam a interpretações equivocadas, o que é corrigido pela revelação de ordem mediúnica.


Como vemos, considerar Judas Iscariotes um traidor é um erro, até porque se ele de fato tivesse traído conscientemente a Jesus, por que em seguida teria ele entrado em remorso e arrependimento a ponto de tentar desfazer o acordo com os doutores da lei e, em seguida, cometer o suicídio?


Como revelam os Espíritos Humberto de Campos (Irmão X) e Maria Dolores, na verdade Judas foi enganado pelos doutores da lei, mas como o amor cobre a multidão dos pecados, ele recebeu a misericórdia de Jesus, pois aquele que se arrepende está a um passo de iniciar a reparação, que a lei divina propicia através de futuras e abençoadas encarnações.


Livro: Pontos e Contos

Humberto de Campos.

domingo, 9 de junho de 2019

KARDEC E PIETRO UBALDI.


KARDEC E PIETRO UBALDI

Nossa Doutrina é eminentemente progressiva, conforme preconizado amplamente pelo seu Codificador, Allan Kardec.

Temos em nosso DNA uma aversão natural à ortodoxia, ao congelamento do pensamento em função das tradições que desconsideram a lei natural do progresso.

Nossos valores, no entanto, são eternos, posto que fincados na solidez rochosa dos princípios cristãos. Precisam apenas ser lembrados, continuamente, às novas gerações de espíritas, para que sua chama nunca se apague.

Dentre esses valores, dois parecem-nos de extrema atualidade, nesse tempo de "patrulhas ideológicas" e debates acalorados:
a) LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA - o espírita sabe que deve respeitar, por princípio, todas as formas de pensamento, mesmo as que lhe contraditam as ideias e o modo de ser, como decorrência natural do "fazer ao próximo o que gostarias que lhe fizessem";


b) MODERAÇÃO - o segundo, tão complementar ao primeiro que lhe serve de perfeito contraponto, como a outra face da mesma moeda, salienta a importância da boa fundamentação de suas próprias opiniões, por parte dos espíritas, para que por esse modo de façam respeitar em qualquer debate, marcadamente pela seriedade, sobriedade e consistência de suas manifestações.

"Seja o vosso falar sim, sim, não, não" - ensinou-nos o Cristo (Mt. 5:37).

Kardec reitera essas recomendações e dá delas o exemplo ao longo de toda a sua trajetória e em todos os seus textos, tanto na Codificação quanto na Revista Espírita:

"Respeitamos vossa opinião, respeitai a nossa. Eis tudo quanto vos pedimos".
 ("Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas - Allan Kardec - Introdução)


"Já vos disse, senhor, não tenho a pretensão de vos fazer adotar a minha opinião; respeito a vossa, se é sincera, como desejo que respeiteis a minha".
 (O que é o Espiritismo - Allan Kardec, – O Crítico, pág. 53 da 37ª ed. FEB)


"Àquele que nos procura como irmão, nós o acolhemos como tal; ao que nos repele, deixamo-lo em paz. [...] O Espiritismo não se impõe, porque, como vo-lo disse — respeita a liberdade de consciência; [...] Ele expõe seus princípios aos olhos de todos, de modo a cada um poder formar opinião segura
(O que é o Espiritismo - Allan Kardec, – O Padre, pág. 124 da 37a ed. FEB)

Julgar o que não se conhece é falta de lógica"
 (Revista Espírita, 1858, Fev - Pág.100 da Ed. FEB)

Imprudente é se inscreverem em falso contra as coisas que não compreendem”.
 (Revista Espírita, 1858, Out - Pág. 420 da Ed. FEB)


"E de lógica elementar que o crítico conheça, não superficialmente, mas, a fundo, aquilo de que fala, sem o que, sua opinião não tem valor".
 (O que é o Espiritismo - Allan Kardec, – O Crítico, pág. 55 da 37a ed. FEB)


Ocorre-nos a lembrança desses pontos a propósito de uma publicação recente do confrade Rafael Van Erven Ludolf, do valoroso Grupo Espírita Servidores de Jesus, de Niterói, trazendo para as redes sociais um texto magnifíco, de autoria do nosso inesquecível CARLOS TORRES PASTORINO (vide sua biografia em nossa página Sal da Terra), um dos maiores estudiosos dos Evangelhos que este país já teve e que serve até hoje de prefácio para o volume "O Sistema", de Pietro Ubaldi.


O texto de Pastorino é um exemplo perfeito do cuidado que devemos ter com a emissão de nossas opiniões, e do valor crescente que elas terão, a qualquer tempo, quando bem fundamentadas, consolidadas através de um estudo sério e prolongado sobre o que se pretende comentar.

Segue abaixo, portanto, reproduzido integralmente, e cremos que dispensa comentários adicionais, de nossa parte, pela elegância, clareza e firmeza com que demonstra, tão bem, a relação de continuidade e complementariedade existente entre as obras de Kardec e Ubaldi, tão conhecidas daqueles que as estudam longa e sistematicamente.

Aos nossos amigos do Servidores de Jesus, a nossa gratidão, pela lembrança de tão genuíno exemplo destes dois valores, que nos são tão caros, e que não podemos perder...


IMPRESSÃO


Terminada a tradução da obra, O Sistema, de Pietro Ubaldi, feita com a alegria imensa do garimpeiro que vai descobrindo em cada nova linha uma pepita de ouro do mais puro, não me contenho em rascunhar a impressão que me ficou dessa leitura meditada, do estudo dessa revelação nova trazida a nós em plena segunda metade do século XX. Desde a infância, o estudo desses problemas, através das obras da Teologia Católica, primeiramente, e mais tarde através das publicações oficiais do Espiritismo, do Protestantismo, da Teosofia, do Esoterismo, da Antroposofia, dos Rosa-Cruzes, das obras mais antigas da Índia, do Egito e da China, o estudo de tudo isto deu-me uma impressão de incerteza e de tateamento, ou então de afirmativas sem bases no campo racional. Não há, em todas essas doutrinas, respeitabilíssimas sem dúvida, porque representam o labor da mente concreta que busca o conhecimento através de suas próprias forças – não há uma unidade completa que una tudo numa única visão de conjunto.


