sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O PROBLEMA DA MORAL II


DO LIVRO   EVOLUÇÃO E EVANGELHO
CAPÍTULO IX   
O PROBLEMA DA MORAL II



Como age a nova moral? Mundo de lu­ta. Evolução por ação e reação entre dirigentes e súditos, por comum abrandamento de costumes. Progressiva eliminação da lu­ta, e da dureza das leis. Em direção a uma moral cada vez mais amiga. A vida, estado de guerra. A ética que se vive nos fatos, e suas conseqüências. A função biológica da mentira. A virtude como astúcia. A liquidação do simples e honesto. Ética emborcada. A psicologia do selvagem e do civilizado. Inteligência prática, para a luta, e não especulativa, para o conhecimento. A moral da nova civilização do espírito.



Dadas as condições atuais do mundo, como fazê-lo evoluir ainda, levando-o a viver a nova moral? Aplicando-a ao real estado de fato, que reações excitará e recebera em resposta, quando se trata de pas­sar seriamente de uma ética pregada a uma ética realmente vivida? Não podemos esquecer que se tra­ta de um mundo em que tudo se baseia na luta, um mundo em que a norma ética teve de aparecer até agora como imposição armada de sanções, resultan­do como conseqüência o desenvolvimento da arte de escapar delas. Há luta entre o evoluído que quer subir e o involuído que não quer subir, luta entre duas leis diferentes que aspiram ao domínio absoluto so­bre o homem.


Ora, é lógico que, nesse ambiente, qualquer inovação tem de ser iniciada de cima, isto é, por parte dos vencedores, que são os únicos, nesse plano, e têm o direito de mando. Se nesse plano tudo funcio­na assim, se esses são os princípios que estabelecem a conduta dos que aí vivem, não podemos sair deles nem mesmo quando queremos estabelecer uma nor­ma ética, embora desça ela de planos superiores, regidos por princípios diferentes. As normas concebi­das nos ambientes mais elevados constituem o que se chama a teoria. O modo com que são recebidas, adaptadas e até invertidas no ambiente humano ter­restre constitui o que se chama a prática. A teoria é bela, resplandecente, mas a tendência é que seja de­turpada e corrompida logo que desce á prática.


A realidade apresenta-nos, então, um espetáculo bem diferente do que se poderia imaginar. 

Quem faz as leis é a camada social superior, que tem o di­reito de mandar porque venceu a batalha da vida.

Se essa camada não faz a lei ética, porque só poucos e excepcionais evoluídos conseguem intuí-la, pode todavia formulá-la em artigos de lei, dosá-la e, sobre­tudo, enchê-la de sanções que, na terra, são as coisas mais importantes, se não quisermos permanecer no campo teórico. E então a ética, que no Alto é outra coisa — ou seja, norma espontânea de convicção — também se torna luta, para adaptar-se à lei da terra em que desceu. 
É sob esse aspecto que a moral apa­rece em nosso mundo, fato que pode parecer estra­nho e contraditório, mas do qual compreendemos as razões. A ética resolve-se assim, na prática, numa luta entre a classe superior que impõe as leis, e as classes inferiores que devem aceitá-las, luta entre a classe dos juizes que estabelecem a culpabilidade e condenam, e a dos julgados culpados, que são con­denados se não obedecem.


Podemos perguntar-nos agora: 
como consegue a vida evoluir, se a descida dos ideais á terra está submetida a esse sistema que a converte em luta e assim paralisa seu efeito mais importante, que é o de pro­vocar uma melhoria? 
Eis então o que acontece: 
o progresso é um impulso íntimo, que age de dentro, indistintamente sobre todos, tanto em quem manda, como em quem obedece. 
A evolução não pode submeter-se ao contraste entre os dois impulsos opostos em luta; então, ao invés de ficar dominada por ele, domina-o e o utiliza. Não podendo caminhar em li­nha reta, avança tortuosa como um rio, por impulso e contra-impulso, por ação e reação entre as duas par­tes contrárias que, assim, acreditando eliminar-se, co­laboram substancialmente na mesma direção, que é a da evolução. 

Os dois grupos opostos influenciam--se mutuamente Logo que um progrida um pouco, o outro recebe e assimila os benefícios, civiliza-se, abranda seus costumes, obedece com um pouco mais de consciência e conhecimento, mais espontaneamente convencido porque experimentou as vantagens de viver na ordem. São a luz e a bondade que começam a chegar, desmantelando aos poucos o castelo das coações e sanções, duro ônus que pesa sobre todos, e de que agora é possível começar a libertar-se, por­que cada vez se torna menos necessário. 
Isto permi­te aos dirigentes a mitigação das penas, abandonan­do cada vez mais o método psicologicamente impo­sitivo de terrorismos, indispensável para disciplinar seres rebeldes e ferozes. 
Antes, não se podia assim proceder sem prejuízo destes, que teriam interpreta­do qualquer ato de bondade como sinal de fraqueza e autorização à devassidão. 

A idéia do inferno não foi criação de um grupo sacerdotal, mas uma neces­sidade psicológica, imposta pelo estado de involução em que se achava o homem no passado. Sem esses terrorismos hoje inaceitáveis, o edifício ético, em virtu­de de sua estrutura mental, teria caído na anarquia. Mas é lógico que tudo isso deva ir desaparecendo, automaticamente, sem danos, logo que o homem, por ter-se civilizado mais, o permita.

Caminho lento, gradual e difícil, mas caminho fa­tal. Sem dúvida os dirigentes, por causa da natureza de seus súditos, têm necessidade de defender-se e não podem abandonar-se a excessivos atos de bon­dade, sem que seja invertida a ordem que a lei ética deseja, tornando-se anti-ético, porque impediria que a vida atingisse seus objetivos. 

Para o involuído, a éti­ca precisa estar armada de chicote, pois só assim o le­vará ao bem. Mas não restam dúvidas de que o dever da iniciativa dos melhoramentos cabe à classe dos dirigentes (abolição da pena de morte, da escravidão, melhoramentos no sistema de prisões, mitigação da pe­na, justiça econômica, previdência social etc.)., Essa iniciativa deverá ser levada até ao limite máximo possível, como grau de bondade que o estado de ci­vilização atingido já permite. 

Dentro desses limites, as classes menos evoluídas da sociedade poderão restituir à classe superior o bem que recebem, na for­ma de um abrandamento de costumes. 

A finalidade da lei é sobretudo de educar, ensinando, à força de sanções, a viver mais civilizadamente, pronta a aban­donar esse sistema, logo que os súditos aprendam a lição, e demonstrando assim não mais necessitarem desses métodos.

Na feroz Idade Média realizavam-se as execuções capitais e as punições corporais nas praças, à vista de todos, usando o sistema terrorístico, julgando-se educar o povo no respeito para com os detentores do poder. Mas isto também educava o povo no gosto do crime, nunca dominado com esse sistema que, no fundo, só demonstrava o medo que os domi­nadores tinham de ser derrotados. Com o tempo, o trabalho subterrâneo da evolução abrandou tudo, tanto que esses espetáculos aos quais a multidão acorria com satisfação, agora gerariam nojo e con­denação.

Assim, por golpes e contragolpes, realiza-se a evolução e a humanidade progride para formas de vida que contêm cada vez menos o mal e cada vez mais o bem. 

As massas, educando-se cada dia mais no bem, permitem aos dirigentes e às leis que sejam melhores, e estes, tornando-se melhores, educam as massas cada vez mais no bem. Esse é o sistema uti­lizado pelo progresso num mundo de luta, onde isto pareceria impossível, precisamente por causa da luta. O progresso, paradoxalmente, realiza-se por meio da luta, isso nos mostra como é profunda a sabedoria da vida.

A repressão forçada é um mal necessário nos tem­pos involuídos; mal que se destina, porém, a ser superado. Não é a repressão que liberta a sociedade de seus males, mas a mecânica progressiva que acabamos de ver. 
Ao contrário, a repressão aumenta a reação, a violência gera a violência e, em última análise, o mal só pode ser combatido com o sistema da não-reação, e só pode ser vencido verdadeira­mente se o neutralizamos com igual medida de bem. 
Muitos abusos e delitos nascem, freqüentemente, de um abuso e delito maior, o de não reconhecer nos do­minados os direitos que os dominadores reconhecem para si mesmos. Os princípios superiores da ética são tanto mais dificilmente aplicados, quanto mais poderoso e ativo é o sistema de luta que vigora na terra, para a qual eles são trazidos.

A humanidade futura será mais inteligente e com­preenderá a enorme vantagem de comportar-se de modo diferente. 

No fundo, os conceitos de moral e evolução coincidem, como os de anti-moral e involução. Ao evoluir, o indivíduo torna-se esponta­neamente moral, como ao involuir se torna anti-mo­ral. Por natureza o evoluído é mais moral que o in­voluído. Moral é evoluir, anti-moral é involuir, como viver uma vida estéril que nada produz de bom nem para si, nem para os outros. Moral lógica e utilitária, baseada no utilitarismo da vida, que não é de superfície nem míope visando a efeitos imediatos, mas profundo e de longo alcance, substancialmente frutífero. 
Definimos a dor como um estado de desarmonia, de­vido à própria posição da desordem. A dor deriva, com efeito, da desordem, que leva os indivíduos a luta, fazendo-os chocar-se uns contra os outros. 
É ló­gico, pois, que ela tenda a desaparecer com a evolução que leva à ordem, que pacifica os indivíduos, fa­zendo-os caminhar disciplinadamente, cada um em seu lugar, sem mais chocar-se com o vizinho, ofen­dendo-o.


Como a fera que se torna menos feroz e perde as garras ao evoluir, ou seja, como a evolução reali­za uma progressiva eliminação da luta pela vida, assim a moral, à proporção que evolui, se torna me­nos opressora, menos terrorística, menos armada de duros castigos. Com a evolução tudo tende à harmo­nia, à alegria, à bondade. Torna-se o homem mais livre e ao mesmo tempo adquire maior sentido de responsabilidade. Quem quiser subir aproveitará, de­pois as vantagens; quem não quiser subir, permanecerá em seu nível de vida, com todos os males ine­rentes a ela.

Em substância, a nova moral diz ape­nas: civilizai-vos e vivereis muito melhor. 

E se agra­da a todos viver melhor, é lógico que, descoberta a estrada para atingir isto, se ache conveniente subme­ter-se ao esforço indispensável para percorrê-la. A ética atualmente em vigor na prática, embora teori­camente bela, é torcida pelos instintos elementares, cheia de trasbordamentos do subconsciente e de ilu­sões psicológicas, devidas a perspectivas erradas, produzidas pela forma mental que dirige o homem em seu atual plano de vida. Moral em que reapare­ce a cada passo, nos fatos, o cálculo do próprio inte­resse, o medo do patrão, o desejo de evitá-lo, enga­nando-o com escapatórias, o contínuo sentido de luta para tornar-se o mais forte e assim vencer a todos.

Esse triste estado deve ser abandonado e supera­do com formas de vida mais altas e felizes. Não mais tantas condenações, que sufocam a vida, mas esfor­ços inteligentes para melhorar, andando ao encontro dela.
 U'a moral amiga, que nos levará ao bem querendo-nos bem, e não u'a moral inimiga, em que o instinto humano de luta e agressão encontra desa­fogo. É preciso afastar-se cada vez mais dos grandes absurdos e aberrações do passado, como as guerras santas, as inquisições., os infernos eternos, a benção das armas e as condenações em nome de Deus, como de toda coação espiritual que leva à aceitação forçada, como substituto da aceitação espontânea, por convicção.

 U’a moral fraterna e pacífica de onde desapareceu a luta, em que, sendo tudo lógico e cla­ro, não pode aparecer a mentira, porque é contraproducente. Para eliminar todos esses efeitos maus é mister eliminar as causas. Não é uma moral para uso dos vencedores, em detrimento dos vencidos, mas uma moral de justiça em que há lugar para os direi­tos e à vida de todos. Então a classe dos rebeldes à ordem social não teria mais razão de existir e desa­pareceriam essa praga, essa luta e esse perigo. Mas, enquanto dominar u’a moral de classe, ao invés de u’a moral biológica imparcial, a humanidade terá de continuar a luta, e não poderá purificar-se de seus elementos mais daninhos.


Estas são as regras do jogo e não podemos sair delas:

 se semearmos justiça, colheremos ordem e paz; mas se semearmos injustiça só poderemos colher revolta e mentira.
 Se, no próximo, quisermos enga­nar a vida, a vida, através do próximo, nos engana­rá. Esta é uma realidade à qual não podemos esca­par, mesmo se tudo fizermos em nome de Deus, da pátria, de um ideal, do bem da humanidade.
Esta é a verdade a que tudo se reduz, para além dos esque­mas filosóficos, religiosos, ideais e sociais. As aparências não contam. Se não formos sinceros, teremos mentira; se oprimirmos teremos revolta; se não sou­bermos mandar para o bem alheio, não obteremos obediência.

