Postagens relacionadas à doutrina espírita e ao espiritualismo e Ensinamentos sobre a obra de Pietro Ubaldi. Muito será cobrado aos que muito receberam. E, se chegamos a atual personalidade , foi por trabalho da individualidade; o Espírito é unigênito. AMAI-VOS (a sí próprio e aos semelhantes) ! No Amai-vos devemos incluir nossos irmãos os animais; a ciência, no desvendamento do genoma humano, provou que os laços são estreitos. INSTRUÍ-VOS !
sexta-feira, 25 de abril de 2014
E, hoje, abrindo o Evangelho, veio Item 5 do capitulo XX - Os Obreiros do Senhor, de autoria d 'O Espírito de Verdade, em Paris - 1862.
"Atingistes o tempo do cumprimento das coisas anunciado para a transformação da humanidade; felizes serão aqueles que tiverem trabalhado na seara do Senhor com desinteresse e sem outro móvel senão a caridade!
..."irmãos, trabalhemos juntos, e unamos os nossos esforços a fim de que o Senhor encontre a obra pronta à sua chegada".
..."mas ai daqueles que, por suas dissenções, terão retardado a hora da colheita, porque a tempestade virá e serão carregados no turbilhão...
Aquele que não teve piedade dos irmãos e se recusaram a estender-lhes a mão, que esmagaram o fraco em vez de os sustentar, que usufruiram das alegrias na terra e na satisfação do orgulho já receberam a recompensa terrestre e não terão as celestes, que são reservadas para os que não as pediram na Terra.
"Deus faz neste momento o recenseamento dos seus servidores fiéis, e marcou com o seu dedo aqueles que não têm senão a aparência do devotamento, a fim de que não usurpem mais o salário dos servidores corajosos, porque é àqueles que não recuarem diante de suas tarefas que vai confiar os postos mais difíceis na grande obra de regeneração pelo Espiritismo, e estas palavras se cumprirão: "Os primeiros serão os últimos, e os últimos serão os primeiros no reino dos céus!" (O Espírito de Verdade, Paris, 1862)"
Se estamos aqui, nesta hora, provavelmente, alguns estarão no curso de sua evolução normal... outros de nós, quem sabe a maioria, segue dentre os que estão tendo a última oportunidade de ajuste às leis do amor incondicional.
Nunca, se sabe hoje, houve tanta divulgação das mensagens vindas do plano extrafísico. Estas mensagens sempre chegaram, mas o Mestre avisou que iria nos enviar o Consolador, a bússola para seguir no caminho da fraternidade, da caridade.
O que temos visto no planeta é a predominância dos interesses econômicos sobre os morais e principalmente, sobre os princípios basilares da caridade. Não nos enganemos, o homem ainda não se afastou do barbarismo.
Os direitos prevalecem somente até certo ponto, enquanto não arranham os interesses econômicos dos poderosos, que, como sempre, continuam a ditar as leis. A fim de enganar os menos cultos, criaram e alimentam uma falsa liberdade, onde ela nos é posta à disposição desde que satisfaçamos, com pagamento de impostos, de taxas, de multas originadas em proibições ridículas que só visam arrecadar e disponibilizar para aplicação em projetos que sempre consomem os recursos e nenhum retorno trazem. Bilhões e bilhões desaparecem e nada retorna, de prático, àqueles que realmente necessitam, que têm pouco. Se conseguem chegar ao hospital, é para aguardar o instante do desfecho e não há responsáveis.
Mas, com certeza, estamos no lugar que preparamos para nós mesmos
pois se fizéssemos parte dos bons, com certeza estaríamos em planos mais elevados, trabalhando em favor da causa do Mestre...
Muito se fala em fim dos tempos, uns acreditam.. outros debocham... mas falar em fim dos tempos e muito genérico e é mais seguro falar em RENOVAÇÃO.
Por enquanto nosso planeta é capaz de abrigar a vida, na forma que temos aqui e o Pai não desperdiçará, mas nosso planeta é um ser vivo, e temos em nosso corpo os mesmos elementos que são encontrados nesta nave que nos leva passear em torno do Sol, a aproximadamente 107.000 km por hora, mas, sempre no processo incessante de acomodação das suas camadas. O núcleo segue esfriando, provocando ação e reação interna que um dia se refletirá mais vigorosamente nas camadas exteriores, num passeio da natureza das coisas... hoje, sabemos a que viemos.... já temos a resposta àqueles perguntas antigas:
De onde viemos?
Para onde vamos?
O Consolador nos trouxe as respostas... a literatura espírita complementar nos trouxe as explicações.
Tenhamos a mente aberta para receber aquilo que necessitamos, mas o básico já é de nosso conhecimento:
A Fraternidade...
A Caridade...
O Amor Incondicional...
Aquele que dá sem que uma mão saiba o que a outra faz está atendendo o pedido do Mestre, enquanto que aquele que recebe a caridade, recebe também o exemplo dela e assim se fixa o bem onde o mal prevalece.
Não será criticando programas do governo como o bolsa família, por exemplo, sob a alegação de que muitos não querem trabalhar, só querem fazer filhos que estaremos sendo justos, porque aquele que recebe injustamente, não ficará sem prestar contas pois nada escapa da justiça divina, da consciência do indivíduo. E, ainda, tem o outro lado... encontrar um lar que propicie um corpo para reencarnar não é fácil... Com o advento da transição planetária isto já não está sendo permitido a muitos irmãos que desperdiçaram oportunidades que lhes foram concedidas pela benevolência Divina.
Se o Pai celestial nos deu o corpo sadio, a mente perfeita, a inteligência, isto não quer dizer que é para nosso proveito próprio, para enriquecer e para obter o supérfluo... não! é para que possamos saber distribuir as riquezas, inclusive contribuir para desenvolver a inteligência dos irmãos que estão próximos... mas este próximo não é apenas geográficamente, e, sim, em todos os sentidos que se possam entender.
Trigueirinho, no livro Miz Tli Tlan divulgou um mapa geográfico mundial, com a possível conformação do planeta, após a renovação que se aproxima. Não é fanatismo, nem intenção de alarmar, mas realmente ela ocorrerá, assim como já ocorreu antes, conforme a ciência nos ensina, sendo o mais próximo o que deu origem à extinção dos dinossauros. Basta um simples cometa de maior porte atingir qualquer ponto dos oceanos que as ondas - e hoje a ciência já demonstra - se alastrarão por todo o planeta. Se não cai no oceano, cairá no continente... levantar-se-á nuvem de poeira que cobrirá a superfície do planeta, obstruirá o sol e em pouco tempo não teremos mais alimentos.... enfim, não resolve ficar construindo hipóteses, mas possibilidades existem porque nosso planeta é uma nave que transita no universo, que podemos chamar de mar, onde outros também transitam.
Atualmente já é de nosso conhecimento que estamos aqui apenas em mais uma passagem, cumprindo apenas mais uma etapa e seja o que for que vier, será para o bem de todos, já que a individualidade se fortalece com a ligação com o criador e a personalidade é apenas uma camada da vestimenta que cada um constrói.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Mensagem da Ressureição - Pietro Ubaldi
II
MENSAGEM DA RESSURREIÇÃO
Pietro Ubaldi (Páscoa de 1932)
De
além do tempo e do espaço chega minha voz. É uma voz universal que fala
ao mundo inteiro e verdadeira permanece através dos tempos. A verdade
não pode sofrer mudanças se olhada por esta ou aquela nação, se
observada por uma raça ou outra, porque a alma humana é sempre a mesma
em toda parte, se examinada em sua profundeza.
Venho
a vós, na Páscoa, acima de tudo para iluminar e confortar, pois vos
achais imersos numa vaga de dores. Crise a denominais e a imaginais
crise econômica. Eu, porém, vos digo que se trata de uma crise
universal, crise de todos os vossos valores morais, de todas as vossas
grandezas. É o desmoronar-se de todo um mundo milenário. Digo-vos que a
crise se encontra sobretudo em vossas almas: crise de fé, de orientação,
de esperanças. É o vertiginoso momento de grandes mutações.
Trago-vos
esperança, orientação, paz. A cada um falo hoje a palavra da verdade e
do amor, palavra que não mais conheceis. Quero reconduzir-vos às origens
milenárias da fé com o intelecto novo, nascido de vossa ciência. No dia
da Ressurreição, repito-vos a palavra da ressurreição, a fim de que
possais compreender a dor e ultrapasseis as estreitas fronteiras de
vossa vida. Comovido, falo a cada um no sagrado silêncio de sua
consciência.
Ó
tu que lês, afasta-te, por um momento, dos inúteis ruídos do mundo e
escuta! Minha voz não te atingirá através dos sentidos, mas, através
desta leitura, senti-la-ás aflorar dentro de ti na linguagem de tua
personalidade. Minha voz não chega, como todas as coisas, do exterior,
contudo, surgirá em ti, por caminhos desconhecidos, como coisa tua, da
divina profundeza que em ti existe e na qual também estou.
O
universo é infinito e de longe venho, atraído pela tua dor. Nada me
atrai tanto como a dor, porque somente nela o homem é grande, e se
purifica e redime, dirigindo-se para destinos mais elevados. É triste
serdes assim golpeados, mas, somente sofrendo, podeis compreender a
realidade da vida. Exulta, porque este é o esforço da tua ressurreição!
A quem sofre eu digo: “Coragem! És um decaído que na sombra reconquista a grandeza perdida”.
É
a justa reação da Lei que livremente transgredistes e que exige o
retorno ao equilíbrio; instrumento de ascensão, a dor vos aponta o
caminho de que fugistes; impõe-vos reabrirdes vossa alma, fechada pelas
alegrias fáceis que infelizmente vos cegam, para que alcanceis júbilos
mais altos e verdadeiros. A dor é uma força que vos constrange a
refletir e a buscar em vós mesmos a verdade esquecida. É imposição de um
novo progresso.
Abraça
com alegria esse grande trabalho que te chama a realizações mais
amplas. Se não fosse a dor, quem te forçaria a evolver para formas de
vida e de felicidade mais completas?
Não
te rebeles; pelo contrário, ama a dor. Ela não é uma vingança de Deus e
sim o esforço que vos é imposto para mais uma conquista vossa.
Não
a amaldiçoes, mas apressa-te a pagar o débito contraído pelo abuso da
liberdade que Deus te deu para que fosses consciente. Abençoa essa força
salutar que, superando as barreiras humanas, sem distinção transpõe
todas as portas, penetra o que é secreto, e fere, e comanda, e dispõe, e
por todos se faz compreender. Abraça a dor, ama-a, e ela perderá sua
força. Aceita a indispensável escola das ascensões. Se te revoltares,
tua força nada conseguirá contra um inimigo invisível e a violência, em
retorno, mais impetuosamente cairá sobre ti.
Coragem!
Ama, perdoa e ressuscita! Não procures nos outros a origem de tua dor,
mas, sim, em ti mesmo, e arrepende-te. Lembra-te de que a dor não é
eterna, porém uma prova que dura até que se esgote a causa que a gerou.
Tua dor é avaliada e não irá jamais além de tuas forças. O mundo foi
criado para a alegria e a alegria lhe voltará. Da outra margem da vida,
outras forças velam por ti e te estendem os braços, mais do que tu
ansiosas pela tua felicidade.
Falei com o coração ao homem de coração. Falarei agora à inteligência.
Tendes,
ó homens, a liberdade de vossas ações, nunca a de suas conseqüências.
Sois senhores de semear alegria ou dor em vosso caminho, e não o sois de
alterar a ordem da vida. Podeis abusar, porém, se abusardes, a dor
reprimirá o abuso. De cada um de vossos males, fostes vós mesmos que
semeastes as causas.
O
maior erro de vossos tempos é a ignorância da realidade moral, íntima
orientação da personalidade, que é o fundamento da vida social.
O
homem moderno se aproxima de seu semelhante para tomar-lhe alguma
coisa, nunca para beneficiá-lo. A vossa civilização, que é econômica,
está baseado no princípio “do ut des” , que é a psicologia do egoísmo. É
a força econômica sempre a reger o mundo. A psicologia coletiva não é
senão a soma orgânica dessas psicologias individuais. A riqueza se
acumula onde a força a atrai, e não onde a necessidade ou superiores
exigências a reclamam; não constitui instrumento de uma vida de justiça e
de bem, mas, sim, máquina de poder, representando, em si mesma, um
objetivo. A lei de equilíbrio é constantemente violada e impões reações.
Não dominais a riqueza, conduzindo-a a fins mais elevados: é a riqueza
que vos domina.
Trabalhai,
mas que o escopo do vosso trabalho não se reduza apenas a proveitos
isolados e egoístas, e sim a frutificar no organismo social; somente
então se formará aquela psicologia coletiva, que é a única base estável
da sociedade humana.
Fazei
o bem, todavia, lembrai-vos de que o pobre não deseja propriamente o
supérfluo de vossas riquezas, mas que desçais até ele, que partilheis de
sua dor e, até, que a tomeis para vós, em seu lugar.
Venerai
o pobre: ele será o rico de amanhã. Apiedai-vos do rico que amanhã será
o pobre. Todas as posições tendem a inverter-se a fim de que o
equilíbrio permaneça constante. A riqueza tende para a pobreza e a
pobreza para a riqueza. Ai daqueles que gozam! Bem-aventurados os que
sofrem! Esta é a Lei.