Por isso, através da leitura estudada e meditada da obra de Ubaldi, cheguei à conclusão de que o universo é de fato um todo único, cujo centro é Deus. E, completando a maravilhosa e inspirada A Grande Síntese com o volume Deus e Universo, vislumbrei certos aspectos novos. No entanto, o segundo volume citado está demais conciso e alto, não me permitindo à parca inteligência, a compreensão total da grandiosidade ali exposta. Neste volume, entretanto, a explicação é cabal e acessível a todas as inteligências, mesmo as medianas, como a de quem está escrevendo, e as provas são de tal forma completas e irrespondíveis, que pouco haverá que acrescentar a isso, nessa época. Talvez mais tarde se possa dizer algo mais. Mas, no momento, não vemos o que acrescentar ao que aqui se encontra.


O Sistema é um livro ótimo, lógico e claro. Trata-se, em minha insignificante opinião, de completo curso ou tratado de Teologia cosmogônica, uma Teologia Nova, que vem cortar pela raiz todas as elucubrações puramente humanas, esclarecendo os pontos obscuros, revelando todos os mistérios incompreensíveis e inaceitáveis à mente hodierna. As teologias antigas, que pararam no tempo e no espaço, por se terem tornado dogmáticas e não mais admitirem pesquisas, reagirão, sem dúvida, a esta intromissão em seu terreno. Mas a humanidade está em evolução perene, e não seria compreensível que a parte mais nobre e elevada da humanidade, que é o pensamento e a sabedoria, parassem nos séculos remotos, enquanto a parte inferior, material, estivesse, como está, progredindo a passos gigantescos.

Neste Tratado Teológico, encontramos um Deus perfeitamente aceitável por Sua grandeza, ao invés daquele Deus mesquinho que trazia sempre bombons na mão direita para premiar e um chicote na esquerda para castigar, como qualquer capataz irritadiço e vulgar. Revela-nos uma finalidade à existência, ao invés de um paraíso de ociosidade inútil e egoísta, em que as criaturas ficarão por toda a eternidade gozando ao ver seus entes queridos sofrendo horrorosamente um inferno infindável.

A teoria da queda e da reabilitação dos espíritos é tão lógica que temos a impressão que ela guiará o mundo espiritualizado de amanhã, esclarecendo os pontos obscuros e dando direção à evolução da humanidade, que hoje se debate em problemas sem solução. É um Tratado de Teologia nova e ao mesmo tempo um Tratado de Filosofia Universalista Unitária, que nos apresenta, como um todo único, um só corpo cuja cabeça é Cristo. A segurança de raciocínio jamais abandona o autor a especulações vazias, mas o leva a provas sólidas, em matéria difícil e complexa. É a única teoria que conhecemos, que pode satisfazer o intelecto, a razão e mesmo o coração, porque explica logicamente tudo o que se passa neste mundo. Filosofia, física, química, biologia, sociologia, moral, tudo é examinado conscienciosamente, com minúcias que esgotam o assunto, com inflexibilidade irrespondível, com segurança e acerto.


A parte mais alta do livro O Sistema é constituída pelo capítulo XX, quando o autor nos dá a terceira interpretação da visão. Esta é de uma clareza deslumbrante. Inegavelmente trata-se, nesta obra, de uma revelação descida do Alto, que nos vem trazer luz acerca de problemas que a mente humana, por si só não poderia resolver.

Perguntam-me alguns confrades, como posso aceitar a teoria de Pietro Ubaldi, sendo, como sou, espírita adepto de Allan Kardec. Confesso não ver nenhuma contradição entre as duas teorias.


Para quem lê Kardec superficialmente, detendo-se nas palavras impressas, a teoria de Pietro Ubaldi pode parecer "herética". Mas aos que lêem o mestre penetrando as entrelinhas das respostas dos espíritos, tão sábias e profundas, nada lhes parece de contráditório.

Em primeiro lugar, Allan Kardec tentou penetrar nesse terreno. Todavia os espíritos não lhe deram a resposta ansiada. Podemos encontrar no Livro dos Espíritos a pergunta 39: "Podemos conhecer o modo de formação dos mundos"? E a resposta dos espíritos: "Tudo o que a esse respeito se pode dizer e podeis compreender é que os mundos se formam pela condensação da matéria disseminada no espaço". Não é o que diz Pietro Ubaldi, no capítulo XX? A origem dos universos foi uma "contração", em que o espírito ficou aprisionado dentro da matéria.

Em segundo lugar, o próprio Kardec afirma não ter dito a última palavra, mas apenas a primeira. E que todas as teorias por ele trazidas deveriam ser desenvolvidas à proporção que a ciência progredisse.

Em terceiro lugar, Allan Kardec preocupa-se com o problema da evolução, a partir da matéria primitiva, sem cogitar do que havia ocorrido antes. Ou seja, começa do mesmo modo em que a Bíblia e do mesmo ponto em que A Grande Síntese iniciaram o estudo:
a subida evolutiva dos seres encarnados.

Evidentemente, partiram todos da "matéria", ou seja, dos átomos, cuja concentração formou os universos. Nesse ponto – o infinito negativo, o ponto de chegada da involução, a concentração máxima do espírito – era evidente que "todos os espíritos eram simples e ignorantes" (pergunta 115). Entretanto, é evidente a confusão da palavra "espírito", no sentido de "princípio espiritual" com o sentido de espírito humano.
Mas as próprias respostas dos espíritos e Allan Kardec classificam a origem, pesquisada agora por Pietro Ubaldi, como "mistério": "a origem deles é mistério" (Pergunta 81). E pouco antes: "Quanto ao modo pelo qual nos criou e em que momento o fez, nada sabemos" (Pergunta 78).