* * *

O ponto fraco da moral vigente é sempre o de permanecer imersa no plano da luta, de ser uma expressão dela, de existir em função dela, permane­cendo assim uma moral de involuídos. A causa primeira dos males daí derivados é o princípio do mais forte, que domina nesse plano, princípio que leva à derrota. Segundo esse princípio a verdade é estabe­lecida pela maioria, com suas idéias, para satisfazer a seus instintos e interesses. Cabe-lhe esse direito, porque ela é numericamente mais forte. Mas quais são as idéias da maioria, que certamente não pode representar uma elite selecionada? São as que corres­pondem aos impulsos mais elementares da vida. E é a essa altura, própria dos involuídos, que os evoluídos são constrangidos a nivelar-se. E então, mes­mo que a verdade possa descer do Alto pela revelação, o que a humanidade aceita, aplica e vive, é estabelecido pelos limites impostos pela capacidade de compreensão das massas, que não sabe ir além de um consentimento instintivo do subconsciente, que re­presenta a parte mais involuída, a animal do ser hu­mano. São estas as forças que, através dos fatos, ten­dem a dirigir a atividade humana e com a qual a éti­ca tem de contar, pagando o seu tributo, ainda que, na teoria, essa atividade pretenda justificar-se pro­clamando-se conseqüência e aplicação de princípios absolutos, e sendo praticada em nome de Deus e dos mais altos ideais. A realidade positiva que aparece nos fatos é a satisfação do imperativo dos interesses da vida, que quer atingir sua finalidade. Constrói-se assim o castelo da ética sobre bases escusas, que se enterram nas vísceras do mundo biológico e que pouca afinidade tem com abstrações lógicas e teológicas, onde a ética pretende fundamentar-se para assumir valor absoluto, acima de nosso contingente. Como o homem construiu para si uma idéia toda antropomórfica da Divindade, para seu uso e consumo; como se colocou na posição de único objetivo da criação, num planeta que estava no centro do universo, em função de valores considerados absolutos, por exemplo a imobilidade da terra e a solidez da matéria; do mes­mo modo o homem construiu para si uma ética na ba­se de ilusões psicológicas, que a observação acurada das mentes mais adiantadas vai gradualmente desfa­zendo com a análise, à proporção que, com a evolu­ção, se abre a inteligência humana.


Justifica-se essa forma mental, responsável pelo conceito de verdade absoluta, através do desejo instintivo de atingir a última meta do conhecimento Acreditam assim que a atingiram e a possuem, ao passo que para o homem, situado no futuro, só são possíveis verdades relativas e em evolução. De fato é. isto o que a realidade nos mostra apesar das mais absolutas e dogmáticas afirmações em contrário. Di­ante do transformismo universal, a que nenhum ser pode escapar porque está imerso no fenômeno da evolução, o absoluto imutável só é admissível como distante meta final, ainda não tocada, e só atingível no término do processo evolutivo. Até esse momento, tão distante que escapa à avaliação de nosso concebível, só podemos admitir para o ser uma progressiva suces­são de diversas aproximações da verdade, como eta­pas da contínua conquista do conhecimento. A ética é apenas um dos aspectos dessa verdade e, como tal, também só pode ser relativa e em evolução. Eis en­tão que a ética, como o conhecimento e tudo o mais, é dada pela posição que o homem atingiu ao longo da escala da evolução, e existe em função desta, ou seja, do grau de desenvolvimento alcançado, o que estabelece, em todos os campos, os limites do
conce­bível humano.


Surge, então, na terra, a possibilidade de existi­rem diversas éticas, relativas ao grau de evolução atingido. 
É verdade que a maioria estabelece um ní­vel médio, proporcional à sua sensibilidade e compreensão, adaptado às massas que, nele se encon­tram à vontade. Mas é também verdade que os mais evoluídos podem considerar essa ética como al­tamente imoral, já que encara como lícito e natural o que a eles pode parecer até mesmo um crime.

A mo­ral dos selvagens atinge a antropofagia. A moral do homem civilizado admitiu, até há pouco tempo, a es­cravidão, e ainda admite, em vários casos, o direito de matar o seu semelhante. Quanto mais civilizado é o ser, e ilícitas, muitas coisas que a moral comum permite, mais é evoluído e mais fica horrorizado como os seus semelhantes realizam, sem nenhum sentimen­to de culpa, atos que seriam, para ele, inadmissíveis. 
Esse tipo biológico poderia então fazer uma lista de crimes que a ética comum, tanto religiosa como civil, admite tranqüilamente, sem perceber a sua atrocida­de, com a mesma ingenuidade com que — em pro­porção — o antropófago devora o seu inimigo.


Veja­mos alguns desses casos.

1) Julgarmos não em função da justiça, imparcial­mente, mas em função da força de que o julgado dispõe: seja em posição social, poder econômico, capa­cidades bélicas etc., chegando assim a uma justiça que funciona de modo exemplar apenas para o fa­minto e inerme ladrão de pão ou de galinhas


2) Julgarmos e condenarmos o próximo sem conhe­cer suas condições reais e só em função deles mes­mos. Sermos tolerantes quando nos outros encontramos os nossos próprios defeitos, pelos quais também nós poderíamos ser condenados primeiro, se os 
con­denássemos; e tornarmo-nos desapiedadamente in­transigentes e modelos de virtude, quando nos outros podemos apontar defeitos que não temos, pelos quais, portanto, não podemos ser alvo do retorno de acusação.


3) Servirmo-nos das altas coisas do espírito e de Deus como meio para alcançar vantagens materiais, para vencer na vida e nos afirmarmos no mundo, prostituindo-as até fazer delas instrumento de astúcia de guerra. Em outros termos, servirmo-nos da política para satisfazer o próprio orgulho ou para nos tornarmos uma potência social e econômica, e não para aju­dar a nação; servirmo-nos da religião para assegurar uma posição e não para cumprir a missão de levar o bem às almas; trairmos os princípios que dizemos pro­fessar, usando-os para outros fins, enganando a res­peito dos verdadeiros métodos de vida, bem camufla­dos sob um belo manto de hipocrisia, e, praticando na realidade, sob tão belas aparências, o jogo duplo do Maquiavelismo.


4) Segundo a moral em vigor, é lícito vivermos no desperdício do supérfluo, enquanto outros nossos se­melhantes carecem do estritamente necessário, assim como é lícito entrarmos na posse de bens que não fo­ram ganhos com o próprio trabalho.


5) É lícito roubarmos quando com isto damos pro­va de uma inteligência, que sabe enganar a justiça estabelecida pelas leis. Saber escapar astuciosamen­te, aos castigos, pode até merecer como prêmio a velada estima da opinião pública, que não a regateia a quem saiba vencer e tornar-se poderoso, e que se torna incondicionalmente admirado só por isso, rele­gando ao esquecimento os meios utilizados, desde que atingiu resultados tão brilhantes e invejados.


6) É lícito, com a benção de Deus e as honras da pátria, matarmos quando isto corresponde aos inte­resses do próprio país ou dos detentores do poder. Aos maiores carrascos da humanidade, que realiza­ram as maiores matanças bélicas, foram tributadas as maiores honras da história.


A lista poderia continuar. Estes são alguns dos delitos que a ética humana atual reconhece como lícitos, na realidade, embora os condene teoricamente; delitos que qualquer um pode tranqüilamente come­ter, continuando pessoa de bem e cidadão estimado na sociedade, como bom cristão, ao qual as religiões prometem o paraíso. Assim a maioria cria a própria ética, satisfazendo seus instintos, aos quais obedece de boa fé, acreditando permanecer na verdade e na justiça. Não tendo atingido ainda o nível evolutivo suficiente para perceber o que está fazendo, a pessoa se julga honesta e sincera. Nada mais se pode fazer, então, senão repetir com Cristo: “Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. E para compreender o 
com­portamento desses seres, temos de raciocinar com a inteligência da vida, que os faz movimentar-se por meio desses instintos, sem que eles saibam o porque. Eis que então aparece, além da ética pregada e teorica­mente professada — artificiosa construção do pensa­mento — esta outra moral biológica e realística, em que a vida impõe as férreas leis de seu plano de evolução.


Esta realística moral biológica pode parecer mais livre, porque permite muitas coisas que são proibidas mais acima; entretanto nem por isso é menos dura. Justamente porque mais involuída, está armada com reações férreas, para manter na linha o involuído, menos sensibilizado. O homem comum sente-se livre e por isso acredita que lhe é permitido poder realizar impunemente qualquer desejo, não imaginando que vive constrangido nas malhas de uma rede de ferro, estabelecida pela Lei. Como esta lhe deixa liberda­de de ação ele acredita poder fazer o que quer e não percebe que a cada movimento seu corresponde uma inexorável reação. Assim o homem faz o que quer, mas a lei é um sensibilíssimo organismo de forças que, à mínima violação de sua ordem, responde com um proporcionado e adequado contragolpe, que coloca cada coisa em seu lugar, de acordo com a justiça. Essas forças são como tentáculos que atingem quem errou contra a lei, sem possibilidade de fuga, em qualquer tempo ou lugar que ele se encontre. O ho­mem, acreditando-se totalmente livre, está imerso nes­sa atmosfera de ordem imposta pela lei; faz parte des­se organismo de forças que o vinculam de todos os lados e no qual precisa saber manobrar com sábia retidão, se não quiser depois ser coagido a suportar tremendos contragolpes como reação da lei.


Justamente nesse ambiente — de cuja verdadei­ra natureza o homem não pode tomar conhecimento por causa da ignorância — é que o homem gosta de mover-se, segundo seus loucos caprichos, perseguindo miragens de dominador, que pretende impor-se a tudo. É fácil imaginar que dilúvio de dores daí re­sulte. E é isso que de fato vemos acontecer no mun­do. É como se um aviador quisesse voar sem conhe­cer nem respeitar as leis do vôo, e ao contrário, pre­tendesse impor-se a elas, para dobrá-las, obrigando-as a funcionar segundo sua vontade. O resultado lógico seria que, ao invés de mudar as leis do vôo, o aviador caísse ao solo pagando as conseqüências fatais de sua louca pretensão. Qualquer técnico que conheça aquelas leis poderia matematicamente ex­plicar-lhe a necessidade lógica das conseqüências.


As primeiras características do involuído são a sua ignorância e o instinto de revolta, de modo que, aumentando essas qualidades com a involução, au­menta proporcionalmente a força dos golpes recebi­dos. Mas é justamente desses golpes maiores que a insensibilidade maior do involuído precisa, para aprender a conhecer a lei e a não ofendê-la com a própria revolta. Os meios para educar são enérgicos, na medida adaptada à capacidade perceptiva dos alunos. Estes podem semear a desordem que quise­rem, mas só para si, e para depois pagarem os pre­juízos, à própria custa. Ninguém pode impedir que tudo esteja proporcionado em perfeita ordem, na lei.


O objetivo da escola da dor é ensinar a obediência, ensinar a saber movimentar-se seguindo a ordem da lei e não chocando-se com ela, provocando rea­ções. Todavia o homem é um rebelde por natureza, e julga-se honrado e sábio, quando sabe impor-se a todos, e se gaba da arte de violar a lei, conseguindo depois escapar às suas reações. Entre o involuído e a Lei estabelece-se assim não um regime de consentimento e harmonia, mas como um duelo em que o ho­mem desejaria superar a Lei, a qual lhe aparece não como uma norma de sua felicidade, mas como um inimigo que deva ser dobrado e enganado. Acredi­ta-se desta forma dar prova de inteligência, usando de astúcia ao querer lograr nas barbas de Deus e dos homens. Trágico mal-entendido, que escancara as portas à dor, necessária para corrigir esse erro. A lei não é um obstáculo que valha a pena superar com bravura, mas um guia amigo que quer levar-nos à felicidade que procuramos destruir, quando nos re­belamos contra a Lei. Com a desobediência semeamos dor, onde a lei, se fosse obedecida, faria nascer alegria.


E' assim que, através dos oceanos de todos os so­frimentos, o homem aprende a conhecer os artigos da Lei. É assim que, pagando pela desobediência, se aprende a arte de obedecer. Desse modo a Lei, duplamente sábia, compensa a loucura do homem, im­pelindo-o, apesar de tudo, a realizar a própria evolução. E quanto, mais o homem, na sua luta contra a lei, procura escapatórias para fugir de seu castigo, tanto mais esta o chicoteia para trazê-lo à sua ordem. O jogo que vale para as leis humanas, que é possí­vel enganar, não vale para a Lei de Deus, que não se pode lograr. Nossa ignorância pode ser tão gran­de que nos faça crer seja isto possível. Mas não mu­da a realidade dos fatos. Quando julgamos que fo­mos mesmo sabidos, conseguindo burlar a Lei e es­capar de suas sanções, explode a sua reação maior, com a tempestade corretiva. Aprende-se, então, a li­ção mais salutar, a que nos ensina que o erro maior, que se paga mais caro, é justamente o de jul­gar seja possível impor-se à Lei com a força e escapar das conseqüências da desobediência com a astúcia.