Não
confieis no mundo, que rirá convosco enquanto tiverdes força e
bem-estar; confiai, antes, em mim, que venho quando sofreis e vos trago
auxílio e conforto. Já vedes, hoje, que a dor realmente existe e que nem
o ceticismo nem qualquer poder humano conseguem afastá-la.
Uma
radical mudança verificar-se-á na sociedade humana, a fim de que a vida
não seja um ato de conquista, onde triunfe o mais forte ou o mais
astuto, mas, sim, um ato de bondade e de sabedoria em que seja vitorioso
o mais justo. Investigando-as com vossa ciência, achareis no íntimo das
coisas essa suprema Lei de equilíbrio que vos governa; aprendereis que a
bravura da vida não está em violar essa Lei, semeando para vós mesmos
reações de dor, porém, em segui-la, semeando efeitos de bem. Deveis
também aprender que o vencedor não é o mais forte – esse é um violador –
e sim quem segue conscientemente o curso das leis e sem violência se
equilibra no seio das forças da vida. As religiões já o revelaram,
entretanto, não acreditastes; a ciência o demonstrará, todavia não
desejareis ver. O momento é decisivo. Ai de vós se, nesta vitória de
civilização material em que viveis, desejardes ainda perseverar no nível
do bruto.
Está
maduro o mundo, mas, ao mesmo tempo, cansado de tentativas e
experiências, do irresolúvel emaranhado de vossos expedientes; cansado
de viver no momento, em face de um amanhã repleto de incógnitas; e quer
seriamente prever e resolver os grandes problemas da vida, quer
francamente olhar o futuro, ainda que isso reclame uma grande coragem.
O
mundo tem necessidade da palavra simples e forte da verdade e não de
novas astúcias a rolarem por velhos caminhos. O mundo espera essa
palavra com ansiedade, como também a aguarda o momento histórico.
A
psicologia coletiva tem o pressentimento, embora confuso, de uma grande
mudança de direção; sente que o pensamento humano, não mais infantil,
apresta-se para tomar as rédeas da vida planetária e que o homem vai
substituir o equilíbrio instintivo e cego das leis biológicas por outro
equilíbrio, consciente e desejado. Por isso está buscando a luz, para
que seu poder não naufrague no caos.
Não
está longe de desaparecer vossa psicologia experimental, que será
substituída pela psicologia intuitiva; esta a muito longe conduzirá
vossa ciência. Novos homens divulgarão a verdade; não mais serão
mártires cobertos de sangue, nem se assemelharão aos anacoretas de
outrora, porém homens de inteligência e de fé, que difundirão seus
pensamentos utilizando-se de moderníssimos recursos, homens que servirão
de exemplo no meio do turbilhão de vossa vida.
Despedaçai
a férrea jaula que o passado para vós construiu, e onde já não vos
resta espaço. Ousai abandonar os velhos caminhos mas não ouseis
loucamente, onde não há razão para ousadias; ousai na direção do alto e
nunca ousareis demasiadamente. Do grande mar de forças latentes, que não
percebeis, imensa vaga levantará o mundo.
Até
lá, guardai a fé! A vossa crise, se é profunda e dolorosa, fará, no
entanto, nascer o homem novo do terceiro milênio. Para resolvê-la,
recordai que ela é mal de substância, que não se debela corrigindo a
forma, como procurais fazer. Para solucioná-la é necessário considereis o
problema em sua substância; e sua substância é o homem, sua psicologia,
sua alma, onde se encontra a motivação de suas ações, a fonte original
dos acontecimentos humanos. Eis aí a chave do futuro.
Vosso
multimilenário ciclo de civilização está a esgotar-se; deveis retomá-lo
em nível mais elevado, vivê-lo mais profundamente, não somente crendo,
mas, também, “vendo”.
Ai
de vós se, depois de haverdes atingido o domínio do planeta, não
dominardes a máquina, a riqueza e as vossas paixões, com um espírito
puro.
Sois
livres e podeis também retroceder. No período que resta deste século se
decidirá do terceiro milênio. Ou vencer, ou morrer: e a morte, desta
vez, é a morte pior, porque é morte de espírito. A todos eu digo :
“Ressuscitai com a minha ressurreição”.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
A Grande Síntese - mensagem de Emmanuel
A GRANDE SÍNTESE - MENSAGEM DE EMMANUEL
Quando todos os valores da civilização do Ocidente desfalecem numa
decadência dolorosa, é justo que saudemos uma luz como esta, que se desprende da
grande voz silenciosa de A Grande
Síntese.
Na
mesma Itália, que vulgarizou o sacerdócio romano, eliminando as mais belas
florações do sentimento cristão no mundo, em virtude do mecanismo convencional
da igreja católica, aparelhos existem da grande verdade, restaurando o
messianismo, no caminho sublime das revelações grandiosas da fé.
A
palavra do Cristo projeta nesta hora as suas irradiações enérgicas e suaves,
movimentando todo um exército poderoso de mensageiros seus, dentro da oficina da
evolução universal. O momento é psicológico. As nossas afirmativas abstraem do
tempo e do espaço, em contraposição às vossas inquietudes; mas, o século que
passa deve assinalar-se por maravilhosas renovações da vida
terrestre.
As
contribuições exigidas serão bem pesadas. Todavia, uma alvorada radiosa sucederá
às angústias deste crepúsculo.
Aqui fala á Sua Voz divina e doce, austera e compassiva. No aparelhamento
destas teses, que muitas vezes transcendem o idealismo contemporâneo, há o
reflexo soberano da sua magnanimidade, da sua misericórdia e da sua sabedoria.
Todos os departamentos da atividade humana são lembrados na sua exposição de
inconcebível maravilha!
É
que, sendo de origem humana a razão, a intuição é de origem divina, preludiando
todas as realizações da Humanidade. A grande lição desta obra é que o Senhor não
despreza o vosso racionalismo científico, não obstante a roupagem enganadora do
seu negativismo impenitente.
Na
sua misericordiosa sabedoria, Ele aproveita todos os vossos esforços, ainda os
mais inferiores e misérrimos. Toma-vos de encontro ao seu coração augusto e
compassivo, unge-vos com o Seu amor sem limites, renovando os Seus ensinamentos
do Mar da Galiléia.
Vede, pois, que todos os vossos progressos e todos os vossos surtos
evolutivos estão previstos no Evangelho. Todas as vossas ciências e valores, no
quadro das civilizações passadas e no mecanismo das que hão de vir, estão
consubstanciados na sua palavra divina e redentora.
A Grande Síntese é o Evangelho da Ciência,
renovando todas as capacidades da religião e da filosofia, reunindo-as à
revelação espiritual e restaurando o messianismo do Cristo, em todos os
institutos da evolução terrestre.
Curvemo-nos diante da misericórdia do Mestre e agradeçamos de coração
genuflexo a sua bondade. Acerquemo-nos deste altar da esperança e da sabedoria,
onde a ciência e a fé se irmanam para Deus.
E,
enquanto o mundo velho se prepara para as grandes provações coletivas, meditemos
no campo infinito das revelações da Providência Divina, colocando acima de todas
as preocupações transitórias, as glórias sublimes e imperecíveis do Espírito
imortal.
Pedro Leopoldo, Outubro de 1938
(Mensagem recebida por Francisco Cândido
Xavier).
Mensagem do Perdão
III
MENSAGEM DO PERDÃO
Pietro
Ubaldi
(2
de agosto de 1932, dia do “Perdão da Porciúncula” de São Francisco)
Filho
meu, minha voz não despreza tuas pequeninas coisas de cada dia, mas delas se
eleva para as grandes coisas de todos os tempos.
Ama
o trabalho, inclusive o trabalho material. Coisa elevada e santa, o trabalho,
presentemente, foi transformado em febre. De que não se tem abusado entre vós?
Que coisa ainda não foi desvirtuada pelo homem? Em tudo vos excedeis e, por
isso, ignorais o labor equilibrado, que tão elevado conteúdo moral encerra: se
busca o necessário ao corpo, ao mesmo tempo contenta o espírito. E, no entanto,
transformastes esse dom divino, com o qual poderíeis plasmar o mundo à vossa
imagem, em tormento insaciável de posse. Substituístes a beleza do ato criador,
completo em si mesmo, pela cobiça que nunca descansa. Quantos esforços
empregados para envenenar-vos a vida!
Ama
o trabalho, mas com espírito novo; ama-o, não pelo que ele é propriamente,
porém, como um ato de adoração a Deus, como manifestação de tua alma, nunca
como febre de riqueza ou domínio. Não prendas tua alma aos seus resultados, que
pertencem à matéria e, portanto, sujeitos à caducidade; ama, porém, o ato,
somente o ato de trabalhar. Não seja a posse, o triunfo, a tua recompensa, mas
sim, a satisfação íntima de haveres cumprido, cada dia, o teu dever,
colaborando assim no funcionamento do grande organismo coletivo.
Esta
é a única recompensa verdadeira, indestrutível, solidamente tua; as demais
depressa se dissipam e se perdem. Ainda que nenhum resultado positivo
obtivesses, uma recompensa ficaria contigo para sempre: a paz do coração, paz
que o mundo perdeu por prender-se às coisas concretas, julgando-as seguras.
Desapega-te
de tudo, inclusive do fruto de teu trabalho, se queres entrar na posse da paz.
Ocupa-te das coisas da Terra, mas apenas o suficiente para aprenderes a
desapegar-te delas.
Toda
construção deve localizar-se no teu espírito, deve ser construção de qualidades
e disposições da personalidade, e não edificação na matéria, que é um remoinho
de areia que nenhum sinal pode conservar.
Tudo
o que quiserdes vos seja unido eternamente deve ser unido por qualidades e
merecimento, deve ser enlaçado pela força sutil da Lei, por vós movimentada,
nunca por vossa força exterior, ou por vínculos das convenções sociais ou ainda
por liames da matéria. Só nesse sentido se pode realmente possuir: de outro
modo, não obtereis senão a tristeza depois da ilusão e a consciência posterior
da inutilidade de vossos esforços.
Outro
grande problema, que voz diz respeito, é o amor. Elevai-vos em amor, como
deveis elevar-vos em todas as coisas, se quereis encontrar profundas alegrias.
Martelai vossa alma, num íntimo trabalho de cada dia, que vos leva à conquista
de amores sempre mais extensos, únicos que têm a resistência das coisas
terrenas.
Sabes
que o amor se eleva do humano ao divino e que nessa ascensão ele não se
destrói, mas se fortalece, aperfeiçoando e multiplicando-se. Segue-me e, então,
poderás entoar o cântico do amor:
“Meu
corpo tem fome e eu canto; meu corpo sofre e eu canto; minha vida é deserta e
eu canto; não há carícias para mim, porém todas as criaturas vêm à mim. Meu
irmão de mim se aproxima como inimigo, para prejudicar-me, e eu lhe abro os
braços em sinal de amor. Eu vos bendigo a todos vós que me trazei dor, porque
com ela me trazeis a purificação, que me abre as portas do Céu. Minha dor é um
cântico que me faz subir. louvado sejas, ó Senhor, pelo que é a maior maravilha
da vida; que as pobres intenções malignas de meu próximo sejam para mim a Tua
Bênção”.
Estes
meus ensinamentos são dirigidos mais à vossa intuição que ao vosso intelecto.
Tem um sentido mais amplo o que vos tenho dito: a felicidade dos outros é vossa
única felicidade, verdadeira e firme. Significa extinção dos egoísmos num
amplexo universal de altruísmo. Tudo isso pode ser de fácil compreensão, mas é
difícil senti-lo. Não procuro vossa razão que discute, antes busco essa visão
interior que em vós opera, que sente por imediata concepção, que enxerga com
absoluta clareza e lealmente se entrega à ação.
Peço-vos
o ímpeto que somente nasce do calor da fé e que nunca vem pelos tortuosos
caminhos do raciocínio. Não desejo erudição, pesquisas e vitórias do intelecto;
quero, antes, que vejais, num ato sintético de fé e que imediatamente vivais
vossa visão, e personifiqueis a idéia avistada, e resplendais vós mesmos, em
seu esplendor. Somente então a idéia viverá na Terra e personificado em vós
existirá um momento da concepção divina.
Não
estou apelando para vossos conhecimentos nem para vosso intelecto, que não são
patrimônios de todos, mas venho até junto de vós por caminhos inabituais e em
vós penetro como um raio que desce às profundezas e dissipa as trevas, que
cintila e vos arrasta através de novas vias, com forças novas, que levantarão o
mundo como num turbilhão.
Também
falarei, para ser entendido, a linguagem fria e cortante da razão e da ciência,
porém usarei, acima de tudo, da linguagem ardente e direta da fé. Minha palavra
será ora o brado de comando, ora a ternura de um beijo de mãe.
Para
ser por todos compreendida, minha palavra percorrerá os extremos de sabedoria e
de singeleza, de força e de bondade. Será pranto de amargura e remoinho de
paixão; será nostálgico lamento, suspirando por uma grande pátria distante,
como será também ímpeto de ação para até ela conduzir-vos. Minha palavra
rolará, por vezes, como regato susurrante em verde campina, a trazer-vos o
frescor das coisas puras; outras vezes trovejará com os elementos enfurecidos
na fúria da tempestade.