Dentro do próprio Livro dos Espíritos, contudo, encontramos em esboço muito rápido e leves pinceladas, a confirmação da teoria ubaldiana. Pergunta Kardec:

"Donde vieram para a Terra os seres vivos"?

Resposta: "A Terra lhes continha os germes, que aguardavam momento favorável para se desenvolverem. Os princípios orgânicos se congregaram (teoria das "unidades coletivas"), desde que cessou a atuação da força que os mantinha afastados" (Pergunta 44). Não é o que diz Pietro Ubaldi?
Mas, acima de tudo, está de pé a resposta à pergunta 540, no fim: "É assim que tudo serve, tudo se encadeia na natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, que também começou por ser átomo. Admirável lei de harmonia, que vosso acanhado espírito ainda não pode apreender em seu conjunto!"

Nada mais cremos seja precioso para provar que a teoria exposta por Pietro Ubaldi, em sua revelação, nada tem de contraditório com a doutrina codificada por Allan Kardec. Antes, vem completá-la e explicá-la, levantando o véu daquele mistério que, há um século, os espíritos julgaram oportuno deixar ainda envolvendo a origem da vida. E isto porque os homens daquela época "ainda não podiam entender" essa origem, pois a ciência não havia demonstrado que matéria é apenas a condensação da energia, e esta a descida das vibrações do espírito.

A frase final da resposta à pergunta nº 83 nos revela bem que Allan Kardec, incontestável mestre codificador, não pôde receber dos espíritos uma doutrina completa, porque o ambiente terrestre ainda não estava preparado. Lemos aí: "É tudo o que podemos, por agora, dizer". Então, há mais coisas a dizer, mas não podiam ser ditas, tal como ocorreu quando Jesus disse a seus apóstolos: "Muitas coisas vos tenho a dizer, mas não as podeis suportar agora" (João, 16:12).

Por que então condenaremos a teoria de Pietro Ubaldi, se ela sem contradizer nem Kardec, nem Jesus, vem trazer-nos luz a respeito de coisas que nem um nem outro nas haviam revelado?

O fato concreto, sob nossa vista, é que a teoria exposta mediante revelação e inspiração por Pietro Ubaldi satisfaz integralmente a todas as indagações científicas, psíquicas, filosóficas, teológicas e espirituais que possamos fazer-nos. Assim sendo, temos que lealmente aceitá-la, até prova em contrário; mas prova que traga argumentos e fatos, experimentações e demonstrações, e não apenas citações do "magister dixit". Hoje o método científico tem de prevalecer para satisfazer tanto à mente concreta quanto à abstrata, tanto à razão quanto à intuição, tanto à inteligência quanto à sensibilidade.

A obra é de suma importância e finca no mundo um marco que dificilmente será removido. Poderá ser mais bem explicado e desenvolvido seu ponto de vista, poderá mesmo ser modificado em seus aspectos secundários. Mas o âmago do problema foi equacionado brilhantemente, e daí poderemos partir para posteriores e maiores pesquisas e buscas. Compete agora ao homem de amanhã essa parte. Mas este já encontrará uma base onde se apoiar, um alicerce sobre o qual poderá erguer novos edifícios. E era isto, justamente, o que faltava à humanidade de hoje, que nada podia edificar em terrenos movediços de mistérios, sobre abismos sem fundo de desconhecimentos confessados. Tudo, dentro da relatividade humana, foi explicado em termos científicos e lógicos. Foi-nos mostrado, com dificuldade por causa da pobreza da linguagem humana, o que a mente do homem perquiria há milênios, e que nos fora dito várias vezes, mas sempre com palavras ocultas, cheias de subentendimentos, que a mente comum não conseguia penetrar.

Para a filosofia e a teologia, este volume constitui um dos mais importantes tratados que já apareceram publicados na face da Terra. É uma luz nova que se levanta no horizonte, um novo sol que vem iluminar as mentes e aquecer os corações, sequiosos de sabedoria e de amor. Porque nele se revelam, em Sua plenitude infinita, a Sabedoria e o Amor de Deus, como centro de tudo, como Seu pensamento a constituir atmosfera psíquica "em que vivemos, nos movemos e existimos (…) porque Dele também somos gerados" (Atos, 17:28)
Carlos Torres Pastorino
- Rio, 5 de Julho de 1957

(Transcrito de https://www.crbbm.org  )


segunda-feira, 13 de maio de 2019

ANJO DE GUARDA

 Nós e nosso Anjo de Guarda e os protetores.



Já pararam para meditar sobre a relação com os anjo de guarda
que Deus coloca junto a nós ? Quem é Ele ?
Ele se dedica incondicionalmente 24 horas do dia a você?

Mas esse Irmão não tem família ? Ele abandona a família para
cuidar de você exclusivamente 24 horas por dia, durante todo
o tempo que você estiver encarnado ?

E não dizem que mesmo depois de desencarnados temos nosso anjo guardião
nos protegendo, e intuindo com bons pensamentos ?
Vamos ler o que os Espíritos da Codificação disseram a Kardec:

 

VI – Anjos da Guarda, Espíritos Protetores, Familiares ou Simpáticos




489. Há Espíritos que se ligam a um indivíduo em particular para o  proteger?
— Sim, o irmão espiritual; é o que chamais o bom Espírito ou o bom gênio.
490. Que se deve entender por anjo da guarda?
— O Espírito protetor de uma ordem elevada.
491. Qual a missão do Espírito protetor?
— A de um pai para com os filhos: conduzir o seu protegido pelo bom caminho, ajudá-lo com os seus conselhos, consolá-lo nas suas aflições sustentar sua coragem nas provas da vida.
492. O Espírito protetor é ligado ao indivíduo desde o seu nascimento?
— Desde o nascimento até a morte, e freqüentemente o segue depois da morte, na vida espírita, e mesmo através de numerosas experiências corpóreas porque essas existências não são mais do que fases bem curtas da vida do Espírito.
493. A missão do Espírito protetor é voluntária ou obrigatória?
— O Espírito é obrigado a velar por vós porque aceitou essa tarefa mas pode escolher os seres que lhe são simpáticos. Para uns, isso é um prazer; para outros, uma missão ou um dever.