As estradas de fuga abrem-se diante de nossos olhos, amplas e convidativas. Os ingênuos acredi­tam que fizeram a grande descoberta e encontraram os atalhos da felicidade. Lançam-se a eles aos mon­tões, como moscas ao mel. Que convite: ganhar a bom preço, com pequeno esforço Como resistir a isso. Mas a Lei é justa e não admite se possa obter uma vantagem sem ser conquistada e merecida. Essas soluções cômodas são uma ilusão; esses cami­nhos fáceis que parecem conduzir à felicidade são redes de fundo sem saída, becos cheios de dor, e pa­ra sair deles, é mister caminhar para trás, engolindo o erro e tornando a percorrer a íngreme subida por todo o caminho percorrido na descida fácil.


Há uma estrada que não engana e verdadeira­mente resolve o problema, sem trazer-nos sofrimen­tos. Mas esta é pequena, estreita, lateral, e ninguém lhe dá importância; é íngreme e incômoda, e não atrai os caçadores de vitória, fáceis. Termina numa passagem muito estreita, e para entrar nela é preci­so estar nu, sem nenhuma roupagem de mentiras, despido dos enfeites das coisas terrenas, sutil e leve, espiritualizado e livre do peso da matéria. Aquela passagem estreita é a honestidade. Sé passam por ela os justos, os sinceros, os obedientes à Lei. Seria possível sair por ali sem chocar-se com as reações da Lei, mas é difícil e ninguém pensa nisso. Para con­segui-lo são necessárias qualidades que não se tem e que são duras de conquistar; requerem-se esforços que não são agradáveis fazer. Por isso ninguém olha para esse lado, onde, no entanto, está o caminho de saída a todos os sofrimentos. E são preferidas as ou­tras estradas, amplas e convidativas, mesmo que depois não conduzam, como é lógico, senão ao enga­no. É justo, está de acordo com a Lei, que quem quer enganar seja enganado; que quem se glorie do sa­ber lograr, seja logrado. Depois diz que a vida é ilu­são. Mas esta foi desejada pela psicologia de astú­cia que ilude primeiro quem acreditou poder iludir a Lei.


Quando depois, por obra de seres mais adianta­dos, desce do Alto uma ética, norma de conduta que nos leva a evitar esses males, mesmo assim o homem, como fazia com a Lei, procura todas as escapatórias para lográ-la. O involuído primitivo não sabe respon­der de outra forma. Quando, por maturidade evolu­tiva, falta a consciência das próprias ações, a ética poderá impor normas mecânicas e exteriores, mas não poderá improvisar essa consciência. Nesse ní­vel, a ética reduz-se então, à prática formal daque­las normas e, realizadas elas, o indivíduo sentir-se-á tranqüilo em sua consciência, convencido de que na­da mais se deva nem se possa fazer. Nesse nível não se pode exigir mais que esse cumprimento formal, já que falta a sensibilidade necessária para perceber o peso das coisas espirituais. Para chegar a percebê­-las, os imaturos as revestem de formas materiais, procurando assim segurá-las, ao dar-lhes corpo con­creto, porque de outro modo ficariam inatingíveis, perdidas no mundo do super-concebível. É assim que se pode chegar a uma ética formal exterior, que os involuídos praticam de perfeita boa-fé, julgando-a uma ética de substância, mas que não pode deixar de aparecer aos olhos do evoluído como uma menti­ra e uma traição de princípios. E no entanto não se pode culpar ninguém, porque ninguém pode dar o que não tem, nem ser mais do que é. Não se pode exprobrar a planta de ser planta, o animal de ser ani­mal, nem a qualquer criatura de só saber existir con­forme as qualidades que possui. A condenação ou o prêmio cada um o traz em si, com a própria inferio­ridade ou com a própria superioridade. Aos involuí­dos não se pode culpar se a vida, no seu nível, não sabe funcionar de forma mais adiantada Na reali­dade não há nenhuma vantagem em ser involuído, e quem não sabe viver melhor, merece compaixão pela sua desgraça. Ninguém mais do que o ignoran­te é vítima, e, acreditando mandar, é obrigado a obe­decer a leis que não conhece. Não é a eles mas ape­nas ao evoluído consciente, que se pode pedir que compreenda o mecanismo de seus instintos e rea­ções, que constituem a chave de seu comportamen­to, a verdadeira moral íntima que o ser sente e é le­vado a viver, não lhe importando qual seja a moral oficial que, por outros motivos sobrepostos, teve de aprender a representar, formalmente, na prática. Só assim pode compreender-se o verdadeiro jogo da vida, que, de modo geral, é duplo, porque a primeira coisa que o instinto ensina ao involuído que tem de viver em regime de guerra, é esconder suas próprias e verdadeiras intenções, como ensina o Maquiavelis­mo: parecer sincero e honesto, sem o ser.


Assim, o sistema da luta, índice seguro que esta­belece a inferioridade do plano evolutivo humano, não é eliminado pela ética para dar lugar a um regi­me de justiça, como se presume; mas é apenas escondido nos subterrâneos da vida, onde a luta con­tinua mais exacerbada que nunca, mais sutil e astuta, e nem por isso menos feroz. Esta é a ética verda­deira, com a qual é preciso, em última análise, fazer as contas, a que rege o mundo e constitui a substância de todos os problemas. Enquanto permanece no campo teórico e, embora muito alta, não lesa interes­ses concretos; enquanto não aborrece e nada custa respeitá-la, é respeitada. Se por isso pôde formar-se e dominar uma ética feita de altas teorias e belas práticas, sem tocar na substância da vida, porque aí a coisa muda de figura e recrudesce a luta. Mas logo que a ética quer tocar na realidade dos interesses tangíveis, que todos sentem, então afloram aquelas verdades que são na prática as verdadeiras verda­des da vida, acima das belas aparências. Acaba então o jogo das belas palavras e chega-se aos fa­tos. Se aparece um interesse ou um prejuízo concre­to, toca-se na realidade da vida, que reage, e surge o verdadeiro jogo. O outro, o das belas teorias e das exterioridades formais, pode continuar imperturbá­vel, pois todos sabem que não é o verdadeiro. Mas se tocarem no ventre e no sexo, nos bens e nas satis­fações materiais, todos compreenderão que se age seriamente. Não são os problemas do conhecimento, mas estes é que constituem os grandes problemas do subconsciente das massas, aqueles segundo os quais caminham as correntes da psicologia coletiva, aque­les de que mais se ocupa o pensamento da maioria — o que estabelece a verdade dominante. Só quan­do, alem das palavras e práticas convencionais, sou­bermos ver esse outro recôndito pensamento escon­dido entre as dobras da aparência, só então podere­mos compreender a verdadeira natureza do jogo da vida e da ética, e a verdadeira razão das ações humanas.


A ética do mundo faz muita questão de distinguir um grupo do outro, seja por fé, religião, partido etc., e não a distinguir honestos de desonestos, onde quer que estejam. Isto justamente porque o maior interes­se destes últimos, que são os mais espertos, é perma­necer misturados em todos os grupos com os hones­tos, que são os mais fáceis de serem subjugados.

Assim, sob outras aparências, pode fazer-se o verda­deiro jogo da vida, que é o de vencer na luta, e pode aplicar-se a verdadeira ética vivida, que é ética de guerra, pela qual os mais fortes e astutos podem atingir os altos postos, dominando os mais fracos e simples. Eis a verdadeira ética, que vigora sob as aparências da moral oficial, ética que oferece a pal­ma do vencedor a quem souber fazer o jogo da vida as expensas de quem não sabe fazê-lo.


Essa é a verdadeira face da verdade na terra. O honesto faz todas as despesas e parece injustiça. Mas nem tudo acaba aí. Os melhores são expulsos do ambiente da terra, o que constitui, em última aná­lise, uma grande vantagem para eles, pois lhes per­mite tornar-se cidadãos de mundos mais evoluídos, enquanto os piores, que se acreditam vencedores, continuam empilhados no pântano terrestre, para agredir-se mutuamente, segundo seu instinto de luta, fazendo assim com as próprias mãos o seu inferno. Saber triunfar no mundo, pela força ou pela astúcia é, na verdade, o maior prejuízo, porque significa fa­zer parte de planos inferiores de vida e ser condenado a permanecer aí, suportando todos os seus ma­les E eis que, em última análise, quem vence na vida é a justiça de Deus, pela qual cada um volta se­gundo o seu lugar e merecimento. Quem acredita chegar em melhor situação que antes, por seguir vias transversas, na realidade, chega em pior condição. Quem pratica o mal, acreditando com isso vencer, faz mal na realidade a si mesmo e perde, devendo ainda por cima pagar o próprio dano. Só a igno­rância do involuído pode acreditar seja possível tal absurdo uma derrota para Deus, pela impotência de sua Lei de justiça ou que Ele pudesse ser vencido pe­la prepotência ou pela astúcia da criatura.


* * *

A pior moral é a de não acreditar no que se pre­ga e, consequentemente, não o praticar. Com isto se engana a Deus, incorrendo-se em culpa, e a nós mes­mos acarretando prejuízo. A hipocrisia é a pior conclusão de todas as morais. Então os mestres ensinam e os discípulos ouvem, mas na realidade tudo se faz por outras razões. Pode formar-se um acordo tácito, porque de ambas as partes se sabe que a vida é outra coisa. Os primeiros partem o pão da verdade, os segundos o aceitam segundo as regras estabelecidas, e tudo fica na mesma. Respeita-se a tradição, acredita-se no que se deve, cumprem-se as práticas regulamentares A Que mais pode exigir-se? Todos sa­bem por experiência própria que a vida, na reali­dade, é bem diferente da teoria que se prega, e, na prática, domina outra verdade, pela qual não é o me­lhor, e sim o mais forte que vence. E desta verdade não se fala, porque é muito mais honroso aparentar-se um ser superior, cheio de qualidades nobres. Assim os ideais na terra podem oferecer uma utilida­de na prática. Podem conciliar-se as duas exigências opostas, ou seja, salvar o espírito, continuando a pra­ticar a outra lei do mundo.


A culpa não cabe toda aos dirigentes. Sendo a minoria, tiveram que adaptar-se à maioria, que representa o maior impulso. A maioria suporta de má vonta­de os moralistas, procurando expulsá-los, e não os su­portaria de modo algum se eles quisessem agir de ver­dade. Durante séculos realizou-se, assim, a seleção dos que perturbam menos, por terem achado a fórmula da convivência, resolvendo o difícil problema por meio de acomodações. Nem isto constitui toda a cul­pa. Se pode parecer traição de princípios, este é o único modo que torna possível certa dose percentual de sua aplicação, que em sua totalidade seria impos­sível num mundo assim. Desta forma, uma parte da conduta humana está entregue à hipocrisia. Mas que fazer, se a realidade da vida na terra está nos antí­podas dos ideais?


As próprias religiões partem do princípio de que o mundo é composto de pecadores. As leis civis tam­bém partem do pressuposto de desonestidade do ci­dadão, e ao lado de cada norma colocam de imediato o castigo pelo não-cumprimento. O ponto de partida é sempre a presunção de que se trata de um rebelde, cuja vontade de desobediência é admiti­da implicitamente e presumida a priori. Tudo isto é a conseqüência lógica da lei que vigora no plano biológico humano, lei de luta de todos contra todos, baseado no ataque e na defesa. Se existem essas pre­sunções, porque a maioria dos indivíduos é feita efetivamente de pecadores e de cidadãos que gostariam de não obedecer. Eles são, portanto, proporcionais a tal pressuposto e relativo tratamento, são adequa­dos a tal mundo e selecionados na arte de defender-se, o que é indispensável à sua sobrevivência. Pro­va-o o fato de que estes, se não são como se presu­me que sejam — isto é, se são verdadeiramente bons e honestos — são rapidamente liquidados na realida­de. Quaisquer que sejam os princípios teoricamente proclamados, a lei vigorante, de fato, é a da luta, do ataque e da defesa, pela qual a reação do indivíduo contra qualquer autoridade pode explicar-se com o instinto, como legítima defesa, provocada pelo fato de que, quem tem em mãos o poder, costuma usá-lo pa­ra vantagem própria ou da classe, e não como uma função social para o bem de todos. Jamais se poderá impedir que a vida reaja em defesa própria, ao sen­tir-se atacada em qualquer ser. Reaparece aqui o conceito já desenvolvido, da reciprocidade das po­sições entre autoridade e dependentes, que não po­dem deixar de influenciar-se mutuamente; e o concei­to de que não se podem alegar direitos, se antes não se cumpriram todos os deveres próprios, em relação àqueles de quem se reclama. Mas se esta é a nova moral, a atual move-se ainda num terreno de luta. Então as condenadas acomodações, que escandali­zam porque propiciam o não-cumprimento dos deve­res, podem aparecer-nos sob uma luz diferente, e se­rem justificados diante da sabedoria da vida que as permite. Isto aconteceria, de fato, porque elas cum­prem biologicamente uma função útil, isto é, a de tor­nar possível uma convivência relativamente pacífica num ambiente de lutas, o que é utilíssimo para dar tempo a que o novo seja assimilado e a que a evo­lução possa amadurecer, para subir mais um pouco


Contra todas as morais, persiste o fato de que a vida humana é um contínuo estado de guerra. Esta é o estado normal, ao passo que o de paz é constituí­do de intervalos, necessários para preparar outra guerra. O que mais liga os homens pela amizade, a força de amor que mais os une, é o ódio contra um inimigo comum. Então os inimigos se abraçam, mas só para que unidos possam vencer o outro. Se a men­tira floresce, é porque na guerra ela é útil. Pode con­vir mostrar-se bons, porque assim se atrai a estima e a confiança e, com a veste do cordeiro, pode melhor desarmar-se o próximo e obter-se mais. As virtudes podem tornar-se ótima astúcia de guerra, para enga­nar e assim vencer o inimigo. Desse estado não nas­ce uma ética única que irmana e une, mas uma éti­ca de agressão e uma de defesa, conforme se perten­ça à classe dos deserdados ou à dos já poderosos. Cada um forja para si a própria moral, segundo seus interesses e posição social, e muda essa moral ao mudar sua posição. Há a moral dos vencedores e a dos vencidos, a moral dos ricos e a dos pobres. Mas quando estes se tornam ricos, e penetram nas altas classes sociais, assumem a psicologia delas, os cos­tumes e a ética respectiva.