Ao
seio de cada alma quero descer e adaptar-me a fim de ser compreendido; para
cada uma devo encontrar uma palavra que a penetre no mais íntimo, que a abale,
que a inflame e a arroje para o alto, onde eu estou, que até junto de mim a
conduza, onde eu a espero.
Almas,
almas eu peço. para conquistá-las vim das profundezas do infinito, onde não
existe espaço nem tempo, vim oferecer-vos meu abraço, vim de novo dizer-vos a
palavra da ressurreição, para elevar-vos até mim, para indicar-vos um caminho mais
elevado onde encontrareis as alegrias puras.
Vós
vos identificastes de tal modo com a vida física que já não podeis sentir senão
uma vida limitada como a do vosso corpo. Pobre vida, rápida e cheia de
incertezas, enclausurada nas limitações de vossos pobres sentidos. Pobre vida,
encerrada num ataúde, na sepultura que é o corpo a que tanto vos agarrais.
Minha voz encerrará todos os extremos de vossas diferentes psicologias.
Escutai-me!
Não
vos ensino a gozar das coisas terrenas, porque são ilusórias; indico-vos as
alegrias do céu, porque somente estas são verdadeiras. Minha verdade não é a
fácil verdade do mundo; não vos prometo alegrias sem esforços, mas minha
promessa não vos ilude. Meu caminho é caminho de dor, porém, eu vos digo que
somente ele vos conduzirá à liberação e à redenção. Minha estrada é de luta e
de espinhos, mas vos fará ressurgir em mim, que vos saciarei para sempre. Não
vos digo: “Gozai , gozai”, como o mundo vos fala. O mundo, porém, vos engana,
eu não vos enganaria nunca.
Minha
verdade é áspera e nua, contudo é a verdade. Peço o vosso esforço, mas dou a
felicidade. Digo-vos: “Sofrei”, mas junto de vós estarei no momento da dor; com
piedade maternal, velarei por vós; medindo todo o vosso esforço, proporcionarei
as provas segundo vossa capacidade; finalmente, farei o que o mundo não faz:
enxugarei vossas lágrimas.
O
mundo parece espargir rosas, mas na verdade distribui espinhos; eu vos ofereço
espinhos, porém vos ajudarei a colher rosas.
Segui-me,
que o exemplo já vos dei. Levantai-vos, ó homens: é chegado o momento. Não
venho para trazer guerra, mas, sim, paz. Não venho trazer dissensão às vossas
idéias nem às vossas crenças: venho fecundá-las com meu espírito, unificá-las
na minha luz.
Não
venho para destruir e sim para edificar. O que é inútil morrerá por si mesmo,
sem que eu vos dê exemplo de agressividade.
Desejaríeis
sempre agredir, até mesmo em nome de Deus. Com que grande avidez ansiais por
discussões e lutas contra vossos próprios irmãos, prontos a profanar, assim,
minha pura palavra de bondade. Repito-vos: “Amai-vos uns aos outros”. Não
discutais, mas dai o exemplo de virtude na dor, amai vosso próximo; aprendei a
estar sempre prontos para prestar um auxílio, em qualquer parte onde haja um
padecimento a aliviar, uma carícia a oferecer. Vossas eruditas investigações
tornaram tão ásperas vossas almas que não vos permitiram avançar um só passo
para o Céu.
Não
venho para agredir, mas para ajudar; não para dividir, mas unir; não demolir,
mas edificar. Minha palavra busca a bondade, antes que a sabedoria. Minha voz a
todos se dirige. Ela é ampla como o universo, solene como o infinito. Descerá
aos vossos corações, às vezes com a doçura de um carinho, outras vezes
arrastadora como o tufão.
*
* *
Do
alto e de muito longe venho até vós. Não podeis perceber quão longo é o caminho
que nós, puro pensamento, devemos percorrer a fim de superar a imensa distância
espiritual que nos separa de vós, imersos na terra lodosa. Vossas distâncias
psicológicas são maiores e mais difíceis de serem vencidas que as distâncias de
espaço e tempo. Por isso, às vezes, chego fatigado. Minha fadiga, porém, não é
cansaço físico: provém apenas do desalento que me nasce de vossa incompreensão.
E, no entanto, minha palavra tem a doçura da eternidade e do infinito. Tem a
tonalidade tão ampla como jamais possuiu a voz humana: deveríeis, por isso,
reconhecer-me.
Venho
a vós cheio de amor e de bondade, e me repelis. Eu, que vejo os limites da
história de vosso planeta; eu, que num rápido olhar, vejo sem esforço toda a
laboriosa ascensão desta humanidade cujo pai sou; eu me faço pequenino hoje,
limito-me e me encerro num átimo de vosso momento histórico para que possais
compreender-me.
Se
vos falasse com minha voz potente, não me entenderíeis. Meu olhar contempla a
Terra, quando o homem ainda não a habitava e também a vê no futuro distante,
morta, a navegar no espaço como um ataúde de todas as vossas grandezas. Vejo
vosso sol moribundo, depois morto e em seguida chamado a uma nova vida. Vejo,
além desse átomo que é o vosso planeta, uma poeira de astros a revolutearem sem
cessar pelos espaços infinitos, e todos eles transportando consigo humanidades
que lutam, sofrem, vencem e se elevam. tudo vejo, tudo leio nos vossos corações
como nos corações de todos os seres.
Além
do vosso universo físico, vejo um maior universo moral, onde as almas, na sua
laboriosa ascensão, cumprindo seu diuturno esforço de purificação para o Alto,
cantam o mais glorioso hino à Divindade. Esplendorosa luz existe no centro
moral do universo, luz que atrai todos os seres por uma força de gravitação
moral mais poderosa do que aquela que mantém associadas no espaço as grandes
massas planetárias e estelares. tudo vejo, mas nada falo para não vos
perturbar. tudo vejo e minha mão possante firma o destino dos mundos. Poderia
mudar o curso dos astros, mas nós somos lei, ordem e equilíbrio e não aprovamos
violações. Empunho o destino dos povos e, no entanto, venho humildemente até
vós, para entre vós colher o perfume que se desprenda de uma alma simples. Esse
é meu único conforto, quando desço ao vosso mundo, às camadas profundas e
obscuras de matéria densa, formadas de coisas baixas e repugnantes. Aquele
perfume parece perder-se na vossa atmosfera carregada de emanações perniciosas,
como que vencido pelas forças envolventes do mal. Eu o percebo, no entanto,
elegendo-o, e recolho como se guarda uma jóia humilde e gentil, desabrochada na
lama, e a guardo em meu coração, onde ela repousará. É o único carinho que
encontro em vosso mundo, o único hino, puro e singelo, que me faz descansar.
Como a criancinha repousa aos cânticos de sua mãe, que lhe parecem os mais
belos, assim me acalento, invadido por infinita doçura, no seio dessas vozes
humildes dispersas em vosso mundo.
Essa
é a única trégua em meio ao trabalho de iluminar e guiar-vos, ó homens
rebeldes, que acreditais dominar e sois dominados, que pensais subir, mas, na
verdade, desceis. Eu poderia, contudo, atemorizar-vos por de prodígios,
aterrorizar-vos com cataclismos. Convencer-vos-ia, no entanto? Minha mão se
levanta sobre vós, que sois maus, como uma bênção, nunca para vinganças.
Escutai
com atenção esta grande palavra: desejo que o equilíbrio, violado pela vossa
maldade, se restabeleça pelos caminhos do amor e não pelo castigo. Compreendeis
a grande diferença?
Eis
as razões da minha intervenção, da minha presença entre vós.
A
Lei quer o equilíbrio. É a Lei. Vós a desrespeitastes com vossas culpas,
ultrajando assim a Divindade. O equilíbrio "deve" restabelecer-se, a
reação "deve" verificar-se, o efeito "deve" acompanhar a
causa, por vós livremente buscada.
Deus
vos quer livres, já o sabeis. Pois bem, eu venho para que o equilíbrio se
restabeleça pelos caminhos do amor e da compreensão; venho para incitar-vos,
com palavras de fogo, ao entendimento, estimular-vos a retomar livremente a via
da redenção; finalmente, venho ensinar-vos a fazer de vossa liberdade um uso
que vos eleve e salve, e não que vos rebaixe e condene. Venho tornar-vos
conscientes dessa Lei que vos guia e da maneira de restaurardes a ordem
violada, a fim de que essa violação não venha a recair sobre vós, como tremendo
choque de retorno que destruirá vossa civilização.
Venho
para salvar-vos, para salvar o que de melhor possuís, o que fatigosamente os
séculos têm acumulado, ao preço de muitas dores e de muito sangue.
Entre
a necessidade férrea da Lei que, inexoravelmente, volve ao equilíbrio,
interponho hoje o meu amor e a minha luz, como já interpus a minha dor e o meu
martírio!
Homens,
tremei! É supremo o momento. É por motivos supremos que do Alto desço até vós.
Escutai-me: o mundo será dividido entre aqueles que me compreendem e me seguem
e aqueles que não me compreendem e não me seguem. Ai destes últimos! Os
primeiros encontrarão asilo seguro em meu coração e serão salvos; sobre os
outros a Lei, não mais compensada pelo meu amor, descerá inelutavelmente e eles
serão arrastados por um vendaval sem nome para trevas indescritíveis.
Não
vos iludais: reconhecei a minha voz. Reconhecei-a pela sua imensa tonalidade,
pela sua bondade sem fronteiras. Algum homem, porventura, já falou assim?
falo-vos de coisas singelas e elevadas, de coisas boas e terríveis. Sou a
síntese de todas as Verdades.
Não
me oponhais barreiras de vossas almas, mas escutai, ponderai, deixai que este
raio de luz que vem de Deus desça à vossa consciência e a ilumine. Eu vô-lo
rogo, humilhando-me em vossa presença; humildemente, para vossa salvação, eu
vos suplico: escutai a minha voz!
Que
sobre vós desça a paz. A paz! A paz que não mais conheceis venha sobre vossas
almas! Entre vós e a divina justiça está minha oração: “Deus, perdoa-lhes,
porque não sabem o que fazem”.
Pobres
seres perdidos na escuridão das paixões; pobres seres que tomais por luz
verdadeira o ouropel fascinador das coisas falsas da Terra! Pobres seres, maus
e perversos! E, no entanto, sois meus filhos e por amor de vós de novo subiria
à cruz para vos salvar. Pobres seres que, numa vitória efêmera de matéria, que
chamais civilização, haveis perdido completamente o único repouso do coração –
a minha paz.
Escutai-me.
Falo-vos com amor, imenso amor. Fui por vós insultado e crucificado, e vos
perdoei; perdôo-vos ainda e ainda vos amo. Trago-vos a paz. Até junto de vós
retorno para falar-vos de uma ciência que a vossa não conhece, para
pronunciar-vos a palavra que nenhum homem sabe falar, palavra que vos saciará
para sempre. Escutai-me.
Minha
voz conduzirá vosso coração a um êxtase que nenhuma vitória material, que
nenhuma grandeza do mundo jamais vos poderá dar.
Como
um clarão intuitivo, minha luz espargirá sobre vós uma compreensão a que os
laboriosos processos de vossa razão não chegarão jamais. A razão, filha do
raciocínio, discute e calcula, mas eu sou o clarão que em vós se acende e pode,
num átimo, transformar-vos em heróis. Aceitai, suplico-vos, este supremo dom
que vos ofereço e pelo qual vim de tão longe até junto de vós: aceitai esta
dádiva esplêndida, que é a minha paz. É a bem-aventurança do céu, que vos trago
de mãos cheias; é a felicidade que coisa alguma terrena jamais vos poderá dar.
Reconhecei a minha paz! Para recebê-la, abri todas as portas de vossa alma!
Dela saciai-vos, com ela inebriai-vos! É um dom imenso que vos trago do seio de
Deus, é uma graça com que o meu imenso Amor recompensa a vossa ingratidão.
Até
vós eu venho, trazendo os mais lindos dons, para derramar sobre vossas almas a
verdadeira felicidade. Venho para suavizar a Justiça Divina. Fiz longa e
fatigante viagem, do meu Céu radioso às vossas trevas. Vim espontaneamente,
pelo amor que vos consagro. Não renoveis as torturas do Getsêmani, as angústias
da incompreensão humana, os tormentos de um imenso amor repelido.
Quem
sou eu? - perguntais-me.
Sou
o calor do sol matinal que vela o desabotoar da florzinha que ninguém vê; sou o
equilíbrio que, na variação alternadora dos elementos, a todos garante a vida.
Sou o pranto da alma quebrantada, em que desabrocha a primeira visão do divino.
Sou o equilíbrio que, nas mudanças dos acontecimentos morais, a todos promete
salvação. Sou o rei do mundo físico de vossa ciência; sou o rei do mundo moral
que não vedes.