493 – a) Ligando-se a uma pessoa, o Espírito renuncia a proteger outros indivíduos?
— Não, mas o faz de maneira mais geral.
494. O Espírito protetor está fatalmente ligado ao ser que foi confiado à sua guarda?
—Acontece freqüentemente que certos Espíritos deixam sua posição pura cumprir diversas missões, mas nesse caso são substituídos.
495. O Espírito protetor abandona, às vezes, o protegido, quando este se mostra rebelde às suas advertências?
— Afasta-se quando vê que os seus conselhos são inúteis e que é mais forte a vontade do protegido em submeter-se à influência dos Espíritos inferiores, mas não o abandona completamente e sempre se faz ouvir. É o homem quem lhe fecha os ouvidos. Ele volta, logo que chamado.
Há uma doutrina que deveria converter os mais incrédulos, por seu encanto e por sua doçura: a dos anjos da guarda. Pensar que tendes sempre ao vosso lado seres que vos são superiores, que estão sempre ali para vos aconselhar, vos sustentar, vos ajudar a escalar a montanha escarpada do bem, que são amigos mais firmes e mais devotados que as mais íntimas ligações que se possam contrair na Terra, não é essa uma idéia bastante consoladora? Esses seres ali estão por ordem de seu Deus, que os colocou ao vosso lado; ali estão por seu amor, e cumprem junto a vos todos uma bela mas penosa missão. Sim, onde quer que estiverdes, vosso anjo estará convosco: nos cárceres, nos hospitais, nos antros do vício, na solidão, nada vos separa desse amigo que não podeis ver, mas do qual vossa alma recebe os mais doces impulsos e ouve os mais sábios conselhos.
Ah!, por que não conheceis melhor esta verdade?
Quantas vezes ela vos ajudaria nos momentos de crise; quantas vezes ela vos salvaria dos maus Espíritos!
Mas no dia decisivo este anjo de bondade terá muitas vezes de vos dizer:
“Não te avisei disso? E não afizeste! Não te mostrei o abismo? E nele te precipitaste! Não fiz soar na tua consciência a voz da verdade, e não seguiste os conselhos da mentira?”.
Ah!, interpelai vossos anjos da guarda, estabelecei entre vós e eles essa terna intimidade que reina entre os melhores amigos! Não penseis em lhes ocultar nada, pois eles são os olhos de Deus e não os podeis enganar!
Considerai o futuro; procurai avançar nesta vida, e vossas provas serão mais curtas, vossas existências mais felizes. Vamos, homens, coragem! Afastai para longe de vós, de uma vez por todas, preconceitos e segundas intenções! Entrai na nova via que se abre diante de vós, marchai,marchai! Tendes guias, segui-os; a meta não vos pode faltar porque essa meta é o próprio Deus.
Aos que pensassem que é impossível a Espíritos verdadeiramente elevados se restringirem a uma tarefa tão laboriosa e de todos os instantes, diremos que influenciamos as vossas almas, embora estando a milhões de léguas de distância: para nós o espaço não existe, e mesmo vivendo em outro mundo os nossos Espíritos, conservam sua ligação convosco. Gozamos de faculdades que não podeis compreender, mas estais certos de que Deus não vos impôs uma tarefa acima de vossas forças, nem vos abandonou sozinhos sobre a Terra, sem amigos e sem amparo.
Cada anjo da guarda tem o seu protegido e vela por ele como um pai vela pelo filho.  Sente-se feliz quando o vê no bom caminho; chora quando os seus conselhos são desprezados.
Não temais fatigar-nos com as vossas perguntas; permanecei, pelo contrário, sempre em contato conosco: sereis então mais forte e mais felizes. São essas comunicações de cada homem com seu Espírito familiar que fazem médiuns a todos os homens, médiuns hoje ignorados, mas que mais tarde se manifestarão, derramando-se como um oceano sem bordas para fazer refluir a incredulidade e a ignorância. Homens instruídos, instruí; homens de talento, educai vossos irmãos. Não sabeis que a obra assim realizais: é a do Cristo, a que Deus vos impõe. Por que Deus vos concedeu a inteligência e a ciência, senão para as repartirdes com vossos irmãos, para os adiantar na senda da ventura e da eterna bem aventurança?
São Luis, Santo Agostinho.