Esta luta se desenrola sub-reptícia, escondida sob as aparências obrigatórias de paz e amor, é a substância da vida humana na terra. A moral, em sentido lato, torna-se um meio para enganar os sim­ples que acreditam nas aparências. Infelizmente, da­do que no plano humano a vida tende à seleção do mais forte e astuto, isto não poderá terminar enquan­to o biótipo do ingênuo não for eliminado. Se psicologicamente ele é um fraco, que pode fazer a vida — segundo a lógica da lei vigente no nível terreno — senão procurar liquidar esse biótipo, se ele não souber evoluir conquistando inteligência? Aqui estamos ainda nos primeiros degraus desta, e tudo con­siste em astúcias de guerra. No entanto é necessá­rio percorrê-los, para chegar aos superiores, nos quais se compreenderá a estupidez da guerra e de suas astúcias. Entretanto, enquanto os ingênuos não apren­derem, nada mais lhe resta senão servir de pedestal aos astutos que sabem emergir, escapando às san­ções das leis humanas, que ficam reservadas aos simples que não sabem defender-se. Isto é injusto e horrível. Mas, dados os princípios segundo os quais funciona a vida no plano animal-humano, não pode­mos ter resultados diferentes.


Não pode negar-se que seja bela a moral que o mundo apresenta na vitrine. Em teoria tudo é excelente. Mas seria mister que ela conseguisse fazer o homem subir a um plano superior de vida, onde essa teoria se tornasse prática. Resta a realidade biológica, pela qual o homem vive num nível que não satisfaz o seu ideal. Então, num ambiente de luta, é na­tural que os princípios superiores fiquem torcidos e invertidos, se tudo, ou quase, existe nesse ambiente em função da luta. Fala-se muito de bens espirituais, mas o que vale na terra são os bens materiais, tanto que, para ser compreendido o valor espiritual do homem superior, é necessário que ele seja demonstra­do exteriormente pela riqueza de um monumento ou de um templo, se ele morreu, ou de alta posição so­cial, se está vivo. Se Cristo aparecesse hoje na terra, sem nenhum apanágio terreno, talvez ninguém o per­cebesse. O homem comum carece de um sentido próprio para julgar as coisas superiores e só adquire por imitação o julgamento que o mandam repetir e que circula pela maioria.


Encerremos este assunto com uma anedota signi­ficativa, que resume vários conceitos já expostos. Um missionário que se achava na África, para civilizar os selvagens, explicara com cuidado a um grupo deles o sentido do bem e do mal, para fazer nascer neles o senso moral, base do cristianismo. Para assegurar-se de que havia ensinado bem e que tinha sido compreendido, tomou à parte um dos mais inteligentes e perguntou-lhe: "diga-me então o que é o bem e o mal".


O selvagem pensou algum tempo, e depois for­mulou claramente a sua resposta: "mal é quando o vizinho rouba a minha vaca". O missionário apro­vou. Sem dúvida, roubar é mal, e o ato é moralmen­te reprovável. E acrescentou: "E o bem, que é?" O selvagem respondeu muito depressa, convictamente: "Bem é quando eu consigo roubar a vaca do meu vizinho".


Que vergonha diz, a essa resposta, o homem ci­vilizado, que certamente não teria respondido assim, porque conhece o conceito de bem e de mal. Mas, por que o civilizado não a teria dado? Certamente não seria porque não estivesse convencido de que o selva­gem, do ponto de vista individual, tivesse perfeitamen­te razão. O africano respondeu assim porque era um simples e falava com a ingenuidade do primitivo, que ainda não sabe esconder o próprio pensamento. En­tão a diferença está apenas no fato de que o homem civilizado — que bem gostaria de fazer como o sel­vagem — já aprendeu a não dizer o que lhe atrairia as sanções da lei e a condenação do próximo. A di­ferença não está no fato que o civilizado pense diver­samente do selvagem — tanto que o imitaria de boa-vontade — se o próximo lesado, organizado em so­ciedade, não o fizesse pagar por isso, anulando a indiscutível vantagem dessa ação.


O utilitarista, mais refinado, compreendeu que e muito mais fácil buscar o próprio interesse sem dizê-lo, isto é, sem descobrir os próprios planos, revelan­do a sua estratégia de guerra. Então, a habilidade pode consistir em esconder, e a virtude em falsear, ao invés de dizer a verdade. Nesse caso, a culpa do selvagem seria a sua ingenuidade, que o civilizado não lhe perdoaria porque não a possui, já que se está mais pronto a condenar as culpas que não se tem, do que as que se tem. Estamos num ambiente de lu­ta e não pode impedir-se que tudo exista em função desta. É natural que os ideais também sejam utiliza­dos para esse fim, sendo transformados num manto de hipocrisia, para melhor enganar o próximo. Se esta está tão espalhada na terra, deve haver uma razão; é que nesse plano de vida, ela pode ser van­tajosa, ao passo que, nos planos mais evoluídos ela não é praticada porque é contraproducente. Assim, na terra, a sinceridade pode ser julgada ingenuidade de tolo, inábil para a luta. Acontece, pois, que na prática, a culpa que mais se condena não é a menti­ra, mas o fato de ser tão tolo que se deixe descobrir a mentira; não é não ter defeitos, mas o não saber escondê-los, mostrando assim o ponto vulnerável on­de se pode ser derrotado. Pelo involuído plano bioló­gico em que isto ocorre, não se trata de maldade, mas de afloramentos do subconsciente animal na luta pa­ra sobreviver.


Acha-se o homem numa fase de transição entre a animalidade e a espiritualidade. É natural que, em seu mundo, a teoria que se prega da moral, da bon­dade e justiça, se ache em contraste com a prática, da moral de força e astúcia. Com efeito, o que mais se pune é o erro de deixar-se apanhar em erro. As leis humanas não punem quem seja tão hábil que não se deixe apanhar. A verdadeira justiça é só aquela da qual não se pode fugir, como a justiça de Deus. A humana é uma luta entre legislador e réu, entre acusador e acusado, entre juiz e julgado e ao contrário, na qual vence o mais forte e o mais hábil. Na prática, o maior valor do indivíduo não consiste naquilo que é proclamado em teoria, ou seja, em obedecer à lei, mas na habilidade de saber escapar dela. Lógico que num ambiente de luta, onde reina o culto da força, seja fraqueza obedecer, e valor o rebelar-se.


Como pode uma moral ideal, feita para um mun­do orgânico de ordem, ao qual ela quer levar o nosso mundo humano por meio da evolução, não ser inver­tida neste, que é um mundo caótico, feito de competições? Em nosso ambiente humano, como no caso do selvagem acima narrado, o bem e o mal são conce­bidos apenas em função do próprio eu, ignorando o próximo (o bem é a utilidade própria, o mal o prejuí­zo próprio); ao passo que no plano superior ao qual pertence a moral oficial, o bem e o mal são concebidos em função de toda a coletividade, levando-se em conta o próximo (mesmo o bem alheio é utilidade própria, e o prejuízo alheio é um prejuízo próprio). Também o desenvolvimento mental, nos dois planos ocorre em sentido diverso. Em nosso mundo a inteligência mais apreciada é a que dá fruto imediato na luta, a que serve para. vencer, e não a especulativa, que procura o conhecimento e leva à consciência da Lei. Quem a possui é considerado em geral um ho­mem que vive nas nuvens, um simples que não co­nhece a realidade prática da vida. Esta exige astú­cias para resolver os problemas imediatos e não sa­bedoria que resolva problemas altos e distantes, sa­bedoria que não oferece nenhuma utilidade imedia­ta para a defesa da vida.


O estudo de u'a moral positiva, racionalmente demonstrada, presa aos princípios da vida, não po­dia deixar de revelar-nos também esses seus lados negativos. Tínhamos que analisá-los imparcialmen­te, para compreender a realidade em toda a sua am­plitude. Fizemo-lo para explicar o nosso mundo e compreendê-lo em muitos de seus aspectos, não pa­ra condenar, o que é inútil, já que não modifica nada e não é útil a ninguém, gerando apenas reações. A condenação está em nossas dores. Neste livro, ao invés dos problemas altos e distantes que tratamos nos outros, nós estudamos a realidade de nosso mun­do, tal qual é. Não devemos escandalizar-nos com essa realidade, que tem suas razões biológicas de existir sob essa forma. Cobrir tudo com belas apa­rências é o que menos serve para curar o mal. Ter visto claro, quer as razões pelas quais tudo isto exis­te, quer a grande vantagem de melhorar-nos, pode ser um meio de levar-nos ao bem. Os fatos são fatos. Não podem ser mudados mesmo se forem escondidos, nem pode impedir-se que produzam os seus efeitos.


Não é esta hora de sentar-nos à beira da estra­da, dando-nos como vencidos. Certamente a salva­ção está nas mãos de Deus, mas o homem deve contribuir com todo o esforço para a sua salvação. Não devemos concluir com o desencorajamento e o pessimismo. Assim como o presente superou o pas­sado, que era pior, assim como um futuro melhor su­perará o presente. Vimos que ninguém jamais pode­rá deter a grande marcha ascensional da evolução, dirigida aos objetivos supremos. Onde tudo evolui, também a moral não pode deixar de evoluir. E assim que um dia teremos de chegar à realização vivida da ética ideal, que hoje, na terra, luta para levar o ho­mem a um plano superior de vida, em que triunfará a nova civilização do espírito.


Transcrito do livro "Evolução e Evangelho" - por Pietro Ubaldi.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Evolução no Livro dos Espíritos


E encontramos este excelente trabalho de pesquisa no Livro dos Espíritos,
buscando facilitar o nosso entendimento sobre Evolução.


QUESTÃO
RESPOSTA

1
 Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.


10
O homem não pode compreender a natureza íntima de Deus.


20
Quando Deus julga útil, revela ao homem o que a ciência não lhe pode ensinar.


21 e 38
Deus criou eternamente por sua vontade todo-poderosa.


27
O universo é composto de dois elementos gerais: o espírito e a matéria.


23 - 24
O Espírito é o princípio inteligente do universo, e a inteligência é o atributo do espírito; mas um e outra se confundem em um princípio comum.


22
A matéria é o liame que prende o espírito, é o instrumento que lhe serve, e sobre o qual, ao mesmo tempo, ele exerce sua ação.


25
O espírito e a matéria são distintos, mas é preciso a união do espírito e da matéria para intelectualizar a matéria.


27- 65
O fluido universal faz o papel de intermediário entre o espírito e a matéria; o princípio vital dele deriva.



39 e 44
Os mundos se formam pela condensação da  matéria cósmica disseminada no espaço; eles encerram os germes dos seres vivos, que permanecem no estado latente e inter até o momento favorável à sua eclosão.



589
A natureza se divide em  quatro reinos; o reino mineral, o reino vegetal, o reino animal e o reino humano.




589
Tudo é transição na natureza; as coisas mais disparatadas na aparência, têm pontos de contato que o homem compreenderá mais tarde.




540 - 604
Tudo se encadeia desde o átomo primitivo até o arcanjo, que, ele mesmo, começou pelo átomo.




586 – 587
As plantas recebem as impressões físicas que agem sobre elas; elas não sofrem nem pensam.




588
Há nas plantas uma força mecânica que as atrai umas para as outras.




73 - 593
Os animais agem por instinto, mas na maior parte deles há vontade determinada; é a inteligência não racional.




595 - 602
Os animais têm uma certa liberdade de ação limitada às suas necessidades e restrita aos atos da vida material; eles progridem pela força das coisas, porque não há para eles expiação.




597
Há nos animais um princípio distinto da matéria e que sobrevive ao corpo.




600
A alma do animal é classificada após sua morte pelos Espíritos aos quais isto concerne e quase imediatamente utilizada; não tendo livre-arbítrio, não há tempo de se pôr em relação com outras criaturas.