Sempre
me procurais, em toda a parte. Sempre mais profundamente vos escapo, de fibra
em fibra, nas vossas mesas de anatomia, de molécula em molécula nos vossos
laboratórios. Vós me procurais, dilacerando e dissecando a pobre matéria: mas
eu sou espírito e animo todas as coisas. Não com os olhos e os instrumentos
materiais, mas somente com os olhos e os instrumentos do espírito podereis
encontrar-me.
Sou
o sorriso da criança e a carícia materna; sou o gemido daquele que corre implorando
salvação; sou o calor do primeiro raio de sol da primavera, que traz a vida e
sou o vendaval que traz a morte; sou a beleza evanescente do momento que foge;
sou a eterna harmonia do universo.
Sou
Amor, sou Força, sou Idéia, sou Espírito que tudo vivifica e está sempre
presente. Sou a lei que governa o organismo do universo com maravilhoso
equilíbrio. Sou a Força irresistível que impulsiona todos os seres para a
ascensão. Sou o cântico imenso que a criação entoa ao Criador.
Tudo
sou e tudo compreendo, até o mal, porquanto o envolvo e o limito aos fins do
bem. Meu dedo escreve, na eternidade e no infinito, a história de miríades de
mundos e vidas, traçando o caminho ascensional dos seres que para mim se
voltam, seres que atraio com meu Amor e que recolherei na minha luz.
Muitos
mundos já vi antes do vosso, muitos verei depois dele. Vossas grandes visões
apocalípticas para mim são pequeninas encrespaduras nas dimensões do tempo.
Virei, entre raios de tempestade, para dobrar os orgulhosos e elevar os humildes.
Virei vitorioso na minha glória e no meu poder, triunfante do mal, que será
rechaçado para as trevas.
Tremei,
porque quando eu já não for o Amor que perdoa e vos protege, serei o turbilhão
que tempestua, serei o desencadear dos elementos sem peias, serei a Lei que,
não mais dominada pela minha vontade, trazendo consigo a ruína, inexoravelmente
explodirá sobre vós.
Tudo
é conexo no universo; causas físicas e efeitos morais, causas morais e efeitos
físicos. Um organismo compressor vos envolve e nele estais presos em cada ato
vosso.
Minha
poderosa mão firma o destino dos mundos e, no entanto, sabe descer até a mais
humilde criancinha para lhe suster, carinhosamente, o pranto. Essa é minha
verdadeira grandeza.
Ó
vós que me admirais, tímidos, no ímpeto da tempestade, admirai-me, antes, no
poder que tenho de fazer-me humilde para vós, no saber descer do meu elevado
reino à vossa treva; admirai-me nessa força imensa que possuo de constranger
meu poder a uma fraqueza que me torna semelhante a vós.
Não
vos peço que compreendais meu poder, que me situa longe de vós; rogo-vos que
compreendais o meu amor que me assemelha a vós e me coloca ao vosso lado. Meu
poder poderá desalentar-vos e atemorizar-vos, dando-vos de mim uma idéia não
justa, a de um senhor vingativo e despótico. Não quero vossa obediência por
temor. Agora deve despontar uma nova aurora de consciência e de amor. Deveis
elevar-vos a uma lei mais alta e eu retorno hoje para anunciar-vos a boa nova.
Não sou um senhor vingativo e tirânico, como outrora, por necessidade, me
supuseram os povos antigos; sou o vosso amigo e é com palavras de bondade que
me dirijo ao vosso coração e à vossa razão.
Não
mais deveis temer, mas, sim, compreender. Vossa razão infantil já acordou e
nela venho lançar minha luz. Sou síntese de verdade e em toda a parte ela
surgirá, atingindo a luz da vossa inteligência.
Não
trago combates, mas paz. Não trago divisões de consciência e, sim, união de
pensamentos e de espíritos.
A
humanidade terrestre aproxima-se de sua unificação, numa nova consciência
espiritual. Não vos insulteis, pois; antes, compreendei-vos uns aos outros. Que
cada um concorra com o seu grãozinho para a grande fé e que esta vos torne
todos irmãos.
Que
a religião, que é revelação minha, e a ciência, que é o vosso esforço e todas
as vossas intuições pessoais se unam estreitamente numa grande Síntese, e seja
esta uma síntese de verdade.
Porque
eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.
A Salvação segundo Ubaldi, por Gilson Freire
Do site http://www.gilsonfreire.med.br/index.php/ubaldianos/8-artigo/28-a-salvacao-segundo-ubaldi
A Salvação, segundo Ubaldi
O conceito de
salvação apregoado pelo cristianismo tem sido objeto de muitas controvérsias,
sobretudo no âmbito espírita. A exclusiva visão evolucionista, adotada pelo
espiritismo como a única forma de se compreender a vida e o universo, entra em
formal contradição com a noção de salvação veiculada pelo fundamentalismo
cristão. Será possível conciliar esses dois entendimentos aparentemente
antagônicos?
Embasada na
tradição judaica e especialmente nas lições de Jesus e nas afirmações de seus
discípulos diretos, registradas no Novo
Testamento, a teologia cristã entendeu a salvação como a recondução do
homem, expulso do Paraíso pelo pecado de Adão e Eva, ao Reino de Deus. Tal
conceito se responsabiliza inclusive pela própria definição de religião,
palavra que na sua origem latina significa re-ligare,
ou seja, a restauração de uma pretensa “ligação perdida” com o Criador. Assim o
homem é visto como um réprobo, um pecador, que corre o risco de uma condenação
eterna, pelo fato de ser herdeiro da desobediência do primeiro casal. Dessa
forma justificar-se-ia a sua necessidade de ser socorrido e resgatado desse
mundo.
Essa salvação
teria sido proporcionada ao homem pela graça e misericórdia divina, como
indispensável quesito a ser adotado pela nossa fé. Bastaria então crer
firmemente nessa possibilidade para que ela se efetive em nós. Tal conceito
está claramente expresso em todo o Novo Testamento, como, por exemplo, nas
palavras do apóstolo Paulo: "Porque
pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus;
não de obras para que ninguém se glorie" (Efésios 2:8-9).
A doutrina
espírita, não obstante, compreende o homem como um ser que segue uma trajetória
evolutiva rumo à perfeição relativa, por meio da palingenesia (reencarnação),
depois de ter sido criado simples e ignorante. Essa visão, que denominamos evolucionista em contraposição ao
tradicional criacionismo, não
reconhece a necessidade propriamente de uma salvação para o homem. Ele não
precisa ser resgatado de nada, senão evoluir. Assim, salvação passa a ser
simplesmente evolução – o progresso do ser rumo a condições superiores de vida.
Apenas isso.
Nessa
particular visão, como estamos todos inseridos na natural progressão evolutiva,
todos seremos inexoravelmente conduzidos aos planos superiores do espírito.
Desse modo, salvação seria movimento automático, inerente à lei do progresso e
pertinente a todo ser vivo. Empenharmo-nos nessa salvação significa acelerar os
passos na trilha do desenvolvimento. Quem não se empenha em “salvar-se”, ou
seja, aquele que permanece arraigado aos interesses inferiores da vida, apenas
tardará mais tempo em atingir os objetivos finais da evolução. Já o indivíduo
que segue preceitos morais, esmerando-se na prática sincera do bem, dispõe-se
ao mais rápido aprimoramento evolutivo e mais depressa atingirá a vida superior
do espírito. Portanto, ao evadir-se dos mundos de expiação e provas mais
prontamente desfrutará de paz, equilíbrio e felicidade. Já os egoístas,
arraigados aos interesses inferiorizados do espírito, demorar-se-ão nas dores
expiatórias, colhendo os mesmos sofrimentos e privações que semeiam pelos seus
ímpios caminhos.
Salvação,
então, repitamos, passa a ser a aceleração do inevitável progresso da alma. E
assim a visão evolucionista negou enfaticamente os preceitos evangélicos de
resgate da alma da condenação eterna. Precisamos apressar os passos, mas não
guardamos propriamente estrita necessidade de ser salvos, pois não estamos
perdidos. A inferioridade em que nos demoramos é condição natural de vida, faz
parte do roteiro de criação progressiva das almas – do mesmo modo que não
precisamos socorrer nenhuma criança da escola primária, apenas ajudá-la a
percorrer da maneira mais rápida possível as suas indispensáveis lições. Eis por
que um articulista e escritor espírita publicou, certa feita, em importante
revista de espiritismo, um artigo intitulado Salvação? Não obrigado! Dizia o renomado autor: “Não usamos o termo
‘salvação’, que historicamente está vinculado ao salvacionismo igrejeiro, uma
solução que vem de fora. Na realidade aceitamos a evolução, a sabedoria e a
felicidade para todas as criaturas”.
Exatamente por
isso o espírita aboliu a palavra “salvação” de seu discurso. Moldados por essa
nova visão evolucionista, proporcionada pelos preceitos kardecistas, os antigos
conceitos teológico-cristãos tomaram significados próprios, apropriados à
compreensão da vida como um movimento de crescimento de espíritos, criados
simples e ignorantes, rumo à perfeição relativa. Salvação, assim, tornou-se, evolução.
Pecado fez-se nada mais que o erro do espírito ignorante que ainda não
sabe se comportar como o exige a Lei de Deus. Jesus foi compreendido como um educador de almas que veio ao mundo
para impulsionar-nos aos patamares superiores da vida. O titulo de “Salvador”,
o “Messias prometido”, que Ele mesmo se deu e a história humana corroborou,
é-lhe formalmente negado. Ressurreição
converteu-se em reencarnação, sem a
qual o espírito não pode alcançar os planos superiores da vida onde se encontra
Deus. Inferno é panorama íntimo da
alma atormentada pelo necessário processo de corrigenda dos erros cometidos. E céu ou paraíso passa a ser condição
própria da alma que atingiu estágio superior de vida.
E assim a
doutrina espírita construiu uma nova teologia entretecida na exclusiva
interpretação evolucionista da vida, a qual dispensa em absoluto o antigo
entendimento que o fundamentalismo cristão adotou sobre a salvação. A evolução
do espírito é agora movimento inexorável, promovido pela lei do progresso –
inclusive os corolários espíritas não admitem o retrocesso da alma –, então não
há do que sermos salvos. Caminhando pelos múltiplos estágios da escola da vida,
alternando existências ora no mundo espiritual, ora no mundo carnal,
progrediremos sempre até atingir, segundo os preceitos kardequianos, a almejada
perfeição relativa. Pelas quedas morais, comuns à nossa ignorância, podemos
retardar os passos, repetir lições, mas jamais deixaremos de ir adiante, e
evadir-nos-emos indubitavelmente dos palcos inferiores da vida. Portanto,
Kardec, ao afirmar que “fora da caridade não há salvação”, pretendia exatamente
dizer que sem o esforço em realizar obras no bem não há possibilidade de o
homem adiantar os seus passos na jornada do progresso. Estacionado nos interesses
ególatras inferiores, retardar-se-á, multiplicando assim as suas dores
evolutivas e expiatórias – outras consequências não advirão, pois o permanente
avanço é inexorável.
Não estamos
negando esses preceitos. Eles atendem à nossa lógica e estão perfeitamente
aderidos aos nossos conceitos de evolução espiritual. Contudo, podemos, com a
ajuda de Ubaldi, lançar um olhar mais abrangente sobre o conceito de salvação,
compreendendo outros de seus aspectos, ampliando assim um pouco mais o nosso
entendimento.
O estudioso de
Pietro Ubaldi percebe que o tema é mais vasto do que imaginávamos. Com a ajuda
do iluminado mensageiro da Úmbria, compreenderemos que ele extrapola a moderna
compreensão evolucionista e, curiosamente, abarca ao mesmo tempo a clássica visão
fundamentalista cristã. Como pode ser isso?
Para
compreender, faz-se imprescindível abandonar nossas arraigadas posições
dogmáticas. Assim, o cristão fundamentalista deve deixar seu cômodo apego à
letra dos Textos Sagrados; e o espírita carece evoluir a sua moderna
proficiência intelectualizada. Essa é exatamente a dificuldade, pois o primeiro
radicaliza-se em seus preceitos fideístas, e o segundo não dispensa sua
contumaz racionalidade. Então ambos não logram percorrer o pequeno trecho que
os separa de uma verdadeira síntese de conceitos, que nada nega,
favorecendo-nos com uma forma mais avançada e unitária de se divisar a
realidade.
Quem não está
disposto a abdicar de seu entendimento, e sente-se confortável em seu patamar
de compreensão, não está pronto para ir adiante. Ninguém poderá convencê-lo do
que quer que seja. A revelação que nos trouxe Ubaldi é conhecimento de síntese
que requer peculiar predisposição íntima para ser devidamente apreendido. É o
tipo de assunto para o qual devemos estar preparados. E não se presta para quem
não está pronto. Portanto não serve para todos. Sabemos disso. Por isso não
tratamos aqui de impor verdades a ninguém. Além disso, as verdades são como os
frutos, precisam estar maduros para se fazer palatáveis ao espírito. Do
contrário, tornam-se amargos e imprestáveis.
Se as lições
de Ubaldi parecem, a princípio, ferir nossas mais sagradas crenças, é preciso
ainda admitir que o cabedal de verdades disponíveis ao homem atual
evidentemente não corresponde à última realidade do Todo. Faz-se impositivo
aceitar que estamos todos, absolutamente todos, ainda muito distantes da
Verdade plena, pertinente apenas aos altiplanos da evolução do espírito.