 Comentário de Kardec: A doutrina dos anjos da guarda, velando pelos protegidos apesar da distância que separa os mundos, nada tem que deva surpreender, pelo contrário, é grande e sublime.  Não vemos sobre a Terra um pai velar pelo filho, ainda que esteja distante, e ajudá-lo com seus conselhos através da correspondência?  Que haveria de admirar em que os Espíritos possam guiar, de um mundo ao outro, os que tomaram sob sua proteção, pois se, para eles, a distância que separa os mundos é menor que a que divide os continentes da Terra? Não dispõem eles do fluido universal que liga a todos os mundos e os torna solidários, veículo imenso da transmissão do pensamento, como o ar é para nós o veículo da transmissão do som?
496. O Espírito que abandona o seu protegido, não mais lhe fazendo o bem, pode fazer-lhe mal?
— Os bons Espíritos jamais fazem o mal; deixam que o façam os que lhes tomam o lugar, e então acusais a sorte pelas desgraças que vos oprimem, enquanto a falta é vossa.  
497. O Espírito protetor pode deixar o seu protegido à mercê de um Espírito que o quisesse mal?
— Existe a união dos maus Espíritos para neutralizar a ação dos bons, mas, se o protegido quiser, dará toda força ao seu bom Espírito. Esse talvez encontre, em algum lugar, uma boa vontade a ser ajudada, e a aproveita, esperando o momento de voltar junto ao seu protegido.
498. Quando o Espírito protetor deixa o seu protegido se extraviar na vida, é por impotência para enfrentar os Espíritos maléficos?
— Não é por impotência, mas porque ele não o quer:
Seu protegido sai das provas mais perfeito e instruído, e ele o assiste com os seus conselhos, pelos bons pensamentos que lhe sugere, mas que infelizmente nem sempre são ouvidos. Não é senão a fraqueza, o desleixo ou o orgulho do homem que dão força aos maus Espíritos. Seu poder sobre vós só provém do fato de não lhes opordes resistência.
499.0 Espírito está constantemente com o protegido? Não existe alguma circunstância em que, sem o abandonar, o perca de vista?
— Há circunstâncias em que a presença do Espírito protelar não é necessária, junto ao protegido.
500. Chega um momento em que o Espírito não tem mais necessidade do anjo da guarda?
— Sim, quando se torna capaz de guiar-se por si mesmo, como chega um momento em que o estudante não mais precisa de mestre. Mas isso não acontece na Terra.
501. Por que a ação dos Espíritos em nossa vida é oculta, e por que, quando eles nos protegem, não o fazem de maneira ostensiva?
— Se contásseis com o seu apoio, não agiríeis por vós mesmos e o vosso Espírito não progrediria. Para que ele possa adiantar-se, necessita de experiência e em. geral é preciso que adquira à sua custa; é necessário que exercite as suas forças, sem o que seria como uma criança a quem não deixam andar sozinha. A ação dos Espíritos que vos querem bem é sempre de maneira a vos deixar o livre-arbítrio, porque se não tivésseis responsabilidade não vos adiantaríeis na senda que vos deve conduzir a Deus. Não vendo quem o ampara, o homem se entrega às suas próprias forças; não obstante, o seu guia vela por ele e de quando em quando o adverte do perigo.
502. O Espírito protetor que consegue conduzir o seu protegido pelo bom caminho experimenta com isso algum bem para si mesmo?
— É um mérito que lhe será levado em conta, seja para o seu próprio adiantamento, seja para sua felicidade. Ele se sente feliz quando vê os seus cuidados coroados de sucesso; é para ele um. triunfo, como um preceptor triunfa com os sucessos do seu discípulo.
502 – a) É ele responsável, quando não o consegue?
— Não, pois fez o que dele dependia.
503. O Espírito protetor que vê o seu protegido seguir um mau caminho, apesar dos seus avisos, não sofre com isso e não vê, assim, perturbada a sua felicidade?
— Sofre com os seus erros e os lamenta mas essa aflição nada tem das angústias da paternidade terrena, porque ele sabe que há remédio para o mal, e que o que hoje não se fez, amanhã se fará.
504. Podemos sempre saber o nome do nosso Espírito protetor ou anjo da guarda?
— Como quereis saber nomes que não existem para vós? Acreditais, então, que só existem os Espíritos que conheceis?
504 – a) Como então o invocar, se não o conhecemos?
— Dai-lhe o nome que quiserdes, o de um Espírito superior pelo qual tendes simpatia e veneração; vosso protetor atenderá a esse apelo, porque todos os bons Espíritos são irmãos e se assistem mutuamente.
505. Os Espíritos protetores que tomam nomes comuns são sempre os de pessoas que tiveram esses nomes?
— Não, mas Espíritos que lhes são simpáticos e que, muitas vezes, vêm por sua ordem. Necessitais de um nome: então, eles tomam um que vos inspire confiança. Quando não podeis cumprir pessoalmente uma missão, enviais  alguém de vossa confiança que age em vosso nome.
506. Quando estivermos na vida espírita reconheceremos nosso Espírito protetor?
— Sim, pois freqüentemente o conhecestes antes da vossa encarnação.
507. Os Espíritos protetores pertencem todos à classe dos Espíritos superiores? Podem ser encontrados entre os da classe média? Um pai, por exemplo, pode tornar-se Espírito protetor de seu filho?
— Pode, mas a proteção supõe um certo grau de elevação, e um poder e uma virtude a mais, concedidos por Deus. O pai que protege o filho pode ser assistido por um Espírito mais elevado.
508. Os Espíritos que deixaram a Terra em boas condições podem sempre  proteger os que os amaram e lhes sobreviveram?
— Seu poder é mais ou menos restrito; a posição em que se encontram não lhes permite inteira liberdade de ação.
509. Os homens no estado selvagem ou de inferioridade moral têm igualmente seus Espíritos protetores, e nesse caso esses Espíritos são de uma ordem tão elevada como os dos homens adiantados?
— Cada homem tem um Espírito que vela por ele, mas as missões são relativas ao seu objeto. Não dareis a uma criança que aprende a ler um professor de filosofia. O progresso do Espírito familiar segue o do Espírito protegido. Tendo um Espírito superior que vela por vós, podeis também vos tornardes o protetor de um Espírito que vos seja inferior, e o progresso que o ajudardes afazer contribuirá para o vosso adiantamento. Deus não pede ao Espírito mais do que aquilo que a sua natureza e o grau a que tenha atingido possam comportar.
510. Quando o pai que vela pelo filho se reencarna, continua ainda a velar por ele?
— Isso é mais difícil, mas ele pede, num momento de desprendimento, que um Espírito simpático o assista nessa missão. Aliás, os Espíritos não aceitam senão as missões que podem cumprir até o fim.
O Espírito encarnado, sobretudo nos mundos onde a existência é material, é demasiado sujeito ao corpo para poder devotar-se inteiramente a outro, ou seja, assisti-lo pessoalmente. Eis porque os não suficientemente elevados estão sob a assistência de Espíritos que lhes são superiores, de tal maneira que, se um faltar, por um motivo qualquer, será substituído por outro.