606
A inteligência do homem e a dos animais emanam do mesmo princípio, isto é, do  elemento inteligente universal; mas no homem ela recebeu uma elaboração que a eleva acima daquela que anima o animal.




597
Há entre a alma dos animais e a do homem tanto de distância quanto entre a alma do homem e Deus.


190 – 540-607
A alma foi o princípio inteligente dos seres inferiores da criação. É nesses seres, que o homem ainda não conhece todos, que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco e  se ensaia para a vida. É de qualquer forma um trabalho preparatório como o da germinação, após o qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito.  É então que começa para ele o período da humanidade, e com ela a consciência de seu futuro, a distinção do bem e do mal, e a responsabilidade de seus atos.

79
Os Espíritos são a individualização do princípio inteligente, como os corpos são a individualização do princípio material.



84
O mundo dos Espíritos constitui um mundo à parte fora daquele que nós vemos: é o mundo das inteligências incorpóreas.



85 - 738
Na ordem das coisas, o principal é o mundo dos Espíritos; ele é preexistente e sobrevivente a tudo.




86
O mundo corporal poderia deixar de existir ou nunca ter existido sem alterar a essência do mundo espírita; apesar de sua correlação incessante, eles são independentes um do outro.




87 - 558
O Espíritos estão por toda parte; os espaços infinitos são povoados por eles, ao infinito; eles concorrem para a harmonia do universo executando as ordens de Deus, do qual são seus ministros.




88
Os Espíritos não têm forma determinada: são uma chama, um clarão, ou uma centelha etérea.




83-200-300
Os Espíritos não têm sexo e são imortais, o amor nasce entre eles da simpatia.




92
Não pode haver divisão do mesmo Espírito; cada um é um centro que irradia segundo o seu poder




93 e 94
Os Espíritos têm um invólucro fluídico chamado perispírito, que muda de densidade segundo as regiões que percorrem.

96
Os Espíritos são de diferentes ordens segundo o grau de perfeição que eles alcançaram.


97
Pode-se dividir os Espíritos em tres categorias principais:
a primeira classe é a dos Espíritos Puros, porque eles chegaram à perfeição;
os da segunda ordem são os bons Espíritos: o desejo do bem é a sua preocupação;
os da terceira classe, os maus Espíritos, são caracterizados pela ignorância, pelo desejo do mal e por todas as más paixões.

99
Os Espíritos da terceira ordem não são todos essencialmente maus; uns não fazem nem o bem nem o mal; outros, ao contrário, se comprazem no mal e ficam satisfeitos de o fazer.


115- 122 e 262
Os Espíritos não foram criados uns bons e outros maus: Deus os criou todos os Espíritos simples e ignorantes.  Deu-lhes a cada um uma missão com o objetivo de os esclarecer pelo conhecimento da verdade e para os aproximar  d´Ele. 
A felicidade eterna e sem desgostos é para eles esta perfeição.  Os Espíritos adquirem os conhecimentos à medida que o livre-arbítrio se desenvolve, passando pelas provas que Deus lhes impõe.  Uns aceitam essas provas com submissão e chegam  mais prontamente ao objetivo de seu destino; outros só as sofrem com  reclamação e permanecem assim, por sua falta, distanciados da perfeição e da felicidade prometida: é a grande figura da queda do homem e do pecado original.


119
Se Deus criasse os Espíritos perfeitos eles estariam sem mérito para gozar dos benefícios da perfeição.  Onde estaria o mérito sem a luta ?


120-121
Todos os Espíritos passam pela fieira da ignorância e não pela do mal; aqueles que são maus se tornam tal por sua vontade e de seu livre-arbítrio.

122-470
Os maus Espíritos estão figurados pela alegoria de Satã. Sua maldosa influência se exerce sobre os Espíritos e sobre os homens.

124
Se, desde o princípio os Espíritos seguem a via do bem absoluto, e outros a do mal absoluto, o maior número faz o bem e o mal em diferentes graus.

123
Os Espíritos são livres para seguir o caminho do mal.  A sabedoria de Deus está na liberdade que ele deixa para cada um escolher, porque cada um tem o mérito de suas obras.

126
Todos os Espíritos devem chegar ao mesmo grau de superioridade através das eternidades; Deus contempla os desgarrados com o mesmo olhar e os ama a todos com o mesmo coração.




















segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Ubaldi e a oferta da obra

A OFERTA DE PIETRO UBALDI AO ESPIRITISMO, POR OCASIÃO DO VI CONGRESSO ESPÍRITA PAN-AMERICANO DE 1963

(transcrito do site  http://www.gilsonfreire.med.br/index.php/ubaldianos/carta-aberta-em-defesa-de-ubaldi) 
(Uma Resposta à Crítica de Herculano Pires)

Que seria da humanidade sem a revelação dos homens de gênio, que aparecem de tempos em tempos?
Allan Kardec (A Gênese)

Não acredito, sinceramente, que Pietro Ubaldi, sendo um espírito da envergadura que é, necessite de que alguém levante a voz em sua defesa, em qualquer circunstância que seja. Bem como estou perfeitamente ciente de que minhas parcas possibilidades impedem de apresentar-me como um seu defensor. Não tenho tamanha pretensão. No entanto, em decorrência de trabalhos publicados, palestras e participações em seminários e congressos brasileiros, muitos passaram a caracterizar-me como um estudioso de Ubaldi, e com elevada frequência questionam-me sobre os diversos temas desenvolvidos em sua extensa e revolucionária obra. Não guardo cabedal de profundo conhecedor de todo o portentoso trabalho do Missionário da Úmbria, mas confesso-me um estudioso, aficionado e profundamente transformado pelas suas estupendas revelações. Sendo ainda espírita de berço, venho fazendo um enorme esforço para demonstrar, a quem se interesse, que o Apóstolo da Nova Era apenas agrega valores à Doutrina Espírita e nada destrói. E estou perfeitamente convencido de que, muito pelo contrário, sua inspirada obra contribui essencialmente para atualizar o Espiritismo e fundi-lo com perfeição ao Evangelho de Jesus, tornando-o de fato o Cristianismo Redivivo.

Dentre todos os pedidos de esclarecimentos que recebo, evidenciam-se os questionamentos referidos à famosa Carta-resposta de Herculano Pires, rebatendo a oferta que Ubaldi fizera aos espiritistas, por ocasião do VI Congresso Espírita Pan-Americano, em 1963, em Buenos Aires. Em decorrência disso, e devido ao enorme respeito que todos guardamos por um dos mais ilustres e respeitados pensadores do Espiritismo brasileiro, decidi publicar este pequeno e despretensioso artigo sobre tão polêmico assunto, para que se preste ao pesquisador espírita que se interesse pela delicada questão.

Eis na íntegra o referido artigo[1]:

“A mensagem que Pietro Ubaldi enviou ao VI Congresso Espírita Pan-Americano, realizado neste mês em Buenos Aires [outubro de 1963], vem causando estranheza nos meios doutrinários. Depois de discorrer sobre a estagnação das religiões, o autor de A Grande Síntese chega às seguintes conclusões:
1 - O Espiritismo estacionou na teoria da reencarnação e na prática mediúnica;

2 - Não possuindo ‘um sistema conceptual completo’, não pode ele ser levado a sério pela cultura atual;

3 - A filosofia espírita é limitada, não oferece uma visão completa do Todo e ‘não abrange todos os momentos da lei de Deus’;

4 – O Espiritismo não construiu uma ‘teologia espírito-científica, que explique o que a católica não explica’;

5 - O Espiritismo ‘corre o perigo de ficar parado no nível Allan Kardec, como o catolicismo ficou no nível São Tomás e o protestantismo no nível Bíblia’.
Diante dessa situação, propõe Ubaldi a adoção, pelo Espiritismo, dos livros de sua autoria, abrangendo a ‘série italiana’ e a ‘série brasileira’. E explica: ‘Trata-se de um produto realizado de uma forma que permite que ele caiba dentro do Espiritismo, porque atingido por inspiração’, que é por ele julgada a mais alta forma de mediunidade, aquela consciente, controlada pela razão. E logo mais afirma: ‘Só assim o Espiritismo poderá avançar paralelo à ciência e exigir atenção de parte dos materialistas, porque usa a forma mental e os métodos racionais dele. Só assim o Espiritismo poderá sair do trilho dos costumeiros conceitos que se repetem nas sessões mediúnicas e colocar-se no nível do mais adiantado pensamento moderno, penetrando no terreno da filosofia e da ciência e situando-se na sua altura’.
A redação e a tradução dessa mensagem de Ubaldi, como se vê, por estes pequenos trechos, estão muito abaixo do texto de suas obras mais inspiradas, que pertencem à ‘série italiana’.
Por outro lado, verifica-se que faltou a Ubaldi a percepção necessária para captar o processo espírita em suas verdadeiras dimensões. O admirável médium de A Grande Síntese revela absoluta falta de acuidade e de compreensão da realidade espírita no mundo de hoje, onde o Espiritismo vem cumprindo serenamente a sua finalidade. A sua crítica ao Espiritismo, resumida nos cinco pontos acima, coincide com a dos adeptos menos instruídos na doutrina, e pode ser respondida, ponto por ponto, por qualquer adepto de inteligência e cultura medianas, que conheça a Doutrina Espírita. Por outro lado, o oferecimento de suas obras ao Espiritismo revela desconhecimento da natureza da nossa doutrina e das exigências metodológicas para a aceitação da proposta, que não cobre essas exigências. Ubaldi desenvolveu suas faculdades mediúnicas à margem do Espiritismo. Seu primeiro livro, A Grande Síntese, apresenta curioso paralelismo com o Espiritismo, o que lhe valeu a simpatia e a amizade dos espíritas brasileiros. Na Itália ou no Brasil, porém, Ubaldi recusou-se sempre a integrar-se no movimento espírita, filiando-se na península à corrente da Ultrafânia, do prof. Trespioli, que pretende haver superado a concepção espírita. Em seu livro As Noures, Ubaldi nos oferece a concepção ultrafânica da mediunidade, na qual enquadra o seu caso pessoal. É uma pretensiosa concepção de mediunidade cósmica, fugindo à naturalidade e simplicidade das comunicações espirituais entre espíritos desencarnados e médiuns. As pretensões de Ubaldi o transformaram, de simples médium em autor messiânico, agora arvorado em reformador do Espiritismo.
Respondemos aos itens da sua crítica da seguinte maneira:

1 - O Espiritismo é uma doutrina evolucionista, como o provam as suas obras fundamentais e o seu imenso desenvolvimento em apenas cem anos de existência;

2 - O sistema conceptual espírita é completo e sua síntese está em O Livro dos Espíritos;

3 - A filosofia espírita não pode abranger o Todo e muito menos ‘todos os momentos da lei de Deus’, porque isso não está ao alcance de nenhuma elaboração mental, no plano relativo da vida terrena;

4 - A teologia espírita é limitada às possibilidades atuais do conhecimento de Deus, segundo ensina Allan Kardec, e essas possibilidades não admitem ainda a criação na Terra de uma teologia científica, nem dentro nem fora do Espiritismo;

5 - O ‘nível Allan Kardec’ não é o do Espiritismo, mas sim o ‘nível Espírito da Verdade’, de quem Kardec, segundo dizia, foi um ‘simples secretário’.
Encontrando-se, pois, nesse plano de revelação constante e progressiva, que é o da manifestação do Espírito da Verdade, segundo o próprio Kardec adverte, o Espiritismo está livre dos perigos da estagnação dogmática. Se, pelo contrário, adotasse as obras de Ubaldi para completá-lo, o Espiritismo cairia imediatamente no dogmatismo. Para cumprir sua missão, em todos os campos da atividade humana, o Espiritismo tem de manter-se como Ciência do Espírito (que investiga o elemento inteligente do Universo, paralelamente com a Ciência da Matéria, que investiga o elemento material); como Filosofia Livre, ‘sem os prejuízos do espírito de sistema’, segundo a expressão feliz de Kardec; e como Religião em Espírito e Verdade, de acordo com o anúncio do Cristo à Mulher Samaritana.
De nossa parte, não obstante o respeito que votamos ao médium e sua obra, altamente inspirada, não poderíamos dar-lhe outra resposta, além da que apresentamos nestas linhas. Se Ubaldi tivesse lido ‘O Livro dos Espíritos’ certamente jamais faria a proposta que fez. Mesmo porque a sua obra, como a de Flamarion, a de Delanne, a de Denis, a de Bozzano e tantas outras, longe de completar o Espiritismo, apenas procuram desenvolver alguns dos grandes temas que o Espiritismo levantou e sustenta no mundo moderno.”[2]
Essa missiva de Herculano Pires tornou-se famosa, prestando-se como poderoso veículo de defesa da grandeza da Doutrina Espírita, em detrimento da oferta de Ubaldi. A comissão redatora dos anais do VI Congresso Espírita Pan-americano respondeu às críticas e pretensões de Pietro Ubaldi transcrevendo, integralmente, os cinco itens acima enumerados por Herculano Pires. Acreditamos que todos os dirigentes espíritas, das diversas nações e entidades kardecistas ali representadas, tenham sido unânimes em aceitar as críticas ao oferecimento de Ubaldi, inflamados que se achavam em defesa dos postulados kardequianos, os quais não poderiam ser abalados, sobretudo em ocasião tão solene, como um Congresso reunindo os principais representantes espíritas da América Latina.