Por isso, uma postura de humildade é essencial a nossa permanente ascensão espiritual.
Importa admitir que cada qual está habilitado a perceber um limitado aspecto da
verdade, o qual tomará sempre pelo todo. Exatamente por isso nossas verdades
devem ser periodicamente desestabilizadas, a fim de sermos preparados para
novas e mais dilatadas compreensões. É assim que evoluímos. Desse modo, derruir
antigas verdades e predispor-nos a novas semeaduras de sabedoria é genuína obra
do tempo, em ação em nossa intimidade, visando impulsionar-nos para adiante.
Essa é exatamente a tarefa dos grandes missionários que periodicamente vêm à
Terra e por isso eles nos incomodam. Exatamente porque desestabilizam nossas
cômodas posições de entendimento. Fixados em nosso habitual misoneísmo e sem
suspeitar que estacionamos em corolários provisórios, apressamo-nos a
combatê-los, iludidos de que nossas verdades são eternas e jamais serão
demovidas.
Por isso
sabemos que sequer com Ubaldi atingimos o ápice da verdade. Em absoluto. Não
guardamos tal pretensão. Todos os nossos conhecimentos acham-se incompletos,
pois, como seres em crescimento, estamos ainda muito distantes da verdade
absoluta. Em razão disso não queremos passar a impressão de que nosso conceito
é superior aos demais. Ressaltamos apenas que a revelação que nos trouxe o
missionário do Cristo acalma-nos sobremodo o entendimento, apazigua nossos
atritos ideológicos e ajuda-nos a melhor aceitar nossos aparentes antagonismos.
E, sobretudo, funde-nos perfeitamente com as lições do Evangelho. Eis por que o
julgamos essencial para os nossos atribulados dias.
Debulhemos,
todavia, sem demora o assunto, para que o leitor compreenda tudo isso que
estamos afirmando. Como podemos compreender a salvação tomando por base os
ensinos de Pietro Ubaldi?
O filósofo da
Nova Era ensina-nos que o universo relativista em que vivemos, entretecido em
tempo e espaço, energia e matéria, é uma criação deteriorada, produto de uma
contração espiritual que se denominou queda
do espírito. E essa criação deteriorada em que vivemos, Ubaldi chamou de Anti-Sistema (AS), por achar-se nos
antípodas do universo original, o divino, por ele denominado Sistema (S). Essa queda foi motivada,
resumidamente e até onde nossa razão pode alcançar, pela inadequada opção do
espírito em vivenciar intensamente o egoísmo.
Uma vez que o
espírito arremeteu-se ao AS, detendo-se em sua trama de caos e destruição,
somente uma força íntima, em ação na sua própria substância, poderia soerguê-lo
da hecatombe do egocentrismo. Eis o novo conceito
de salvação, que agora compreendemos como ação de resgate do espírito que
caiu nas malhas do relativismo, imiscuindo-se em malogrados envoltórios
físicos. De outra forma, não se entende por que Deus criaria seres necessitados
de percorrer uma evolução, caracterizada, segundo predisposição natural, por
expiações e purgações, dores e atritos, em permanente regime de purificação,
como a própria doutrina espírita a define.
Segundo a
proposição de Ubaldi, e como aferido pela antiga tradição cristã, a evolução
somente se justifica para seres que optaram pela revolta contra o amor. E evolução
então, como um movimento de expansão do ser, seria nada mais que a reação a uma
anterior avulsão de contração de potencialidades.
Os detalhes
dessa queda nos escapam na atualidade, pois ela extrapola o nosso concebível
por haver ocorrido fora do tempo e do espaço, muito além do que pode a nossa
parca razão atual alcançar. Apenas sabemos que ela se tornou possível na
criação original por havermos sido gerados com o princípio de autonomia. O tema, contudo, não pode aqui ser
abordado, pela extensão e a vastidão de suas implicações. Recomendamos ao
interessado que leia Deus e Universo
e O Sistema, obras nas quais Ubaldi
detalha essas questões. Para quem deseja uma versão resumida e romanceada do
assunto, recomendamos o livro Tabernáculo
Eterno, um trabalho de inspiração mediúnica no qual tivemos participação
especial, publicada pela Editora Inede.
Mediante o
conhecimento da queda do espírito, compreendemos agora que, antes de iniciar a
evolução, o espírito sofreu um processo de condensação involutiva que o arremeteu
à inconsciência, condição que o espiritismo designa como “simples e ignorante”.
Nesse ponto, ele inicia a alçada evolutiva, agora vista como uma reação ao
precedente movimento de involução. A evolução passa assim a ser entendida, de
fato, como a salvação, ou seja, o movimento de recuperação do ser caído na
matéria. Movimento operado por forças poderosas, restauradoras da ordem e da
perfeição perdidas, veiculadas pela ação amorosa de Deus. Forças que lutam
contra a imposição de desordem e destruição que passaram a imperar ao nosso
derredor, as quais se originaram da queda e não propriamente do desejo do
Criador. Essa é a maneira mais lógica de se explicar a presença desses
processos negativos na criação divina, e aceitarmos o fato de que nosso universo
é um palco de batalhas de interesses antagônicos – as forças adversas do AS,
contra as potências regeneradoras e reconstrutoras do S. Ora, uma criação
homogênea, advinda de uma expressão unitária que é Deus, não poderia admitir
essa franca oposição de valores em seu bojo.
Com a queda,
patenteia-se que gravitamos entre os impulsos de destruição e do mal (forças
AS) e as energias do bem e da ordem (forças S), em um universo dualizado,
submetido a uma permanente oposição de valores. E justifica-se porque nosso
cosmo se inicia em meio a uma fenomenal hecatombe, o Big bang, ao qual a inteligência divina trata de impor uma
progressiva ordem e uma crescente complexidade. De outra forma, como aceitar
que Deus, se nada existia, tenha gerado antes o caos para então organizá-lo na
paciente esteira do tempo? Ora, o caos somente pode advir de forças
desordenadas que se investem contra a ordem, jamais da inteligência suprema que
creditamos à infinita Sabedoria do Criador.
Uma vez que se
formou, empreendido pelas forças rebeldes, esse reconhecido e ciclópico tumulto
do universo físico primordial, de que todos participamos, as potências divinas,
reconstrutoras da ordem e do equilíbrio, passaram a agir na sua intimidade
fenomênica, a fim de soerguê-lo do caos. É assim que Ubaldi nos afirma que
“nosso universo é uma doença no seio da eternidade” que será curada pelo
paciente trabalho da evolução, sob orientação divina. A antiga revelação do
Gênese mosaico engrandece agora surpreendentemente aos nossos olhos, ao
recordarmos sua poética e singela linguagem a nos mostrar a ação divina
operando a paulatina ordenação da desordenada massa cósmica na sucessão do
tempo, os “dias” da criação.
Evidentemente
sempre vitorioso, esse dinamismo reconstrutor do universo desmoronado
representa então a salvação de Deus,
que, por amor, caiu junto com a criatura para resgatá-la do báratro de
desordens em que se precipitou. É exatamente essa, a salvação pela graça divina, que foi definida nos Textos Sagrados,
sobretudo no Novo Testamento, e concebida por elevada inspiração mediúnica de
seus autores, como sabemos. Em luta contra a dor, a morte e o mal em todas as
suas expressões, consequências diretas da queda, esse impetuoso impulso
salvacionista, criador e organizador, soergue com êxito o espírito das cinzas
de si mesmo, ajudando-o a refazer a organicidade perdida. E o faz por meio da
longa e paciente elaboração evolutiva, no grande oceano do tempo, em seus quase
intermináveis ciclos de vidas e renascimentos.
Portanto a
evolução é o movimento de retorno ao seio divino que deixamos, representando a
reconstrução da ordem perdida. Por isso, com efeito, como se deduz com ao
auxílio do conhecimento espírita, evolução
significa salvação. Movimento que agora imputamos à graça divina, que por
amor permaneceu junto à criatura para socorrê-la. Aceitar que o dinamismo
evolutivo seja um trabalho de “re-construção” e não de “construção” da ordem,
deslinda-nos o tremendo paradoxo de admitir que Deus teria gerado primeiro a
desordem no Universo, para somente depois ordená-lo, através da lenta ação do
tempo. Isso implicaria que Deus necessita da dimensão tempo-espaço para criar –
sabemos que não deve ser assim, pelo fato de o Criador encontrar-se fora do
tempo e do espaço. E, afinal, teríamos que negar o critério de perfeição que
imputamos a Deus, pois o que é perfeito somente pode gerar perfeição – jamais
algo imperfeito. Ainda que admitamos que a criação se aperfeiçoe mediante a
impreterível ação da evolução, Deus continuaria eternamente criando sob a
chancela da imperfeição.
Assim,
entende-se ainda exatamente por que a evolução é laboriosa, cansativa, e se faz
um permanente movimento de atritos de interesses divergentes – exatamente
porque intimamente resistimos à salvação divina, interessados que nos mantemos
em prosseguir nossa multimilenar rebeldia contra a Sua ordem. Entendemos por
que Deus está aparentemente ausente da realidade exterior em que respiramos,
podendo inclusive ser negada a Sua existência. Elucida-se por que quanto mais
primária é a vida, maior é o predomínio de imperfeições e a presença de
atrocidades e selvagerias entre os seres. Ora, Deus, que é o amor absoluto, não
poderia predispor seus filhos a essa luta de egoísmos ferozes, e sequer
entregaria rebentos imaculados, recém-saídos de Suas mãos, a essa inadequada
pedagogia embasada preponderantemente no desamor.
Assim
aceitamos melhor a razão da existência do cansaço e da dor no grande labor
evolutivo. E compreendemos por que este se fez e se faz de constantes atritos,
fixando valores positivos, mas também negativos que inclusive preponderam na
longa jornada pelo reino animal, a nos exigir depois, uma vez conquistada a
razão, o operoso exercício da renúncia para libertarmo-nos de suas descabidas
lições. Ninguém pode negar, por exemplo, que o hábito de ludibriar, roubar e
matar sejam frutos de nossa exaustiva luta pela sobrevivência no mundo
selvagem, onde tais atos são perfeitamente lícitos.
Aclara-se,
desse modo, por que a criação progressiva parte de uma apriorística existência
de egoísmos inatos que necessitam obrigatoriamente ser lapidados pela dor e
pela dilaceração do ego inferior. E esclarece-se por que a elaboração evolutiva
trabalha essencialmente a dificultosa transformação de verdadeiras feras,
aparentemente assim geradas pelo nosso amoroso Pai, em legítimos anjos.
Elucida-se por que a vida exige, através de imenso e incompreensível esforço,
que seres arraigados no egoísmo pela experiência dos milênios, modifiquem-se,
por esforço próprio, em criaturas capazes de doar sua vida aos semelhantes e
não as roubar em benefício próprio, como a vida tão bem lhes ensinou. E assim
deslinda-se, enfim, por que somente o amor salva, sendo a única força capaz de
retirar o ser do inferno em que verdadeiramente vive e reconduzi-lo à
felicidade celestial.
Sem a crença
na queda do espírito e a certeza de que habitamos um universo às avessas,
impróprio para a nossa vida e nossa ventura, não temos como compreender a
salvação. Não saberemos por que Deus nos matricula na escola de lutas da carne,
educando-nos, quando ainda tenros, na selvageria de todos os hábitos, para
depois, somente depois, quando já nos habituamos às barbáries e experimentamos
as carnes dos nossos irmãos, pedir-nos o verdadeiro amor. Torna-se algo
incompreensível a um Pai que criou seus filhos unicamente para viver a
completude do amor e da felicidade.
Com a falência
do ser, compreendemos muito bem agora que a escola da vida que frequentamos não
é bem um educandário de seres inocentes, que saíram puros das mãos divinas,
mas, sim, um reformatório de rebeldes, destinado a corrigir ignóbeis hábitos
livremente escolhidos. E assim torna-se compreensível o fato de que a vida se
faz de métodos prioritariamente coercivos para seres aprioristicamente
rebeldes. E entendemos por que o espírito cobre-se, no trânsito da vida, com
carnes frágeis e degradáveis, as quais objetivam nitidamente abafar-lhe as
potências originais do espírito – fato incompreensível se não aceitarmos o
pressuposto de que a vida trabalha seres que se fizeram prioritariamente
rebeldes, tornando-se inconvenientes para utilizar de forma adequada as
plenipotências herdadas do Pai.
Portanto
somente aceitando que fizemos uma anterior opção pelo mal conseguiremos
compreender as forças em jogo na evolução, as quais não podem ser divinas. A
bondade do Senhor permite-nos expressar esse mal, pelo qual optamos, na
impropriedade da matéria, até o esgotamento de nossas originais intenções.
Porém através do labor evolutivo, que utiliza sobretudo a dor como instrumento
de persuasão, leva-nos a agastar nossos hábitos impróprios, educando-nos,
pacientemente, na imprescindível arte do amor. E assim deslinda-se por que a
vida, quanto mais primitiva, mais se faz um entrechoque de rebeldes, um jogo de
violências e mortes – coisa incompreensível diante de um Pai que nos exige a
prática do amor acima de todos os outros interesses. Logo, se aceitamos que a
vida na matéria se compõe de seres que precisam antes de tudo aprender a coibir
iníquos impulsos de revolta contra a ordem, entenderemos a necessidade da
limitação de forças que a carne impõe. Fato incompreensível se admitirmos que a
experiência da vida parte de seres inocentes, saídos das mãos do Criador em
estado de simplicidade e ignorância.