511. Além do Espírito protetor, um mau Espírito é ligado a cada indivíduo com o fim de impulsioná-lo ao mal e de lhe propiciar uma ocasião de lutar entre o bem e o mal?
— Ligação não é bem o termo. É bem verdade que os maus Espíritos procuram desviar o homem do bom caminho quando encontra ocasião, mas quando um deles se liga a um indivíduo o faz por si mesmo, porque espera ser escutado; então haverá luta entre o bom e o mau e vencerá aquele a cujo domínio o homem se entregar.
512. Podemos ter muitos Espíritos protetores?
— Cada homem tem sempre Espíritos simpáticos, mais ou menos elevados, que lhe dedicam afeição e se interessam por ele, como há, também, os que o assistem no mal. 
513. Agem os Espíritos simpáticos em virtude de uma missão?
—Às vezes podem ter uma missão temporária mas em geral são apenas solicitados pela similitude de pensamentos e de sentimentos, no bem como no   mal.
513 – a) Parece resultar daí que os Espíritos simpáticos podem ser bons ou maus?
— Sim, o homem encontra sempre Espíritos que simpatizam com ele qualquer que seja o seu caráter.
514. Os Espíritos familiares são a mesma coisa que os Espíritos Simpáticos ou os Espíritos protetores?
— Há muitas gradações na proteção e na simpatia. Dai-lhes os nomes que quiserdes. O Espírito familiar é antes de tudo o amigo da casa.
Comentário de Kardec: Das explicações acima e das observações feitas sobre a natureza dos Espíritos que se ligam ao homem podemos deduzir o seguinte:
O Espírito protetor, anjo da guarda ou bom gênio, é aquele que tem por missão seguir o homem na vida e o ajudar a progredir. É sempre de uma natureza superior à do protegido.
Os Espíritos familiares se ligam a certas pessoas por meio de laços mais ou menos duráveis, com o fim de ajudá-las na medida de seu poder, freqüentemente bastante limitado. São bons, mas às vezes pouco adiantados e mesmo levianos, ocupam-se voluntariamente de pormenores da vida íntima e só agem por ordem ou com permissão dos Espíritos protetores.
Os Espíritos simpáticos são os que atraímos a nós por afeições particulares e uma certa semelhança de gostos e de sentimentos, tanto no bem como no mal. A duração de suas relações é quase sempre subordinada às circunstâncias.
O mau gênio é um Espírito imperfeito ou perverso que se liga ao homem com o fim de o desviar do bem, mas age pelo seu próprio impulso e não em virtude de  uma missão. Sua tenacidade está na razão do acesso mais fácil ou mais difícil que encontre. O homem é sempre livre de ouvir a sua voz ou de a repelir.
515. Que se deve pensar dessas pessoas que parecem ligar-se a certos indivíduos para levá-los fatalmente à perdição ou para guiá-los no bom caminho?
— Algumas pessoas exercem um efeito sobre outras, uma espécie de fascinação que parece irresistível. Quando isso acontece para o mal são maus Espíritos, de que se servem outros maus Espíritos, para melhor subjugarem as suas vítimas. Deus pode permiti-lo para vos experimentar.
516. Nosso bom e nosso mau gênios poderiam encarnar-se para nos acompanharem na vida de maneira mais direta?
— Isso acontece algumas vezes, mas freqüentemente, também, eles    encarregam dessa missão outros espíritos encarnados que lhes são simpáticos.
517. Há Espíritos que se ligam a toda uma família para protegê-la?
—Alguns Espíritos se ligam aos membros de uma mesma família, que vivem juntos e são unidos por afeição, mas não acrediteis em Espíritos protetores do orgulho das raças.
518. Sendo os Espíritos atraídos aos indivíduos por simpatia, serão igualmente a reuniões de indivíduos, por motivos particulares?
— Os Espíritos vão de preferência aonde estão os seus semelhantes, pois nesses lugares podem estar à vontade e mais seguros de ser ouvidos. O homem atrai os Espíritos em razão de suas tendências, quer esteja só ou constitua um todo coletivo, como uma sociedade, uma cidade ou um povo. Há, pois, sociedades, cidades e povos que são assistidos por Espíritos mais ou menos elevados, segundo o seu caráter e as paixões que os dominam. Os Espíritos imperfeitos se afastam dos que os repelem e disso resulta que o aperfeiçoamento moral de um todo coletivo, como o dos indivíduos, tende a afastar os maus Espíritos e a atrair os bons, que despertam e mantêm o sentimento do bem nas massas, da mesma maneira por que outros podem insuflar-lhes as más paixões.
519. As aglomerações de indivíduos, como as sociedades, as cidades, as nações têm o seus Espíritos protetores especiais?
— Sim, porque essas reuniões são de individualidades coletivas que marcham para um objetivo comum e têm necessidade de uma direção superior.
520. Os Espíritos protetores das massas são de natureza mais elevada que a dos que se ligam aos indivíduos?
— Tudo é relativo ao grau de adiantamento das massas como dos indivíduos.
521. Alguns Espíritos podem ajudar o progresso das Artes, protegendo os que delas se ocupam?
— Há Espíritos especiais e que assistem aos que os invocam, quando os julgam dignos; mas que quereis que eles façam com os que crêem ser o que não são? Eles não podem fazer ver os cegos nem ouvir os surdos.
Comentário de Kardec:
Os antigos haviam feito desses Espíritos divindades especiais. As Musas eram a personificação alegórica dos Espíritos protetores das Ciências e das Artes, como designavam pelos nomes de lares e penates os Espíritos protetores da família. Entre os modernos, as artes, as diferentes indústrias, as cidades, os países têm também seus patronos ou protetores, que são os Espíritos superiores, mas sob outros nomes.
Cada homem tendo os seus Espíritos simpáticos, disso resulta que em todas as coletividades a generalidade dos Espíritos simpáticos está em relação com a generalidade dos indivíduos; que os Espíritos estranhos são para elas atraídos pela identidade de gostos e de pensamentos; em uma palavra, que essas aglomerações, tão bem como os indivíduos, são mais ou menos bem envolvidas, assistidas e influenciadas segundo a natureza dos pensamentos da multidão.
Entre os povos, as causas de atração dos Espíritos são os costumes, os hábitos, o caráter dominante, as leis, sobretudo, porque o caráter da nação se reflete nas suas leis. Os homens que fazem reinar a justiça entre eles combatem a influência dos maus Espíritos. Por toda parte onde a lei consagra as coisas injustas, contrárias à Humanidade, os bons Espíritos estão em minoria e a massa dos maus, que para ali afluem, entretém a nação nas suas idéias e paralisam as boas influências parciais, que ficam perdidas na multidão, como espigas isoladas em meio de espinheiros. Estudando-se os costumes dos povos, ou de qualquer reunião de homens, é fácil, portanto, fazer idéia da população oculta que se imiscui nos seus pensamentos e nas suas ações(1).