Infelizmente, esse lamentável mal-entendido demarcou a ruptura entre Ubaldi e os espíritas. Ubaldi, que não estava presente e não pôde argumentar em sua defesa, coisa também que não faria, dado seu caráter eminentemente evangélico e avesso a polêmicas, foi muito mal compreendido, resultando no infeliz e posterior rechaço à sua portentosa e visionária obra. Desde então, essa missiva exarada por Herculano Pires tem sido utilizada pelos espíritas como imbatível argumento para desestimular os estudiosos a se aproximarem de Ubaldi. O Profeta da Nova Era não somente passou a ser rechaçado com veemência nos grupos espíritas, como se tornou, logo depois, um ilustre desconhecido, com graves prejuízos para nossa ascese espiritual e a salutar e esperada evolução do Espiritismo. E assim, em nossa nação sobretudo, seus escritos eminentemente cristãos e sem dúvida a mais importante revelação espiritual dirigida ao homem do século XXI, passaram a ser rejeitados por aqueles que melhor detêm condições de compreendê-los: os espíritas, introduzidos nos estudos do pentateuco Kardequiano e amadurecidos pelas imprescindíveis obras de Chico Xavier.

Entrementes, a conclusão a que chegamos, depois de muitos anos de estudos tanto da Doutrina dos Espíritos quanto da obra de Ubaldi, é que se tratou de infeliz e precipitada conclusão, partida do desconhecimento do real significado do trabalho do Mensageiro da Úmbria e do entusiasmo partidário e fideísta que movia os congressistas. Muitos que assinaram aquela carta mal conheciam o seu livro fundamental, A Grande Síntese, e não detinham elementos seguros para emitir qualquer opinião abalizada sobre o restante de sua obra e seus mais sinceros propósitos.

Humberto Mariotti, então famoso presidente da CEA (Confederação Espírita Argentina) e ocupando também, na ocasião, a presidência do VI Congresso Pan-Americano, aceitou prontamente a crítica de Herculano Pires, apoiando o manifesto de rejeição a Ubaldi. Logo depois, entrementes, ao entrar em contato com a obra do Visionário da Úmbria, revelou ter sido esse o maior erro de sua vida. Ubaldi relata, após receber a visita do ilustre argentino, em 1965, que “(...) o Sr. Mariotti voltou muito satisfeito, concordando que houve um mal-entendido contra a minha oferta, porque jamais tive a intenção de formar grupo ou escola doutrinária contra o Espiritismo ou qualquer outra religião (...)”[3]

Analisemos cuidadosamente a missiva de Herculano Pires, a fim de convencer-nos de que se tratou de fato de um mal-entendido. Primeiramente é bom sabermos que a carta de Ubaldi não partiu de sua espontânea vontade. É bastante provável que o Apóstolo de Gúbio[4], possuidor de um caráter reservado e averso à imposição de ideias, não tomasse essa iniciativa por si mesmo. Se o fez, foi estimulado por um grande amigo seu, o diplomata português Dr. Manuel Emygdio da Silva, então cônsul de Portugal, residente em Montevidéu. É que nos relata José Amaral[5], um dos biógrafos de Ubaldi, e que com ele conviveu por muitos anos. Manuel Emygdio, grande entusiasta da obra de Ubaldi, desejou divulgá-la entre os espíritas, na certeza de que ela muito poderia enriquecer a Codificação Kardecista, e viu no VI Congresso Pan-Americano uma ótima oportunidade para seu intento. O melhor meio para isso, segundo deduzia, seria solicitar ao próprio Ubaldi oferecê-la aos espíritas. E assim nasceu a carta que o Missionário italiano dirigiu aos congressistas, reunidos em Buenos Aires, em 1963. Armava-se desse modo o lastimável acontecimento, fruto das melhores e mais nobres intenções tanto de Manuel Emygdio quanto do Apóstolo da Úmbria.

Infelizmente, os congressistas receberam a carta com desgosto e sentiram-se ofendidos com a dadivosa oferta de Ubaldi. Em resposta, afirmou Herculano Pires que “faltou a Ubaldi a percepção necessária para captar o processo espírita em suas verdadeiras dimensões”, acusando-o de “absoluta falta de acuidade e de compreensão da realidade espírita no mundo de hoje, onde o Espiritismo vem cumprindo serenamente a sua finalidade”.

Para quem leu e estudou as 24 obras de Ubaldi, isso não pode ser verdadeiro. Ubaldi conhecia sim, e profundamente, a obra espírita e a defendeu em diversas ocasiões. 

Vejamos, por exemplo, o que ele declarou em sua visita à Federação Espírita do Estado de São Paulo, em 1951:

 “(...) Eu tinha, aproximadamente, 26 anos e vivia em dúvida completa, pois, já golpeado profunda­mente pela dor, não conseguia atinar com as suas causas. Eu a atribuía aos erros cometidos por mim, ou por outros, mas isso não contribuía para eliminá-la. Investigava a filosofia, os vários siste­mas filosóficos, porém, da mesma forma, não conseguia alívio algum. Estudava o espírito das religiões e, todavia, também isso não proporcionava consolação. Então, por acaso — digo acaso, mas por certo era obra da Providência — caiu em minhas mãos O Livro dos Espíritos de Allan Kardec. Eu era jovem, desorientado, não tinha, ainda, pas­sado pela experiência dos grandes problemas da vida. Li com gran­de interesse e vos confesso que, em certo ponto, exclamei: Achei! ... Eureca! poderia ter eu repetido, encontrei, encontrei finalmente a solução que eu procurava e que me esclareceu! Ela foi a primeira semente que deu origem ao meu adian­tamento espiritual e daquele dia em diante foi-se tecendo a trama luminosa do esclarecimento de tal forma que, ampliando-se, ele pe­netrou a ciência, a filosofia, a religião, os problemas sociais e os problemas de todo o gênero. Devo, entretanto, confessar-vos precisamente aqui, nesta noite e neste local, que a Allan Kardec devo a primeira orientação e a solução positiva do problema mais complexo que, mais de per­to, me interessava, considerando minha condição de ser humano. Com grande prazer recebi esta primeira orientação. (...) Esse primeiro jato de luz me veio há quarenta anos pre­cisamente e hoje essa luz se completa no que eu ofereço, como eu disse antes, não criado por mim, mas recebido em consequência do esforço desenvolvido para ampliar o campo de aplicação daquela grande ideia, alcançando o seu objetivo final concretizado nos setores social, religioso, filosófico etc. E é interessante observar que, em consequência disso, eu, sem o saber, era espírita há quarenta anos. (...) Encontrei em toda a parte uma grande fé, uma grande assistência social. Bela realização! Isso me entusiasma! Encontrei nos lugares de cura não só a ciência, mas sobretudo, a fé. Agora, curar os do­entes não só com os processos materiais, como se faz na Europa, mas aquecendo a alma deles com o Evangelho, explicando-lhes a causa das suas dores e ensinando-lhes o verdadeiro caminho para superá-las, partindo, em primeiro lugar da alma e não consideran­do, como o faz a ciência materialista moderna, o nosso corpo como um agregado de células — ou como o corpo de qualquer animal — isto é grandioso! Admirei esse fato! E falarei na Itália e na Euro­pa contra o interesse materialista que lá se imprime a todas ou a quase todas as instituições de cura dos doentes de todas as espécies.”[6]

Em outubro de 1955, em uma entrevista concedia ao Jornal Pernambuco Espírita, Ubaldi responde as seguintes perguntas:

“O Sr. aceita o Espiritismo como doutrina cristã?
R. Aceito o Espiritismo como doutrina eminentemente cristã e como tal, será aceito por todos, logo que se espalhe pelo mundo. Será a religião do terceiro milênio.

Como encara a Codificação Kardequiana?
R. É um trabalho que veio revolucionar o pensamento humano. Ela deu um sentimento completamente novo ao estudo da metafísica. Imprimiu um novo sentido no campo da bondade, da paciência e da caridade. Estabeleceu para o mundo um conteúdo moral muito elevado da justiça de Deus e seus atributos. Como sistema filosófico espiritualista, tem os principais elementos para constituir uma verdadeira filosofia.”[7]

Herculano Pires afirma também que “Ubaldi recusou-se sempre a integrar-se no movimento espírita, filiando-se na península à corrente da Ultrafânia, do prof. Trespioli, que pretende haver superado a concepção espírita”. Afirmativa que igualmente não é factível. Ubaldi, embora tenha sido criado sob os auspícios do catolicismo italiano, e embalado pelos encantos do franciscanismo que tanto amou, admitiu a doutrina espírita como o mais evoluído pensamento religioso, dentre todos que até então alimentaram a caminhada humana. Certamente, por isso ele veio para o Brasil, onde a Religião dos Espíritos encontrou o seu mais fértil campo de desenvolvimento. E não há relatos de que ele tenha se filiado à Ultrafânia, do prof. Trespioli.

Até a publicação de Deus e Universo, o 10º livro de Ubaldi e o último escrito na Itália, obra divisora entre a revelação de Ubaldi e o Espiritismo, os espíritas aceitavam muito bem o trabalho do Apóstolo de Gúbio, o qual entendiam não representar ameaça alguma aos fundamentos da Codificação kardequiana. Tanto que foram os espíritas que o convidaram a proferir uma série de palestras em nossa nação em 1951 e o convenceram a transferir-se definitivamente para o nosso país, o que se deu a partir do ano posterior, e aqui ele permaneceu até o seu desenlace em 1972. No entanto, depois que os espíritas conheceram esse estupendo livro, rompe-se o encanto dos seguidores de Kardec com o Profeta do Espírito e suas revelações. Nessa magistral obra, seguramente o mais importante tratado teológico escrito no século XX, Ubaldi discorre sobre o processo de gênese e Queda do Espírito, imputando a formação da matéria, do espaço e do tempo a um processo de separação voluntária do Espírito do primal seio divino, dando origem ao nosso universo. Tal fundamental conceito não cabia nos alicerces estabelecidos pela interpretação kardecista, advindo daí a rejeição dos espíritas de todo o restante trabalho de Ubaldi, a despeito do apoio que Chico Xavier inicialmente lhe proporcionara[8]. Ou seja, não foi Ubaldi que se desligou do Espiritismo brasileiro, mas os espíritas é que o rechaçaram e negaram a sua colaboração.

Reconhecemos, contudo, que o rechaço de Ubaldi pelos espíritas foi providencial, pois o Profeta de Gúbio não poderia ter-se filiado estritamente ao Espiritismo. Sua obra teria se fechado no partidarismo religioso, deixando o caráter eminentemente universalista de que se revestiu. Compreendemos que assim haveria de ser, pois a verdade não deve ser partidária, não se limitando a nenhuma facção. Ubaldi, como um espírito superior, amava todas as religiões da Terra e se perfilhou, de fato, à universalidade e à imparcialidade, combatendo a nossa tendência inata de nos estabelecermos em grupos rivais e antagônicos, prontos a se digladiarem na arena do intelecto e da fé. Por isso, tendo por lema esse essencial propósito, ele não poderia, jamais, ter defendido a criação de um “ubaldismo”, como muitos espíritas passaram a condená-lo, vendo-o como uma ameaça ao Espiritismo. Vejamos uma de suas declarações a esse respeito:

Tenho estado entre católicos, espiritistas, protestantes; maometanos e budistas, entre seguidores de muitas religiões e filosofias e também entre ateus. E vi que essas distinções são mais de forma que de substância.

 Vi que na realidade só existem dois tipos de homens, qualquer que seja a religião a que pertençam;
existem como que duas religiões fundamentais, — a do amor e a do orgulho.

 À primeira pertencem os bons, os humildes que perdoam, os que se aproximam do semelhante para compreender e para auxi­liar; esses estão perto do bem e de Deus.

 À segunda religião per­tencem os orgulhosos, que discutem para dominar, que desejam des­truir para vencer, que se avizinham do semelhante com espírito de contenda, para fazer erguer-se o próprio eu; esses estão distantes do bem e de Deus.

 Trata-se de dois métodos opostos, que sob qualquer for­ma, religião ou filosofia, revelam sempre o homem e sua verdadei­ra religião, a do bem ou a do mal. Tenho ensinado sempre, com absoluta imparcialidade, essa religião mais substancial, que ensina sobretudo a amar.

Quem agride, quem polemiza, se distancia do amor, que compreende sem dis­cutir e resolve todas as questões perdoando. Sem essa base, que é o fundamento do Evangelho e da natureza de Deus, qualquer reli­gião se torna uma mentira, pois a verdade foi controvertida. 

Amar é a lei de Deus. Quem não ama, embora seja sábio e poderoso, não vive conforme a lei de Deus”[9].