De modo geral,
os adeptos da Terceira Revelação não concordam sequer em discutir essas
questões, simplesmente por julgar que elas contrariam preceitos registrados nas
obras básicas. Tomados por dogmas, não percebemos que esses ensinamentos,
considerados ao pé da letra, contrariam o fundamental princípio de amor que
deve nortear a obra de Deus. E assim, ao colocar a letra acima da leitura da
realidade, passamos a repetir o erro de todas as religiões, fixadas em seus
inamovíveis dogmas. Ora, assim como julgamos a doutrina do inferno eterno,
apregoada pelo fundamentalismo cristão, absolutamente inconciliável com a
bondade infinita de Deus, também acreditamos descabida uma crença que toma a
selvageria dos mundos inferiores, a lei de destruição e o mecanismo da dor como
processos naturais impostos por Deus, como únicos meios para fazer avançar os
Seus filhos. Embora justificados pelos fins, tais meios contrariariam o
princípio fundamental e máximo da Criação: a Lei do amor. Além de retirar
emblematicamente a perfeição da criação, e consequentemente de Deus.
A queda
original é uma bela proposta capaz de elucidar essas questões e solver outros
graves embaraços das grandes religiões ocidentais. Deveríamos encará-la com
seriedade, destituindo-nos de nossos seculares preconceitos. Ela esclarece de
forma brilhante outros empecilhos da doutrina kardequiana, como por exemplo, a
informação de que a reencarnação tem como finalidade principal a purificação,
como nos informa O Livro dos Espíritos
(questões 166 a 170). E a de que vivemos em um mundo de expiações e provas, que
faz da dor a sua tônica principal. Sem a queda não entendemos por que Deus
criaria seres que necessariamente requerem regime de provações, dores e
limitações, coisa somente possível para aquele que erra e se habitua ao erro. E
entendemos, finalmente, por que, como nos revela a doutrina espírita, a escala
de progressão dos orbes se inicia nos mundos primitivos, bárbaros e selvagens,
passa pelos expiatórios, depois os de regeneração, para então chegar aos
felizes e divinos. Não nos parece uma ordem adequada a seres inocentes, porém unicamente
àqueles que escolheram a rebeldia como forma de viver. Basta examinarmos as
nossas escolas infantis – iniciar nossos infantes na barbárie e selvageria de
todos os hábitos seria algo inadmissível para nós. E ainda mais: exigir-lhes
depois, através da dor, que abandonem os costumes que lhes incitamos
inicialmente, seria uma completa injustiça, senão mesmo uma loucura. Admitir
que assim atua a inteligência divina é imputar indevida irracionalidade e
contra-senso ao Criador. E pior ainda, seria assentir que nosso Pai não se
importa com a existência do mal na criação.
Se aceitamos,
entretanto, que nossa existência na matéria partiu da rebeldia e da contração
de nossas potencialidades originais tudo se esclarece. A evolução foi então
precedida por grave contração da perfeição com a qual fomos criados. Resgata-se
a perfeição e o amor de Deus. Restará ao estudioso sincero, concordamos, a
pergunta: como foi possível a seres criados perfeitos caírem na imperfeição e
no mal? Mais uma vez Ubaldi nos socorre explicando-nos que a criação original
gerou seres tão perfeitos que lhes era imputada a autonomia, uma vez que Deus
não quis criar autômatos, mas deuses-filhos que aderissem a Sua vontade por
livre escolha. Aí residia a possibilidade de queda (o fruto proibido). Contudo
a perfeição da criação se manteve na plena capacidade de reconstrução do ser,
de modo que, ao final da evolução, o universo original estará recomposto em
seus impecáveis fundamentos, tais como pretendido pelo nosso Pai.
Mediante o
pressuposto básico da queda, a evolução torna-se agora muito mais que
simplesmente o nosso progresso rumo aos planos superiores do espírito. É de
fato evolução a salvação, o nosso
resgate das algemas físicas em que nos prendemos. Representa o esforço que nos
compete na reconquista do universo divino que deixamos por livre escolha.
Exatamente por isso, André Luiz, o famoso mentor espiritual, define a evolução
como “a nossa lenta caminhada de retorno para Deus” (A Vida Continua, FEB, 6ª edição, capítulo 21, página 179). Portanto
não estamos em uma trajetória de “ida”, mas de “volta” ao Pai.
Logo, evolução
passa a ser efetivamente a nossa libertação dos redemoinhos atômicos onde,
através da queda, aprisionamo-nos de modo inconveniente. Verdadeiramente, uma
vez gerados no seio imaculado de Deus, como puros pensamentos, não poderíamos
nos vestir de “pedra” sem uma razão que o justificasse. E não nos seria
possível ter sido criados com diferente natureza, uma vez que somos filhos do
Altíssimo – e filho de Deus somente pode ser “deus” também. A opção pelo
egoísmo foi o que nos selou esse ominoso destino, por termos sidos gerados,
como dissemos, mediante o princípio de autonomia. Então foi através da negação
do amor, por livre escolha, que “o anjo se prendeu no átomo” (questão 540 de O Livro dos Espíritos). Após esse
movimento de contração dimensional e fuga do seio de origem, somente uma força
divina, atuante nas profundezas do ser caído poderia auxiliá-lo a
reorganizar-se e a refazer a sua perfeição perdida.
Essa força
salvadora soergueu-nos do lodo da matéria bruta para a vida orgânica.
Orientou-nos, pelos caminhos dos evos, na laboriosa luta pela sobrevivência.
Conferiu-nos todas as oportunidades possíveis para evoluir e fazer desabrochar
a consciência que em nós dormitava, desde que “morremos” nos abismos infecundos
da matéria bruta. Ela nos resgatou do caos que geramos após a hecatombe da
queda.
Pura imanência divina, essa força então é a potência salvadora do universo caído –
um novo conceito de salvação que o espírita ainda não absorveu. Sem essa
“salvação”, proporcionada por esse extraordinário impulso reorganizador,
estaríamos para sempre detidos na inconsciência, pela perda absoluta da
organicidade. Sem organicidade não há vida, e sem vida não há consciência.
Portanto, conferindo inteira validade aos Textos Sagrados, facilmente aceitamos
agora que “a salvação é dom gratuito de Deus, que o Pai nos confere por amor e
graça” (Efésios 2:8-9, já citado), a fim de reconduzir-nos ao Seu aprisco de
amor.
Enquanto nos
detínhamos nos conceitos unilaterais do evolucionismo espiritual, esse conceito
se perdera. O fundamentalismo cristão o reteve em sua essência, mas o diluiu
igualmente na fatuidade de sua interpretação literal, rejeitada pela razão
moderna. Por isso Ubaldi nos faz bem, favorecendo-nos a compreensão das
verdades eternas tal como registradas nas Sagradas Escrituras. E apazigua-nos
sobremodo o intelecto amadurecido ao aplacar-nos o conflito fideísta em que
ainda nos debatemos. Além disso, suas lições despejam inigualável luz sobre os
ensinos do Cristo, atualizando-os sob o beneplácito de nossa hodierna dialética
evolucionista, que não precisamos abandonar.
Para melhor
elucidar o tema, esclareçamos, todavia, que identificamos a existência de dois
tipos distintos de ação redentora atuantes na intimidade do espírito em
evolução: a salvação pela graça e a salvação pela livre escolha.
Na fase em que
o ser é ignorante de si mesmo e de suas necessidades, ele é pacientemente
guiado pela inteligência divina que lhe faculta todas as oportunidades para
conquistar valores e evoluir. Esta é a salvação
pela graça. Por meio dela, o Criador o nutre com uma sabedoria, que ele não
detém, necessária à confecção de organismos preparados para a vida e para a
luta. Sem essa ínsita inteligência orgânica, orientadora da vida, a evolução do
espírito não seria possível.
Ainda que em
meio à selvagem luta pela sobrevivência, favorecida pela desapiedada seleção
natural própria dos mundos inferiores e selvagens, essa ingênita inteligência
guia o ser ao constante aperfeiçoamento e à aquisição de genuínos valores
evolutivos. Compreendamos, todavia, ainda que repetindo conceitos: esse bárbaro
regime inferior de vida não é uma oferta espontânea do Criador para o simples
exercício de crescimento do ser. Não podemos admitir a barbárie dos reinos
primários como uma legítima proposta pedagógica de nosso amoroso Pai. Resta-nos
então aceitá-la como um inadequado sistema de vida desejado pelo espírito que
optou pela revolta e pelo desamor. E Deus o permitiu viver, porém distante de
Seu Reino, onde somente o amor é possível. Justo assim que seres que escolheram
viver intensamente o egoísmo tenham sido atirados às arenas de luta, dor e
morte que preponderam nos mundos primitivos. Deus aproveita esse impróprio modo
de viver para educar o espírito e fazê-lo desistir do egoísmo - jamais
poderíamos imputá-lo ao amor infinito e à inteligência excelsa de nosso Pai.
Uma vez,
porém, que as operosas forças salvadoras de Deus impulsionam o espírito à
reconquista da razão perdida, a evolução passa a se tornar um movimento
consciente, sujeito então a interferência de sua vontade. Por isso, na fase de
evolução consciente em que nos encontramos, nossas escolhas e nosso empenho na
reforma íntima passam a influir preponderantemente em nosso avanço evolutivo.
Aí sim, a evolução passa a se valer de nossa operante vontade de realizações no
bem. Antes disso, era puro e gratuito dom da graça divina. Agora depende de nós
e de nossas obras: esta é a salvação pela
livre escolha.
Ainda assim, a
salvação pela graça divina prossegue
atuando em nós nos pontos em que continuamos ignorantes e não sabemos guiar-nos
como convém. Ela permanece em ação em nossa intimidade como força reconstrutora
e mantenedora do equilíbrio orgânico, permitindo-nos atuar na dura escola da
carne, regenerando-nos no trânsito da vida. Essa operante força continua
fundida à substância de nosso ser, gerando-nos inteligência molecular,
funcional e anatômica, sem a qual não nos fixaríamos na matéria bruta. Então
ela age onde nossa inteligência é ainda insuficiente para edificar e resguardar
nossos corpos. Essa preponderante ação divina é momentânea e periodicamente
suplantada pelos impulsos tidos naturais, de caráter destrutivo, que nos levam
inevitavelmente à degeneração orgânica e à morte. Não obstante, é aparente essa
vitória das forças do AS, pois a vida, através do sustento divino, refaz-se
sempre através do milagre do renascimento, sendo a morte nada mais que condição
de uma nova existência, como todos sabemos.
“Salvação pela graça divina” e através de
“nossa própria vontade” compõem assim
o cortejo das potências redentoras que soerguem o espírito das cinzas da
matéria, onde ele encontrou a morte da consciência. Por isso, está certa a
doutrina espírita que nos ensina que “a fé sem obras é morta” e “somente a
caridade pode nos salvar”. O espiritismo nos fala aqui da redenção consciente que requer o adequado emprego da nossa vontade
e nosso empenho em boas obras. Mas o fundamentalismo cristão não se enganou ao
afirmar-nos a existência de uma força salvadora inerente à substância da vida,
na qual devemos confiar e que inexoravelmente nos socorrerá. Seus mecanismos
utilizam a dor e a aspiração pela perfeição perdida como principais impulsores
do ser caído, mecanismos infalíveis para reconduzi-lo às suas origens. Essa
salvação é obra da nossa mais pura fé. Acreditarmos nela pressupõe
entregarmo-nos com extrema fidúcia à sua ação sempre benéfica, amorosa e
restauradora, dinamizando-a em nosso benefício.
Essa
extraordinária compreensão funde a visão espírita evolucionista com o
fundamentalismo cristão. Ela autoriza as lições evolucionistas, mas valida
também o criacionismo bíblico, por incrível que nos pareça. A criação divina,
como sabemos, permeia a evolução, enriquecendo-a de soluções prontas e
inteligentes para os seus desafios. Confecciona corpos e predispõe uma sábia
anatomia e uma engenhosa fisiologia adequadas às necessidades evolutivas do
ser. Então, de fato, “a salvação é dom de Deus, não de nossas obras, para que
ninguém se vanglorie” – estava certo Paulo de Tarso ao exarar a sua famosa
frase. Mas está correta também a doutrina dos Espíritos que afirma que somente
evoluímos pelo esforço próprio, mediante o nosso empenho em boas obras – fato
igualmente registrado na Palavra Sagrada (Mt 7:1 e Ti 2:26).