(1) Neste comentário às respostas dos Espíritos, Kardec nos oferece duas indicações importantes: a primeira, referente à interpretação espírita da mitologia, que modifica tudo quanto os estudos puramente humanos do assunto firmaram a respeito, até hoje, pois mostra que os deuses mitológicos realmente existiam, como Espíritos; a segunda, referente à Sociologia, que à luz do Espiritismo reveste-se também de novo aspecto, exigindo o estudo da interação das coletividades espirituais e humanas para a boa compreensão dos processos sociais. (N. do T.)

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Reflexão

E  trago este trabalho de Pietro Ubaldi para que possamos refletir sobre a importância do respeito recíproco, em todos os níveis, em todas as relações interpessoais, inclusive as do trabalho, que nos tempos atuais anda ficando escasso, onde assistimos pessoas (que abriam portas e serviam como olhos do dono) serem substituídas por um prego aonde a partir de então se penduram as chaves.


Ubaldi, em Princípios de uma Nova Ética comentando  sobre gênero, sexualidade e complementaridade biológica (Yin e Yang do Tao ou Animus e Anima de Carl Jung) :

"São os dois tipos complementares da atividade humana: no homem, a força para vencer, e na mulher, o amor para gerar. No primeiro, temos o chamado sexo forte, e no segundo, o belo sexo. De fato, o que é mais apreciado no homem é a força, enquanto na mulher é a beleza. Estas são às qualidades mais procuradas entre os dois sexos. Conforme estas suas qualidades, cada um dos dois tipos, pelo seu egocentrismo, gostaria de impor-se dominando o outro. Isto porque quanto mais evoluídos tanto mais são aliados, quanto mais involuídos tanto mais são rivais, como em nosso mundo inferior. Para o macho, o ser da força, o amor se torna um ato de conquista; para a fêmea, o ser do amor, a conquista se torna um ato de amor. Assim, o amor é uma luta e o macho se apossa dele com a força, enquanto a mulher busca esse amor com as armas da beleza e da bondade. Desse modo, os dois biótipos, apesar de raciocinarem com formas mentais opostas, como antípodas, atraem-se e se unem fora do próprio raciocínio; mesmo sem se compreenderem permutam o amor, conseguindo atingir uma fusão em que ambos ficam satisfeitos, porque cada um pode compensar o outro na sua complementaridade, cedendo e recebendo aquilo que um tem demais e o outro de menos. Estes são os dois modelos que a vida nos oferece em nosso planeta em relação ao fenômeno do sexo, inclusive o da raça humana. Neste terreno, derivam dois tipos fundamentais da ética:
 1) a ética masculina da força, de natureza sexófoba. 2)  a  ética  feminina do amor, de natureza  sexófila.
      