Podemos afirmar, portanto, que Ubaldi não combateu o Espiritismo, sequer qualquer outra religião da Terra. Ele apenas veio ajudar-nos a compreender que a verdade não pertence a religião alguma, que todas, até mesmo o Espiritismo, contêm parte da verdade absoluta e devem se complementar.

De forma escorreita, em sua magistral síntese monista, ele ensinou-nos a amar tanto as verdades espíritas quanto as católicas e reformistas, ensinando-nos, de forma surpreendente, a uni-las em uma grande verdade, superior a todas elas.

 Essencialmente aderidas ao Evangelho, suas lições são imprescindíveis para nos fazer ver que a revelação espírita não se antepõe ao Cristianismo primitivo, como pode julgar um observador parcial, mas, muito pelo contrário, as duas teologias se completam.

 Não conhecemos, portanto, pensamento mais adequado para unir com perfeição a Doutrina dos Espíritos aos alicerces teológicos cristãos estabelecidos no Novo Testamento. Conceitos como Reino de Deus, Ressurreição e Salvação, Céu e Inferno são, com Ubaldi, devidamente fundidos aos preceitos espíritas de evolução, reencarnação e vida após a morte.

 Somente depois de um aprofundado estudo sem preconceitos da obra de Ubaldi é que se pode chegar a essa constatação. Por tudo isso, pedimos aos espíritas sinceros que se eximam de negar e demolir o trabalho de Ubaldi de forma precipitada, pois correm o risco de estar combatendo, sem o perceberem, um enviado do Cristo e o próprio Evangelho.

Refere ainda Herculano Pires que o trabalho de recepção de correntes de pensamentos de Ubaldi seria “uma pretensiosa concepção de mediunidade cósmica, fugindo à naturalidade e simplicidade das comunicações espirituais entre espíritos desencarnados e médiuns”. E que, “as pretensões de Ubaldi o transformaram, de simples médium em autor messiânico, agora arvorado em reformador do Espiritismo”. Ubaldi, em sua simplicidade evangélica, jamais demonstrou tal pretensão de orgulho e pressentimos o quanto essas afirmações devem ter-lhe ferido a alma sensível.

Emmanuel, através de Chico Xavier, afirmou que “Pietro Ubaldi interpreta o pensamento das altas esferas espirituais, de onde ele provém"[10], portanto, o Apóstolo da Nova Era devia sentir seu real e permanente contato com planos elevados, o que o autorizava a apresentar-se como um missionário entre nós. Todavia, Ubaldi não se dignou elevar a voz em sua defesa, deixando que os fatos futuros e sua obra viessem a falar por si sós.

Hoje estamos plenamente convencidos de que Ubaldi é um real enviado do Cristo para ajudar-nos na recomposição das verdades necessárias à nossa caminhada evolutiva. Renegando-o com veemência e combatendo sua obra, sem dar-nos a oportunidade de examiná-la e constatar sua justa aferição ao Evangelho, incorremos no grave risco de estar “apedrejando” novamente um profeta entre nós. Basta lançar os olhos para a retaguarda da História para constatarmos que, em todos os tempos, rechaçamos em um primeiro momento todos os mensageiros que comparecem com verdades aparentemente diferentes das nossas convicções, parecendo ameaçar as certezas que tomamos por imutáveis. Somente mais tarde é que chegamos a alcançar e compreender suas revelações, colocando-os então nos pedestais de nossas venerações.

Ubaldi teve mesmo a pretensão de completar a Doutrina Espírita, como entendem os espíritas?

O Espiritismo constitui de fato um “sistema conceptual espírita completo cuja síntese está em O Livro dos Espíritos”, não necessitando de complementos, como exara Herculano Pires?

Ora, sendo a codificação kardequiana “uma doutrina evolucionista”, como muito bem a caracterizou o seu fundador e todos corroboram, ela não pode estar completa. Achando-se aberta, ela faz-se de fato um corpo filosófico, religioso e científico que necessita avançar sempre através de novos conhecimentos e renovação de suas verdades, a fim de acompanhar nosso progresso e nosso permanente amadurecimento evolutivo. Torna-se claro que não possuímos verdades absolutas e inamovíveis e deveremos estar preparados, em toda ocasião, para rever nossas mais bem estabelecidas convicções. Nossa natural tendência sempre foi fixarmos verdades como absolutas e lutarmos contra qualquer modificação de nossos pilares de certezas, em todos os campos de nossa atuação. Não é diferente com o Espiritismo, pois tal é a natureza de todos que o seguimos. E o Espiritismo não se eximiu de subordinar-se à nossa parcial capacidade de interpretar as revelações que o Mundo Espiritual periodicamente nos envia, prendendo-se à restrita visão de mundo de uma era.

É inegável o quanto progrediu o pensamento humano desde o advento da Codificação espírita. Na época em que Kardec inquiria as mesas girantes, a mentalidade do século XIX sequer sonhava com a Física Relativista de Einstein, as estonteantes afirmativas da Mecânica Quântica ou mesmo as descobertas da Nova Cosmologia do século XXI. O homem ainda admitia viver em um universo ilimitado, subordinado ao tempo absoluto das leis newtonianas e embalsamado pelas concepções dualistas e dicotômicas do cartesianismo. Inevitavelmente, os conceitos semeados nas obras básicas permaneceram atrelados às concepções próprias da cosmovisão do século XIX e precisam ser urgentemente revistas.

Embora Kardec tenha estabelecido as bases de um pensamento eminentemente progressivo, nós, seus seguidores, no entanto, negamo-nos a fazer essa revisão. Transformamos os conceitos básicos de nossa doutrina em sólidos cânones, evidenciando-se que, em absoluto, não estamos “livres da estagnação dogmática”, como afirma Herculano Pires. Somos velhos e renitentes pensadores, habituados a fixar como colunas inamovíveis todas as verdades veiculadas pelas religiões a que nos afeiçoamos. Basta um pouco de sinceridade para admitir que nós, os espíritas (e não o Espiritismo em si), permanecemos hoje perfeitamente presos às revelações estabelecidas e interpretadas pelas limitadas mentes mediúnicas do século XIX.

Este pequeno texto não traz o escopo de ressaltar todos os pontos em que o Espiritismo requer evoluir. No entanto, basta olhar de fora a nossa Doutrina para constatar os tópicos nos quais ela precisa progredir e modificar conceitos fundamentais. Podemos citar como rápidos exemplos: a veemente refutação do importante fenômeno da Queda do Espírito, ainda que tal capital revelação integre a essência do Evangelho de Jesus, do qual não pode separar-se sem ferir-lhe os fundamentos[11]. A teimosa negação da inexistência de retrocessos na evolução do espírito, sendo que os fatos nos falam exatamente o contrário. A renitente fixação na interpretação de que ressurreição é exatamente reencarnação, sendo que o Evangelho e as próprias obras espíritas, sobretudo da autoria de Emmanuel, não corrobora essa definição. O inapelável conceito de que Reino de Deus é mero estado de alma, contrariando a ênfase que Jesus deu ao tema, tornando-o o objetivo maior de nossas vidas e do próprio universo em que vivemos. A criação do espírito em condição de simplicidade e ignorância não pode ser questionada nos meios espíritas sem que se levante não só obstinadas objeções, mas cega negação de se admitir qualquer outra possibilidade para a gênese do ser. A adoção do dualismo cartesiano como retrato da realidade, em uma época em que a própria ciência evolui a passos largos para afirmar o monismo universal. A visão de um Deus que cria permanentemente no Relativo, a partir do caos, enquanto assistimos a Cosmologia moderna remeter a gênese do cosmo às dimensões do Absoluto, fora do tempo e do espaço. E as arcaicas teorias embasada nos fluidos cartesianos que se mantêm mesmo ante o advento do eletromagnetismo de James Maxwell e das teorias de campo de Einstein. Enfim, vemos que trouxemos para os templos espíritas nosso velho hábito de compor cânones religiosos, tornando imutável uma doutrina estabelecida na superada cosmovisão do século XIX e suas inquestionáveis limitações epistemológicas. Basta folhearmos a A Gênese, de Kardec, antepondo-a, em uma análise despojada de paixão, ao panorama que hoje a Nova Cosmologia nos acena ao entendimento, para percebermos com clareza que a maioria de seus preceitos e deduções estão hoje ultrapassados.

Desse modo, os defensores da chamada “pureza doutrinária” prestam um desserviço ao Espiritismo, pois, impondo-lhe franco misoneísmo, terminam por derruir um de seus mais belos alicerces: a capacidade de se modificar, acompanhando a evolução do pensamento humano. O resultado será o seu isolamento nas arcaicas concepções do século XIX, distanciando-se da efervescente ciência do século XXI.

E pretender caminhar sempre não pode ser um erro, pois é o próprio Espiritismo, doutrina progressista por excelência, que nos concita a seguir adiante, sem jamais nos deter, através das sábias palavras do Codificador, exaradas em A Gênese:

Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificará nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará”[12].

Julgamos, portanto, um erro acatar a afirmação de Herculano Pires de que “o sistema conceptual espírita é completo”. Ora, nenhuma doutrina existente na Terra é capaz de gabar-se de possuir um sistema conceptual completo, pois estamos em evolução e não atingimos o ápice do conhecimento. Pelo contrário, estamos muito longe disso e, se aprofundarmos nossos questionamentos, compreenderemos que apenas nos introduzimos no ilimitado conhecimento de Deus e de Sua Criação. O próprio O Livro dos Espíritos não é uma obra acabada, como muito bem a caracterizou os Espíritos que a ditaram – na questão 18 desse livro, por exemplo, eles sustentam: “O véu se levanta a seus olhos à medida que o homem se depura; mas, para compreender certas coisas, são-lhe precisas faculdades que ele ainda não possui”. Na questão 182, completam: “Nós, os Espíritos, só podemos responder de acordo com o grau de adiantamento em que vos achais”[13]. Além disso, compreendemos que os próprios Espíritos que acompanham de perto nossa caminhada estão também em evolução e não atingiram o ápice do saber absoluto. Por isso, afirmam-nos, com sinceridade, em A Gênese de Kardec: “Há questões que nós mesmos, espíritos amantes da ciência, não podemos aprofundar e sobre as quais não poderemos emitir senão opiniões pessoais, mais ou menos hipotéticas”.[14]

Por tudo isso, está certo o Apóstolo de Kardec, que se contradiz ao admitir que “a filosofia espírita é limitada, não oferece uma visão completa do Todo e não abrange todos os momentos da lei de Deus”.

 E é certo que “isso não está ao alcance de nenhuma elaboração mental, no plano relativo da vida terrena”, como acertadamente conclui Herculano Pires. Ubaldi também não teve a pretensão de abranger com sua revelação “todos os momentos da Lei de Deus”, mas caracteriza-se perfeitamente como um enviado dos Planos Superiores para nos fazer progredir nesse intento que atingiremos somente nos altiplanos da evolução.

O grande filósofo italiano, espírito de alta estirpe e permanentemente conectado a Esferas Superiores, percebeu claramente que nossa Doutrina não é um corpo completo de ensinamentos e necessitava continuar sua vitoriosa carreira de servir-se como um farol para a caminhada humana. A visão monista de Deus e da Criação que se desdobrou ante seu elevado espírito evidenciou-lhe com clareza que as religiões da Terra, inclusive o Espiritismo, estão estacionadas em compreensões parciais e monoteístas, o que lhes impede de avançar um passo mais rumo a uma compreensão mais abrangente da realidade. Assentado nessa evoluída compreensão, Ubaldi pôde vislumbrar os pontos em que o entendimento espírita, embora um dos mais evoluídos que nossa humanidade já alcançou, ainda precisa progredir. O espírita, no entanto, encerado em cânones religiosos, julga, de modo geral, que se trata de grave despropósito afirmar que uma religião veiculada por Espíritos superiores possa conter verdades incompletas ou equívocos interpretativos, por isso nega veemente que nossa Doutrina necessite de complementos. Infelizmente, trata-se de postura equivocada que somente aquele que analisou cuidadosa e desapaixonadamente a revelação do Apóstolo da Úmbria pode constatar. Portanto, a oferta de Ubaldi não foi uma pretensão ou uma orgulhosa ofensiva de alguém que almeja corrigir verdades alheias, mas a doação amorosa de um pensador que foi capaz de divisar muito além de nossa parca percepção.

Entendemos que é perfeitamente compreensível que o espírita não identifique por si só as barreiras que cerceiam a Codificação Kardequiana. Precisamos de alguém que olhe de fora nossas verdades para indicar-lhes os limites e os pontos falhos. Comumente, no entanto, em decorrência de nosso natural misoneísmo, não recebemos de bom grado aqueles que nos apontam as falhas de compreensão, sobretudo no terreno religioso, e vemos até mesmo como uma grave ofensa quem se arvore a enumerá-las. Por isso, é perdoável o fato de a referida carta de Ubaldi ter provocado um mal-estar entre todos os congressistas latino-americanos. Não é fácil aceitar que “a filosofia espírita é limitada, não oferece uma visão completa do Todo” e “não abrange todos os momentos da lei de Deus”, como diz Ubaldi. Somente quem pôde penetrar nas revelações trazidas pelo Profeta de Gúbio habilita-se a vislumbrar a incompletude da Doutrina Espírita. E tal afirmação não é um desacato ou ultraje. Muito pelo contrário, é fruto da nobre intenção de quem somente quer ajudar.