Impossível
negar que forças divinas operem constantemente a nosso favor. Elas nos
favorecem, por exemplo, edificando-nos corpos cada vez mais aperfeiçoados, e
trabalhando ativa e permanentemente em favor de nossa recomposição. Elas nos conduzem
através da sábia linguagem dos instintos, quando ainda não detemos a
inteligência suficiente para efetuar nossas escolhas. Isso basta para
compreendermos que a salvação vai muito além de nossa mera vontade em progredir
e realizar obras de caridade. É evidente que à medida que o espírito progride
rumo à aquisição de sabedoria, essa salvação
pela graça torna-se cada vez menos operosa, entregando-nos ao nosso próprio
trabalho de reconstrução de nós mesmos. Por isso a dor se reduz à proporção que
nos tornamos mais conscientes de nosso trabalho evolutivo. Não há dúvida de que
inteirarmo-nos de nossas necessidades de reforma íntima e predispormo-nos à
realização de boas obras apressará sobremodo o nosso resgate definitivo do
universo às avessas em que vivemos, contudo essa ação consciente não seria
suficiente para nos socorrer quando ainda ignorávamos essa necessidade.
A salvação pelo esforço próprio, que
denominamos autorredenção, está então
na alçada de nossas escolhas: dependerá do abandono dos incuriais valores que
arquivamos do passado, o homem velho; da renúncia ao ego inferior que ainda
portamos; da superação dos hábitos animalizados que automatizamos por imposição
da própria da egolatria; de um grande esforço no aprendizado do amor ao
semelhante e, enfim, da nossa entrega à vontade maior de Deus.
Autorredenção pressupõe ainda,
efetivamente, fazer morrer o personalismo doentio que permanece nos vestindo.
Exige o abandono das armas de defesa que confeccionamos na estrada dos séculos,
e nas quais ainda nos comprazemos, por serem completamente inadequadas aos
fundamentos do amor. E, tomando sobre nossos ombros as nossas dores, significa
alçar com bom ânimo o calvário da redenção. Não foi exatamente isso que nos
ensinou Jesus em Suas imorredouras lições e seu contundente exemplo? Agora,
entendemos por que deve ser assim. Então, é verdade que “fora da dor não há
salvação”. E sem a queda, mais uma vez, não compreenderemos por que Deus nos
impõe tamanha necessidade para atingirmos o desiderato maior da evolução.
Entender que
sofremos uma obra evolutiva de resgate facilitar-nos-á aceitar por que a Lei de
Deus, depois de nos educar na luta pela sobrevivência e dotar-nos de terríveis
artifícios de ataque e defesa, pede-nos, na fase consciente de evolução que ora
percorremos, critérios completamente opostos aos que a escola da vida
ensinou-nos na esteira dos milênios. Ao contrário do que a evolução até aqui
nos ensinou, devemos agora aprender a doar nossa vida ao semelhante e não
roubá-la em benefício próprio. E aclara-se exatamente por que o Evangelho de
Jesus é antibiológico, ou seja, ele nos alerta que o fundamental para nossa
sobrevida é nosso total empenho no amor a Deus e ao próximo como a nós mesmos.
Este é o máximo recurso de vida que nos permitirá viver a integral fusão com o
Pai que nos criou unicamente para amar e ser feliz. Os fundamentos da vida
biológica tão bem aprendidos na escola dos séculos devem ser definitivamente
esquecidos.
Como vemos, o
conceito da queda do espírito, tão rejeitado pelos estudiosos da doutrina
espírita, é a mais extraordinária luz capaz de iluminar sobremodo a nossa
compreensão dos mecanismos da vida a que estamos submetidos e suas intrigantes
contradições. Quando, contudo, remetemo-nos ao Evangelho de Jesus, então
constatamos como esse conceito se faz indispensável para melhor entendê-lo. Se
não nos vemos como seres degredados e presos nas algemas da matéria, como
entender que Cristo veio ao nosso mundo para nos salvar? Qual seria o
significado de Seu sacrifício? Exatamente por que Ele se deixou imolar na cruz
por todos nós?
Para a
doutrina espírita, nos moldes como é interpretada pela maioria de seus
seguidores, representa um peso enorme a negação desses conceitos tão
fundamentais que caracterizam o cristianismo em sua essencial original. Como
repudiar essas inferências se elas estão embasadas nas próprias palavras de
Jesus, as quais a história humana deu tanta ênfase? Nossa visão unilateral da
revelação espírita nos autoriza a negar as próprias afirmações do meigo Rabi?
As informações que nos chegaram pelas vias mediúnicas e analisadas pela
inteligência de Kardec selaram a verdade, superando os ensinos do divino
Mestre? Não estiveram elas sujeitas aos psiquismos dos médiuns e suas
particulares interpretações? Será a mediunidade um processo infalível?
E ainda mais:
não foram os mesmos espíritos que afirmaram que não nos disseram tudo? Que
muito ainda tinham a nos revelar, porém nossa acanhada compreensão não lhes
permitia avançar? Teríamos, com as obras básicas da codificação atingido em
definitivo o conhecimento da verdade? Evidentemente que não. Aqueles que se
apegam ao dogmatismo doutrinário, deveriam lembrar-se do que exarou Kardec, em A Gênese: “O Espiritismo assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de
qualquer ordem que sejam, desde que hajam assumido o estado de verdades
práticas e abandonado o domínio da utopia (...). Caminhando de par com o progresso, o espiritismo jamais será
ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrem estar em erro acerca
de um ponto qualquer, ele se modificará nesse ponto. Se uma verdade nova se
revelar, ele a aceitará”. Nessa mesma obra, o Espírito Galileu afirma: “Há questões que nós mesmos, espíritos
amantes da ciência, não podemos aprofundar e sobre as quais não podemos emitir
senão opiniões pessoais, mais ou menos hipotéticas”. E na questão 182 de O Livro dos Espíritos, encontramos: “Nós, Espíritos, só podemos responder de
acordo com o grau de adiantamento em que vos achais”. Não obstante tomamos
suas palavras como a última e inamovível verdade. Ora, estamos muito distantes
da verdade absoluta para nos deter em informações que nos chegaram no século
XIX, quando ainda muito pouco sabíamos da realidade que nos envolve. Quanto a
ciência cresceu desde então! Nosso inato anseio por verdades absolutas fez-nos
estagnar em dogmas, repetindo o erro das religiões convencionais do mundo.
Seguramente, o
maior benefício da teoria da queda que nos trouxe Ubaldi é a perfeita fusão das
revelações religiosas com o conhecimento que nos propiciou a ciência do século
XX. A cosmologia moderna encontra aí sua mais perfeita unificação com a
cosmologia cristã. Remetemos o leitor interessado em aprofundar a questão ao
nosso despretensioso trabalho Arquitetura
Cósmica, publicado pela Editora Inede, no qual efetuamos um detalhado
estudo sobre as visões de mundo ao longo da história, para demonstrar que a
queda do espírito é a única tese capaz de explicar e unificar todos os
conhecimentos humanos.
Do ponto da
cristologia, com a queda original, passamos a compreender perfeitamente a
missão do Cristo entre nós. O divino Amigo veio trazer-nos a notícia da
existência de um outro mundo além do nosso, onde se encontra nosso Pai, o Reino de Deus. Ele nos pediu
enfaticamente abdicarmos do mundo às avessas em que vivemos (o AS) para a
conquista desse Reino (o S). Fato intrigante para nós sem o conhecimento da
queda, pois se Deus nos gerou em Seu seio, por que nos mantém fora de nosso
natural habitat? E não entendemos por que Ele nos colocou em um mundo infesto
de desazados valores aos quais com tanto esforço devemos abdicar, a fim de
atingirmos à vida verdadeira para a
qual fomos criados.
Cristo
mostrou-nos ainda, em Seu sacrifício, de forma nítida, como realizarmos o nosso
resgate do mundo às avessas em que vivemos, o AS, e conquistarmos mais
rapidamente o Reino de Deus. Esse foi
o desiderato maior de sua vida, a que Ele dedicou a sua existência – e
recomendou-nos enfaticamente fazer o mesmo. Portanto, Ele nos deixou o roteiro
da autorredenção, realizando-a aos
nossos olhos. Assim acreditamos que, ao deixar-se imolar na cruz, Ele penetrou
definitivamente o Mundo Celeste, o S. No instante do Calvário, Ele abandonava o
Relativo para assumir a sua posição definitiva no Absoluto, realizando a sua
integral fusão com o Pai. Consubstanciava-se a dissolução de seus envoltórios
dinâmicos e seu retorno decisivo ao seio paterno como espírito purificado. Eis a realidade maior da ressurreição de Jesus
que Ubaldi descreve-nos em seu último livro, Cristo – o divino Amigo realmente “subiu aos céus” e voltou ao Pai
como um espírito ressurreto.
O meigo Rabi
entregou seu corpo ao sacrifício demonstrando-nos que Ele não se interessava
por salvar a matéria perecível. Ele não queria igualmente firmar-se mais como
um vitorioso no mundo às avessas em que vivemos. E deixou-nos patente que seu
interesse maior era fazer morrer o que Lhe restava de personalismo inferior,
doando-se, por amor, incólume, à vontade de Deus. E de fato, sem a completa
extinção do nosso ego inferior, sem a entrega confiante de nossa alma ao
desejo do Pai, sem a não resistência ao mal, sem o perdão verdadeiro àqueles
que nos maltratam e nos tiram a vida, sem a renúncia aos valores da
animalidade, sem a oferta de nossa vida em prol do semelhante – ou seja, sem a
vivência de um verdadeiro e supremo amor não nos libertaremos das malhas do
relativismo onde nos demoramos. Portanto, sem
dor, sem renúncia, sem sacrifício, sem perdão, sem doação ao outro e sem amor
não há salvação. Por isso é imperativo subirmos todos pelo calvário da evolução,
com nosso sacrifício e todo o empenho na superação do homem velho, que deve
morrer na cruz para a libertação de nosso ser real na verdadeira vida eterna – a gloriosa ressurreição, no dizer de Emmanuel.
Portanto, a autorredenção faz-se imprescindível para
a nossa salvação. Destarte vale insistir que ela não bastaria, como nos
afirmaram as Sagradas Escrituras, para o resgate da matéria. Se Deus não agisse
permanentemente em nosso imo, repitamos, como a força máxima de reconstrução,
não nos salvaríamos. Entregues a nós mesmos, estaríamos detidos na
inconsciência da matéria bruta, “mortos nos túmulos de pedra”, até os dias de
hoje.
E entendemos
ainda que Cristo, após o seu definitivo retorno ao Reino de Deus, fez-se
essência imaculada. Unificado com Deus e fundido na substância da Lei, Ele
então consubstancia a Terceira Pessoa
da Divina Trindade, como pressupôs a velha Teologia cristã. Estando fora do
tempo e do espaço, Ele agora participa da onisciência e da onipresença divina.
Por amor a nós, contudo, permanece ao nosso lado, agindo no imo da alma humana
como força reconstrutora e salvadora (Mt 18:20). Portanto, como fazem nossos
sinceros amigos cristãos em todo o mundo, podemos enfim bater no peito e com a
mais pura e intensa emoção proferir: Jesus
é meu salvador!
Com todos
esses novos conceitos podemos doravante melhor aceitar e colocar em prática
todas as lições do Evangelho. As palavras do Cristo tomam novo e vigoroso
significado. Entendemos afinal que o Messias veio à Terra efetivamente para nos
salvar. Ele veio “resgatar o que estava perdido”, como afirmou (Mt 18:11). Ou
seja, para reconduzir-nos, ovelhas perdidas, ao aprisco celeste (Mt 15:24, Lc
15:4). Compreendemos exatamente por que estamos distantes do Reino de Deus, que
o divino Amigo, na oração dominical, suplicou para “vir até nós” (Mt 6:10). E
recomendou-nos a reconquista desse Reino que perdemos, como o máximo objetivo
de nossas vidas (Mt 6:36). Todo o empenho de nossa alma deve ser dirigido a
esse esforço, como alguém que acha um tesouro de inestimável valor e tudo vende
para adquiri-lo (Mt 13:44). Ora, se estivéssemos seguindo os passos normais de
uma evolução natural em um mundo adequado e pretendido por Deus, não haveria
por que Jesus recomendar-nos, com tanta ênfase, apartarmo-nos dos caminhos da
carne e buscar afanosamente a verdadeira vida espiritual (Mt 6:33). Sem a
interpretação da queda, Suas conjecturas, em sua maioria, tornam-se evasiva e
não podem ser levadas a sério. Jamais compreenderíamos, por exemplo, por que
Sua imensa compaixão por nossas dores levou-O a nos consolar, dizendo: “Não
temas, ó pequeno rebanho, porquanto a Deus agrada dar-nos o reino” (Lc 12:32).
Essas e todas as palavras eternas que o Messias nos deixou careceriam de
sentido próprio. Portanto, não podemos mais negar que necessitamos, sim, de
salvação. E sem a salvação pela graça,
juntamente com o empenho na autorredenção,
jamais retornaremos ao Pai.