Trata-se de dois aspectos inversos e complementares da ética humana do sexo e a razão de sua estrutura. A história da humanidade desenvolveu-se seguindo ora um, ora outro, destes dois tipos de ética. E houve e há povos e raças do 1° tipo, com a respectiva forma mental, amarrados à ética sexófoba; e houve e há povos e raças do 2° tipo, com a respectiva forma mental, amarrados à ética sexófila. Agora que observamos as origens, a natureza e a razão desse fenômeno, podemos compreender o problema do sexo e da sua ética.(...) No mundo, encontramos povos de diversas naturezas:                                 os guerreiros conquistadores, com virtudes masculinas de força, trabalho e inteligência, e uma forma mental que despreza o amor, da qual deriva uma ética sexófoba;                                                e os povos pacíficos, sensíveis, com virtudes femininas de bondade, tranquilidade e sentimento e uma forma mental que aprecia o amor, da qual deriva uma ética sexófila.                                    Essa distribuição que encontramos no espaço, também a encontramos no tempo. A história oferece-nos períodos masculinos e femininos.                      O ser humano vai oscilando alternadamente de um pólo a outro do fenômeno. Ora prevalece, desenvolvendo-se um lado, ora outro, enquanto o seu contrário fica à espera. Trata-se de posições e qualidades opostas e complementares. O povo ou o tempo que desenvolve uma, não pode desenvolver a outra. Elas têm que funcionar em rodízio, uma de cada vez. Nos períodos de paz, o ser trabalha em sentido feminino (requinte, sexualidade, arte, exterioridade religiosa etc.).                                Nos períodos de guerra, ele trabalha em sentido masculino (agressividade, conquistas, expansão política e comercial, inteligência e progresso no conhecimento etc.).
 No primeiro caso, o modelo é a mulher, e o homem torna-se efeminado (como no século XVIII). 
No segundo caso, o modelo é o homem, e a mulher se masculiniza (como no tempo atual de emancipação e independência feminina).                 No primeiro período, o espírito feminino domina tudo, inclusive o homem.                                               No segundo período, o espírito masculino domina tudo, inclusive a mulher.                                        A mulher vence e prevalece e o homem vive em função dela (como amante). Ou o homem vence e prevalece e a mulher vive em função dele (reduzida a máquina para gerar guerreiros). Os dois pólos do dualismo lutam um contra o outro para prevalecer. Logo que um, por ter funcionado, se esgota, o outro leva vantagem sobre ele, e ao contrário. Vive em contínua oscilação ou compensação, o que se perde de um lado ganha-se do outro, e ao contrário. Não se pode existir na plenitude duma posição, sem que isto gere um vazio correspondente na posição oposta. Não se pode triunfar em cheio em ambos os pólos, opostos, ao mesmo tempo. Ou um, ou outro. Quando é a mulher que domina, o homem perde a sua virilidade, as suas qualidades de luta, trabalho e agressividade (tipo Luís XV e XVI na França). Quando é o homem que domina, a mulher perde a sua feminilidade para tornar-se masculinizada, trabalhadora, independente, lutadora ao lado do homem, é até contra ele. Assim acontece nos períodos revolucionários ou bélicos, destrutivos-reconstrutivos, em que se realiza o maior esforço evolutivo. O contrário ocorre nos períodos opostos. Depois de ter realizado o seu esforço, cada tipo repousa, enquanto funciona o tipo contrário, gozando neste intervalo dos frutos do seu trabalho precedente, para depois iniciar novo período, como antes, assim por diante. Desse modo, nesta forma alternativa continua o trabalho de ambos, trabalho em que cada um dos dois tipos, complementares, compensa e corrige o outro. Se assim não fosse, o princípio feminino, sozinho, acabaria apodrecendo na estagnação da inércia; enquanto o princípio masculino, sozinho (não compensado pelo seu oposto), acabaria destruindo tudo. Como se vê, logo que colocamos tudo em seu devido lugar, aparece a sua razão de existir, a sua função lógica que o justifica. Nada há de errado nas leis da vida, cada um tem a sua tarefa a realizar. Não se pode falar de superioridade ou inferioridade, basta observar a inteligente divisão de trabalho. Por isso, não há lugar para desprezo ou condenações. Ao completarem-se na diversidade, todos têm razão. Aqui, procuramos mais descobrir e explicar a realidade dos fatos do que impor conclusões e opiniões. Afirmamos acima que em geral, os povos guerreiros e conquistadores seguem uma ética sexófoba, enquanto os pacifistas e sentimentais seguem uma ética sexófila. Perguntamos: por que acontece isso? Acontece então que, quanto mais o ser se torna poderoso e é exuberante de um dos lados, tanto mais se enfraquece e sente falta do outro. A vida completa essas unilateralidades opostas, espalhadas no espaço e no tempo, compensando reciprocamente a complementação de ambos os termos. Ela atinge o equilíbrio e a ordem num conjunto completo, permitindo que funcionem as duas qualidades opostas, alternadamente. Foi assim que à corrupção do reinado de Luís XV, com a sua ética sexófila dirigida para o prazer, seguiu-se a revolução francesa com o feroz puritanismo de Robespierre e o período guerreiro napoleônico, com a sua ética sexófoba voltada para a conquista. A vida acordou e renovou aquela sociedade, que de outro modo teria apodrecido na inércia. Trata-se de dois impulsos fundamentais, dirigidos por dois caminhos diferentes, para a defesa e a conservação da vida. Trata-se de duas qualidades complementares: fortalecer os instintos de agressividade, enfraquecendo os eróticos, e ao contrário. Por isso, nas sociedades militaristas e imperialistas, o que vale e domina é a força, não as qualidades do amor, desprezado como fraqueza feminina. Nos povos e tempos em que vigora a ética sexófoba, a guerra e o trabalho são as coisas mais importantes e o amor vale menos. Nos povos e tempos em que vigora a ética sexófila, a guerra e o trabalho são as coisas menos importantes e o amor vale mais. Quando o ser humano segue o caminho da força e agressividade, negligencia o do amor e ao contrário. Assim, os dois termos opostos, que não podem existir juntos, são: espírito de luta e abandono à sexualidade. Quando um dos dois prevalece, há a absorção de todas as energias tiradas do outro. Quem está preso ao esforço de ataque e defesa pode abandonar-se às satisfações do amor; e quem ficou enredado nestas, não pode defender-se na luta e facilmente será vencido por qualquer agressor. O espírito de luta se une à sexofobia, e com esta ética o encontramos; o amor gera a sexofilia, e com essa ética o encontramos.(...) O problema do sexo está conexo com todos os outros, os quais revelam a sua posição. O ciclo se fecha, aquela civilização de bem-estar sexófila acaba na corrupção, em favor dos novos vencedores sexófobos, até que estes completem um novo ciclo, e assim por diante. Isto é lei da vida, realiza-se tanto para os povos quanto para as classes sociais, as famílias, os indivíduos.(...) Eis como se cumpre o ciclo da transformação das duas lutas complementares. Vemos, assim, como o impulso da agressividade acaba abrindo as portas à realização do impulso da sexualidade; e como o impulso da sexualidade acaba abrindo as portas à realização do impulso da agressividade. No primeiro trecho, trabalha o homem, enquanto vigora a ética sexófoba; no segundo trabalha a mulher, enquanto vigora a ética sexófila. Cada um quer suplantar o outro, substituir-se a ele, invadir todo o terreno, e para isso ambos lutam como rivais, ao mesmo tempo que colaboram para o mesmo objetivo. A razão que funde, em unidade, os dois termos da contradição é porque eles são de natureza complementar; cada um dos dois egocentrismos opostos necessita do outro para sobreviver. O resultado final de todo o processo é que os dois opostos, conservando o seu egocentrismo, trabalham em concordância, como os dois pólos da mesma unidade, para cumprirem a metade que a cada um cabe do mesmo ciclo comum."
Princípios de uma Nova Ética, Pietro Ubald