Basta desvestirmo-nos de nossos brios para constatar com facilidade os pontos em que nossa Doutrina encontra-se incompleta.

 Como exemplo, consideremos as revelações sobre as primeiras origens de tudo que existe, contidas no pentateuco kardequiano. Hoje, com os conhecimentos que temos, torna-se evidente que esses primeiros ensaios da Doutrina Espírita não poderiam esclarecer-nos em definitivo os mistérios da gênese original do espírito.

 Os naturais óbices do homem do século XIX impediam que importantes conceitos sobre esse tema fossem-nos então revelados. 

Encontramos prova disso na obra fundamental, O Livro dos Espíritos: na questão 49, por exemplo, as próprias entidades orientadoras de Kardec informam-nos que “O princípio das coisas está nos segredos de Deus”.

 Na questão 78, em resposta à pergunta se os Espíritos tiveram princípio, a entidade reitera: “(...) quando e como cada um de nós foi feito, repito-te, ninguém o sabe: aí é que está o mistério”.

 Na questão 81, novamente, respondendo a Kardec sobre a formação dos espíritos, eles acentuam: 

“Deus os cria, como a todas as outras criaturas, pela Sua vontade. Mas, repito ainda uma vez, a origem deles é mistério.”

Pelo que nos consta, caberia a Ubaldi fazer-nos evoluir um pouco quanto ao conhecimento da gênese primeira do Espírito. Nas referidas obras Deus e Universo e O Sistema, o Apóstolo da Úmbria pôde vislumbrar com suas apuradas antenas psíquicas como se deu a formação dos Filhos de Deus, no seio imaculado do Criador, fora do tempo e do espaço. Em decorrência disso é que se achava devidamente autorizado a escrever aos congressistas reunidos em Buenos Aires em 1963:

 “O Espiritismo não possui uma teologia que nos esclareça a respeito das primeiras origens do universo e do plano geral da criação, nem os Espíritos revelaram coisa importante nesse assunto. E esses não são problemas longínquos, porque, sem conhecer a primeira fonte de tudo, não se pode conhecer a razão pela qual o nosso mundo está feito dessa maneira e não de outra; e temos de nos conduzir conforme determinados princípios éticos. A atual filosofia espírita é limitada e não nos dá uma visão completa do todo, não explica, pelo menos numa visão de conjunto, todos os aspectos e não abrange todos os momentos da Lei de Deus. Quem entrou nesse terreno viu que há horizontes sem fim, que as religiões ainda não suspeitaram (...)”[15]

É ainda pelo mesmo motivo que Ubaldi pôde afirmar, encerrando suas palavras na entrevista do Jornal Pernambuco Espírita:

 “[O Espiritismo] necessita de um estudo mais desenvolvido. A codificação kardequiana tem todos os princípios científicos em estado de embrião. A ciência oficial de hoje não os encara como coisa séria. É preciso, pois, que alguém de responsabilidade, apareça para incentivar o estudo das doutrinas dos espíritos nos meios científicos, norteando-lhes o verdadeiro estudo, fazendo com que a ciência oficial siga-lhes as pegadas. E no campo experimental, dentro das instituições espíritas, dar uma nova feição ao estudo da mediunidade hoje tão malbaratada nesses centros de estudos”.[16]

Essa postura não invalida o reconhecimento, como nos afirma Herculano Pires, de que houve de fato “imenso desenvolvimento em apenas cem anos de existência” do pensamento espírita. No entanto, é forçoso reconhecer que esse progresso atingiu apenas as áreas de atuação social do Espiritismo e de detalhamento da vida após-túmulo, através da brilhante mediunidade de Chico Xavier. Os pilares fundamentais do pentateuco kardequiano não se moveram e permanecem absolutamente intocáveis, sendo hoje uma verdadeira heresia pretender modificá-los. Tal postura seguramente exerce sobre qualquer médium um forte obstáculo à recepção de mensagens que venham a contrariá-los.

Evidencia-se ainda que não podemos concordar com nosso ilustre escritor e respeitado pensador espírita ao assegurar a “impossibilidade de estabelecer-se na Terra uma teologia científica, nem dentro nem fora do Espiritismo”. A verdade é uma só e tanto a ciência quanto as religiões que a buscam afanosamente encontrar-se-ão no avanço da caminhada humana. Nosso progresso inevitavelmente conduzir-nos-á à completa fusão do pensamento científico com o religioso, permitindo-nos realizar com perfeição a tão sonhada síntese do conhecimento humano. Negará essa possibilidade somente quem ainda não observou o amadurecimento da ciência moderna e sua inevitável intromissão nos mais recônditos segredos do Universo. De modo que o estabelecimento de uma Teologia perfeitamente aderida à Ciência torna-se a cada dia mais viável, levando-nos facilmente a vislumbrar no horizonte próximo o dia em que a Religião se tornará Ciência e a Ciência se converterá em Religião.

Sabemos que uma árvore somente se conhece pelo seu fruto, portanto, temos que degustá-lo, nós mesmos, a fim de formularmos uma opinião segura e abalizada sobre o seu valor, antes de qualquer crítica. Sugerimos assim que todo aquele se sinta atraído pela obra de Ubaldi que se atire ao exame de seu trabalho, sem considerar as opiniões parciais emitidas por importantes espíritas de nossa nação, ainda que relevantes. Que comece por Grandes Mensagens, detendo-se apenas no seu último livro, Cristo. Somente depois dessa análise cuidadosa é que ele poderá formular a sua particular opinião sobre Ubaldi. E unicamente depois disso é que aceitaremos como valioso o seu julgamento, ainda que desfavorável.

Portanto, não podemos considerar válido apoiar-se na carta do Apóstolo de Kardec, exarada no Congresso Espírita de 1963, para julgar e negar o trabalho de Ubaldi. Trata-se de atitude precipitada ante a qual o estudioso sincero poderá, assim como Humberto Mariotti, arrepender-se mais tarde, deixando passar a mais valiosa contribuição à nossa mais rápida emersão nos planos superiores da evolução. E podemos adiantar que ainda não conhecemos alguém que se aprofundou na obra de Ubaldi para posteriormente negar o seu imenso valor como genuína ferramenta, indispensável à nossa jornada evolutiva.

Se faltar-nos referenciais para validar as revelações de Ubaldi, sugerimos fazer do Evangelho de Jesus nosso mais fiel guia da verdade. Após cuidadosa análise de sua obra será muito difícil a qualquer leitor e estudioso negar que as lições do Missionário da Úmbria estão, mais do que qualquer outro, essencialmente aderidas aos ensinos do Cristo. Afirmação que aquele que desconhece Ubaldi rejeita e somente poderá compreender e aceitar depois de analisar todo o seu trabalho.

Nossa voz, nesta despretensiosa missiva, nada significa, é nada mais que um pequeno sussurro, no entanto, ela se apõe a contundentes vozes como a de Chico Xavier, de Carlos Torres Pastorino, a do professor Henrique Rodrigues, de Clovis Tavares, Rubens Romanelli, a do próprio Humberto Mariotti, que terminou por defender Ubaldi, e de tantos outros nomes que a cada dia vêm se juntando a um grande movimento que visa restabelecer as lições de Ubaldi, sobretudo no meio espírita, a fim de impulsionar a nossa tão amada doutrina rumo à sua real destinação: a construção de um novo homem e um novo mundo nas sombrias plagas terrenas, embasado no Evangelho do Cristo.

Respeitamos, e muito, as abalizadas conclusões de Herculano Pires, em vários campos do conhecimento espírita. Reconhecemos o inestimável valor de suas obras. Todavia, concluímos que o eminente pensador equivocou-se na avaliação do trabalho de Ubaldi. Nesse caso, ficamos com Ubaldi e concluímos que o episódio do Congresso Pan-americano de 1963 deve ser esquecido como o mais infeliz marco da história do Espiritismo brasileiro e latino.

Encerramos com a declaração de Carlos Torres Pastorino, outro conceituado pensador espírita, profundo conhecedor do Evangelho e autor de importantes obras: 

“Para quem lê Kardec superficialmente, detendo-se nas palavras impressas, a teoria de Pietro Ubaldi pode parecer ‘herética’, mas aos que leem o mestre penetrando as entrelinhas das respostas dos Espíritos, tão sábias e profundas, nada lhes parece de contraditório”[17].

 O autor de A Sabedoria do Evangelho, que também traduziu importantes obras de Ubaldi, concita-nos assim a completar os estudos espíritas com os livros do Apóstolo de Gúbio, para imenso proveito de nosso progresso espiritual e o inegável avanço da Codificação Kardequiana.

Que as luzes do Alto não nos faltem a fim de não nos perdermos nas ainda sombrias veredas da vida por onde, indecisos, ainda perambulamos.

Nova Lima, verão de 2014

Gilson Freire

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1) KARDEC, Allan. A Gênese. 17a ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1975.
2) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 79ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1997.
3) RIZZINI, Jorge. J. Herculano Pires, o Apóstolo de Kardec. Editora PAIDÉIA, São Paulo/SP, 2001.
4) UBALDI, Pietro. Grandes Mensagens. 6ª Ed. do INSTITUTO PIETRO UBALDI, Campos dos Goytacazes, RJ, 2012.
5) UBALDI, Pietro. O Sistema. Ed. do INSTITUTO PIETRO UBALDI, Campos dos Goytacazes, RJ, 2012.
SITES CONSULTADOS:

1) http://www.herculanopires.org.br/apostolo-abertura/341-pietroubaldi
2) http://www.ofrancopaladino.pro.br/mat341.htm.
3) http://www.ubaldibh.org/index.php/publicacoes-e-mensagens/entrevista-com-pietro-ubaldi.

4) http://www.ubaldi.org/


[1] RIZZINI, Jorge. J. Herculano Pires, o Apóstolo de Kardec. Editora PAIDÉIA, São Paulo/SP, 2001 - pág. 247 a 251.
[2] Está carta encontra-se ainda publicada nos sites: http://www.herculanopires.org.br/apostolo-abertura/341-pietroubaldi e http://www.ofrancopaladino.pro.br/mat341.htm.

[3] UBALDI, Pietro. Grandes Mensagens. Ed. do INSTITUTO PIETRO UBALDI, Campos dos Goytacazes, RJ – Segunda Parte, cap. 17, pág. 64.
[4] Ubaldi nasceu na cidade de Gúbio, na região da Úmbria, no centro da Itália, e por isso Chico Xavier assim o denominou em uma de suas cartas dirigidas a Clóvis Tavares.

[5] Informação que consta apenas nas quatro primeiras edições da obra Grandes Mensagens, no cap. XII, terceira parte, pág. 228, da 4ª edição.

[6] UBALDI, Pietro. Grandes Mensagens. Ed. do INSTITUTO PIETRO UBALDI, Campos dos Goytacazes, RJ – Terceira Parte, cap. 3, pág. 197.
[7] Entrevista publicada no site http://www.ubaldibh.org/index.php/publicacoes-e-mensagens/entrevista-com-pietro-ubaldi.

[8] Para quem ainda não se deu conta de que o conceito de Queda do Espírito está inserido na Doutrina Espírita, recomendamos a leitura do artigo “Referências da Queda na Codificação Espírita e na Obra de Chico Xavier” disponível em http://www.gilsonfreire.med.br/index.php/ubaldianos/a-queda-na-doutrina-espirita

[9] UBALDI, Pietro. Grandes Mensagens. Ed. do INSTITUTO PIETRO UBALDI, Campos dos Goytacazes, RJ – segunda parte, cap. 6, pag. 212.

[10] UBALDI, Pietro. Grandes Mensagens. Ed. do INSTITUTO PIETRO UBALDI, Campos dos Goytacazes, RJ – Segunda Parte, cap. 4, pág. 61.
[11] Para quem ainda não se deu conta de que o conceito de Queda do Espírito está inserido na Doutrina Espírita, recomendamos a leitura do artigo “Referências da Queda na Codificação Espírita e na Obra de Chico Xavier” disponível em http://www.gilsonfreire.med.br/index.php/ubaldianos/a-queda-na-doutrina-espirita

[12] KARDEC, Allan. A Gênese. 17a ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1975 – cap. I, item 55.
[13] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 79ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1997.
[14] KARDEC, Allan. A Gênese. 17a ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1975– cap. 6, tópico 6.
[15] Ubaldi, Pietro. Grandes Mensagens, 4ª ed., cap. XII, terceira parte, pág. 230.

[16] A entrevista completa acha-se publicada na íntegra no site http://www.ubaldibh.org/index.php/publicacoes-e-mensagens/entrevista-com-pietro-ubaldi.


[17] UBALDI, Pietro. O Sistema. Ed. do INSTITUTO PIETRO UBALDI, Campos dos Goytacazes, RJ, 2012 – pág.9.