Para grande
consolo nosso, de posse desses novos conceitos chegamos à clara constatação de
que nossa exaustiva caminhada evolutiva pelas veredas do relativismo, e o
próprio universo relativo terão um fim. Nossa jornada terminará com o nosso
definitivo retorno ao absoluto. O espaço sucumbirá com a extinção da matéria, o
tempo expirará com a morte da energia, e o espírito sobreviverá para viver a
eternidade no seio divino. Herdaremos então a perfeição absoluta e não a
relativa, como havia pressuposto Kardec, pois somos genuínos filhos de Deus, e
como tais, feitos de sua mesma e impecável natureza. Validamos assim a escatologia
cristã e todas as suas previsões, pois “o céu e a terra passarão” e apenas os
valores imponderáveis do espírito restarão da realidade que nos alberga (Mt
5:18 ). Esclarece-se agora o “fim dos tempos” a que se referiu Jesus, a morte
da dimensão espaço-tempo, que um dia nasceu e, como tudo que nasce, deverá
igualmente morrer. O conceito de ressurreição restitui o seu significado
original.
Os estudiosos
da doutrina espírita poderão negar essas afirmativas, uma vez que Kardec
pressupôs a nossa evolução infinita e a existência ad aeternum de nosso universo. Todavia vale recordar que os
próprios Espíritos, na questão 169 de O
Livro dos Espíritos, exararam que “o progresso é quase infinito” – portanto
não caminharemos eternamente pela aparentemente infinda estrada da evolução,
mas nos fixaremos, enfim, no “fim dos tempos, como colunas inamovíveis no
Templo de Deus”, como nos promete a palavra sagrada (Ap 3:12).
A cosmologia
moderna, confirmando a escatologia cristã, já fixou o trágico fim do nosso
universo na sua vertiginosa expansão rumo à exaustão absoluta de todas as suas
energias, e até mesmo no decaimento do próton. Não existiremos, aqui, para todo
o sempre e, como disse Ubaldi, sequer as paisagens do relativo sobreviverão
para a eternidade, mas todo o nosso cosmo será espiritualizado, restituindo-se
completas as potências do absoluto que o originaram, quando todos os registros
da grande queda forem integralmente reabsorvidos pela evolução.
Compreendemos
que Jesus deixou-nos, na maneira como se conduziu na Terra, o exemplo claro de
como efetuarmos a nossa própria redenção. Como aceitar, porém, a peremptória
afirmação do fundamentalismo cristão de que, com a Sua morte, Ele promoveu a
redenção de nossos pecados? Podemos legitimar essa afirmativa que já se consagrou
como um dos principais dogmas do cristianismo? O Evangelho não diz que “o
Cordeiro de Deus tomou sobre si as nossas dores e morreu em nosso lugar na
cruz”(Jo 1:29)? Poderia a morte de um justo pagar pelas faltas de outros? Como
pode ser isso, se a própria justiça humana jamais concordaria em penalizar
alguém por erros alheios? Seria um mistério pertinente a Deus e, portanto, algo
que não podemos questionar, diz-nos a velha teologia cristã. Não obstante,
insistimos: nossa razão considera um disparate conceber que a perfeita justiça
divina possa funcionar de forma tão incoerente. Necessitamos de melhores
explicações para tal afirmativa. Se na Idade Média esse pressuposto parecia
conformar o coração humano, nos dias atuais, vê-se claramente que mais se serve
como um obstáculo à plena aceitação do Evangelho. Com o auxílio de Ubaldi,
aproximemo-nos da delicada questão, tentando esclarecê-la um pouco melhor.
Sabemos que o
inconsciente humano traz em seus arcanos o registro arquetípico da queda do
espírito. Isso o fez postar-se, desde os primórdios da razão, como um ser
pecaminoso, sobretudo diante da Divindade. Exatamente por isso, ele cuidava de
fazer oferendas aos seus deuses, a fim de aplacar suas pretensas iras.
Interessado então em reduzir as suas penas, partindo do pressuposto de que ele
era culpado de alguma coisa e havia ofendido a Divindade, ele depositava nos
altares de seus templos o melhor de sua colheita.
Em muitas
culturas antigas, entretanto, ele intentava ludibriar os deuses, sacrificando
seres que considerava inocentes, para que o sangue derramado por estes, no
lugar do seu, pudesse simular a pena que se julgava inconscientemente
merecedor. Desse modo, ovelhas, pombos e até mesmo jovens virgens eram
imolados, em macabros rituais, para que o homem se sentisse liberto de sua
inevitável condenação.
Evidentemente,
tais bárbaros costumes baseavam-se na mais precária concepção de Deus,
compreendendo-O como um déspota, a quem a simples visão de sangue bastaria para
dissuadir a impor ao homem os castigos que ele sempre se sentiu merecedor.
Assim, o
psicologismo doentio do homem encontrou na morte de Cristo o perfeito
sacrifício a Deus para a remissão de suas culpas. O sangue do mais puro dos
homens, ou mesmo de um verdadeiro deus, seria então mais do que o bastante para
que o Senhor desistisse de cobrar pelos nossos muitos pecados. Fizemos então de
Jesus o “Cordeiro de Deus que tirar o pecado do mundo”, aplicando à Sua
execrável morte nada mais do que mais um dos nossos sangrentos rituais aos pés
do Criador. Atendia-se, desse modo, mesmo sem a clara noção do fato, aos apelos
do inconsciente coletivo humano, onde o homem guarda a sua culpa de origem,
oriunda da queda do espírito.
Ao analisar o
fato, chegamos mesmo a suspeitar de que esse teria sido “o cálice” que Jesus
pediu ao Pai lhe fosse afastado, no momento da crucificação. Ele já havia
demonstrado a Sua clara disposição de se deixar imolar para nos dar o
exemplo de como se deve agir diante do mal. Mas Ele não queria fazer-se o
“Cordeiro da humanidade”, cuja morte seria erroneamente interpretada como a
condenação de um justo que derrama o seu próprio sangue no lugar do nosso para
se aplacar a condenação divina a que nos fazem jus. Naturalmente que o Mestre,
profundo conhecedor do nosso infantil psicologismo, sabia que esse estranho e
inadequado papel lhe seria imputado pela nossa história, iludindo-nos de que
assim estaríamos isentos do próprio sacrifício em prol da nossa salvação.
Em suma,
chegamos à conclusão de que não podemos aceitar que a morte de Jesus tenha
redimido os nossos erros perante a Lei divina. Isso fere o que entendemos da
justiça divina e do conceito que na atualidade detemos de Deus. Nossa
consciência ferida somente será recomposta se seguirmos os exemplos do Cristo.
Jamais pelo simples fato de um inocente ter sido condenado em nosso lugar.
Resta-nos,
todavia, a pergunta: a salvação será infalível? Todos se salvarão? Será que
Deus não respeitará a vontade do filho rebelde que não queira jamais retornar
ao Seu aprisco? Ubaldi abordou a delicada questão e afere-nos que os mecanismos
divinos de salvação são infalíveis. Utilizando-se da dor, da nostalgia pelos
bens perdidos e do anseio pela perfeição, sentimentos que impregnam toda
criatura caída por estigma de origem, a Lei conduzirá todas elas aos planos
superiores do espírito. Fugindo do inferno da matéria e suas dores que
inevitavelmente colorem as paisagens dos mundos inferiores, movido pelo natural
instinto de felicidade, o ser não tem outro caminho que evoluir. Desse modo,
diz Ubaldi, todos se salvarão. Nosso universo físico será completamente
extinto, e não restará aqui um único átomo, afirma-nos o inspirado da Úmbria.
Cristo já havia nos dado essa certeza ao proferir que “de suas ovelhas, nenhuma
se perderá” (Jo 10:27-28). Entretanto, permanece como possibilidade teórica a
dissolução definitiva do ser, caso ele não se predisponha ao sacrifício do ego
inferior e almeje perpetuar eternamente a sua revolta contra a ordem divina e a
negação do amor. Nesse caso, diz-nos Ubaldi, a substância divina que o
individua poderá terminará por desfazer-se, pela intensa contração involutiva a
que se exporá, fazendo-a retornar íntegra a sua fonte original, o seio de Deus.
Uma vez que tal substância é indissolúvel, somente a sua individuação será
desfeita. Imaginamos algo como o desfazimento da forma de uma estátua, porém
não o desaparecimento da matéria que a compõe. Essa seria a real morte do ser,
que Deus não quis, como nos informou o Cristo (Mt 16:28). Por isso, certamente,
aferiu-nos o nosso Salvador que “se alguém guardar as Suas palavras jamais verá
a morte” (Jo 8:51), e Paulo nos afirmou que “Deus nos ressuscitará pelo seu
poder (I Coríntios 6:14).
Concluindo,
vemos então que, retomando o conceito de salvação no mais elevado que nos
favorece Ubaldi, chegamos à perfeita fusão de duas conceituações que
conhecemos, a espírita e a cristã, conferindo-lhes inteira validade. Está certa
a salvação consciente, apregoada pela
doutrina de Kardec, a qual representa a nossa escolha pelo autoaprimoramento
evolutivo; e corretíssima a salvação
gratuita, aquela que opera na intimidade de nosso ser, orientando
devidamente os nossos passos rumo ao Amor paterno que malbaratamos, conforme
defendido pelos Textos bíblicos. A primeira traduz o nosso necessário empenho
no bem e na realização de boas obras, a segunda aguarda nossa total confiança
no socorro divino. O antagonismo entre o fundamentalismo cristão e a razão
espírita desfaz-se ante a luz dessa nova concepção. Ambos acham-se fixados em
verdades complementares. Agora, não obstante, podem dar-se as mãos na grande
obra de redenção da humanidade.
Então são
genuínos o fundamentalismo cristão, iluminado pelo fideísmo sentimentalista, e
o racionalismo espírita, abrilhantado pela fé raciocinada. Deixemo-los em suas
genuínas, porém parciais trilhas da verdade, até que a evolução os entrelace no
abraço da verdade única, solvendo nossos atritos conceituais e
reconduzindo-nos, juntos, ao Absoluto. Até lá, eximamo-nos de improfícuos
atritos, pois nossas crenças são nitidamente complementares, jamais
antagônicas, como as aparências de nossas relativas posições nos induzem a
crer.
Sem a
pretensão de nos fazermos porta-vozes da verdade absoluta, da qual nos achamos
muito distantes, deixamos aqui o nosso esforço de conciliação entre a essência
sagrada do Cristianismo primitivo e as modernas revelações assinaladas pela
Codificação Espírita. A nenhum negamos o seu real valor, apenas não desejamos
mais vê-los atirados em acirrados e improfícuos entrechoques de ideias.
Estacionados na parcialidade, é possível compreender que eles não se acham em
aparente contradição.
A ninguém
queremos convencer, apenas anunciar que existe uma melhor maneira de se
conciliar as verdades parciais que adotamos por sagradas. E o que atesta que
uma verdade é parcial é o simples fato de ela admitir a sua exata contradição.
Ora, toda premissa que suporta um antagonismo, não se acha completa, pois a
verdade realmente absoluta somente pode ser aquela que engloba também a sua
oposição. Esse é um interessante axioma deduzido por Niels Bohr, a partir das
observações da fenomenologia quântica. Assim, a síntese genuína deve unir tese
e antítese para se fazer lídima expressão da realidade. Logo, estejamos
atentos, se nos encontramos imersos em uma arena de disputas ideológicas, é
preciso humildemente considerar que nos achamos distantes do conhecimento
absoluto e unitário – aquele que realmente não admite rivalidades, por englobar
os seus opostos.
Sigamos
adiante, na certeza de que somos seres em desenvolvimento e nossa ignorância é
ainda imensa ante a extensão da complexidade fenomênica que habitamos. Se
desejamos crescer rumo à verdade que liberta, como disse Jesus (Jo 8:32), urge
abrirmo-nos à germinação dos novos conhecimentos que periodicamente são
semeados em nosso campo íntimo, como a revelação que nos trouxe Ubaldi e outras
que certamente continuarão chegando-nos do Plano Maior. Para isso, na lavoura
do crescimento espiritual, por vezes é preciso deixar que nossos parciais
entendimentos morram para dar lugar a novas e mais avançadas compreensões. Se a
semeadura nos compete, lembremo-nos de que a germinação é da alçada do Senhor,
que, zeloso, oferta sempre a cada um as florações de verdades que é capaz de
suportar em seu particular momento evolutivo. Portanto, não nos apoquentemos
com quem não pode ou não quer compreender. O tempo, em sua sabedoria, fará
amadurecer os frutos de verdades que realmente nos convenha à necessária
redenção.
Belo
Horizonte, 4 de maio de 2009
Gilson Freire
Bibliografia
1. A BÍBLIA.
Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica
Brasileira, 1997.
2. KARDEC,
Allan. A Gênese. 17a ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita
Brasileira, 1975.
3. KARDEC,
Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
10a ed. São Paulo: Lake, 1975.
4. KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. 79a ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita
Brasileira, 1997.
5. UBALDI,
Pietro. A Grande Síntese. 21a ed. Campos dos Goytacazes: Ed. Instituto
Pietro Ubaldi, 2001.
6. UBALDI,
Pietro. Cristo. 2a ed. Campos dos Goytacazes: FUNDÁPU, 1985.
7. UBALDI,
Pietro. Deus e Universo. 3a ed. Campos dos Goytacazes: FUNDÁPU, 1987.
8. UBALDI,
Pietro. O Sistema. 2a ed. Campos dos Goytacazes: FUNDÁPU, 1984.
9.
UBALDI, Pietro. Queda
e Salvação. 2a ed. Campos dos Goytacazes: FUNDÁPU, 1984.
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