sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A Revolta - por Pietro Ubaldi



Aqui, já tendo absorvido o que Pietro Ubaldi discorre sobre "O Que é Deus" no capítulo 6 do livro "O Sistema", já estamos mais ou menos em condição de ler o que vem a seguir.


Trago o capítulo 7 do mesmo livro, onde Pietro Ubaldi fala sobre "A Revolta":




Capítulo VII

A REVOLTA






Inicialmente, procuramos entender quais eram os atributos de Deus, depois como operou a criação e em que consistiu. Procuremos agora compreender como ocorreu a revolta e como se deu. Começamos aqui com as dúvidas, as dificuldades, as críticas. Aqui principia a revolta contra a teoria da revolta.


Resumamos. Os conceitos desenvolvem-se presos numa concatenação estritamente lógica. Deus deve ser tudo. Se algo existir além Dele, que não esteja em função Dele e que não dependa Dele, então Deus não é mais Deus. Esse algo poderia ser Seu inimigo. E isto destruiria a Sua Onipotência. Nasceria daí um dualismo que destruiria a Sua unidade.


Se, pois, nada pode existir fora de Deus, Ele teve de criar dentro de Si mesmo. Isto significa ser a criação derivada da própria substância de Deus. Nós podemos criar coisas novas tomando uma substância fora de nós, porque somos uma parte no todo. Mas se fôssemos tudo, teríamos de retirar a substância de dentro de nós mesmos.


Não podemos admitir ser esta substância divina de natureza material, mas apenas espiritual. Ora, a não ser que admitíssemos ser Deus de natureza material, o que não poderíamos compreender e não saberíamos como o nosso universo, constituído em grande parte de matéria, possa ter sido o resultado direto desta primeira criação – a espiritual. Assim, uma parte de nosso universo, o espírito, pode representar uma derivação direta da substância divina, mas não, de certo, a outra que é matéria. Entre Deus e a matéria há um abismo. Como preenchê-lo? Dá-se aqui uma mudança de natureza, só explicável com a intervenção de um fato novo, ocorrido depois, e tão grave que chegou a mudar as características da primeira criação originária-espiritual, nas de uma segunda, que tem qualidades opostas. Espírito e matéria, com efeito, sempre foram contrapostos um ao outro como dois extremos irreconciliáveis. E eis aqui despontar novamente, como acima notamos, a necessidade lógica de um fato novo, sem o qual não poderemos jamais justificar, diante de Deus, a constituição de nosso universo, se o considerarmos um produto da primeira criação espiritual. De fato, como poderia um universo, cindido em tal dualismo, ser a emanação direta de um Deus, cuja primeira qualidade é justamente – e não pode deixar de ser – a sua oposta, ou seja, a unidade?


Eis que a lógica impõe esse fato novo. Qual teria sido ele? Não pode ter sido o acaso, excluído pela perfeição do Criador e de Sua obra. Não pode ter sido o capricho de Deus, outro absurdo inaceitável. O fato novo devia representar a continuação da concatenação lógica, sempre respeitada até agora. A teoria da revolta e da queda representa a continuação desta lógica. O problema é compreender todos os elementos que constituem o fenômeno. É o que procuraremos fazer agora, nesta segunda parte, da análise e crítica.


Comecemos estabelecendo o valor desses elementos. Essa teoria da revolta e da queda torna-se, muitas vezes, inaceitável porque não se conhecem aqueles elementos e nasce uma confusão acerca do estado real das coisas. O problema, pois, para responder a todas as objeções, consiste em explicar e esclarecer todos os pontos de vista, as causas e o desenvolvimento do fenômeno. Mas tarde voltaremos à argumentação e então responderemos mais extensamente a cada uma das dificuldades que nos foram lançadas por outros ou por nós mesmos procuradas. As objeções giram em torno dos temas da perfeição de Deus e de Sua obra, que seriam motivo bastante para que fosse impossível ao sistema desmoronar; dos temas da onisciência de Deus, mediante a qual Ele podia ter impedido a ruína a qualquer momento. Surge, então, o problema da liberdade do ser, de sua desobediência e o problema de seu conhecimento, acrescentando-se que, sendo esta criatura perfeita, porque constituída de substância divina, ela não podia errar, mesmo porque, conhecendo o futuro, devia conhecer as conseqüências do seu erro. Esta segunda parte é dedicada à solução destes problemas e de outros semelhantes.


Começemos pois observando as características do sistema, a fim de descobrir os precedentes que podiam constituir o terreno sobre o qual teria podido desenrolar-se a revolta. Da primeira criação espiritual nasceram muitos elementos distintos. Assim, no seio do sistema eles adquiriram individuação própria, de tipo egocêntrico, à semelhança do próprio modelo, Deus. Não foi criada a substância espiritual que os constituía, porque esta era a substância incriada de Deus. O que foi criado, como coisa nova, que dantes não existia, foi a distribuição diferente dessa substância, ou seja, as suas individuações particulares, isto é, as criaturas como seres distintos. Devemos a este fato, como todos os seres criados, podermos dizer “eu”, e como tal existir.


Ora, vimos que se essa tão grande pulverização do todo podia ameaçar a sua unidade, o perigo foi vencido com o equilíbrio do processo divisionista com o processo oposto, em virtude do que a primeira criação resultou num sistema orgânico, onde todos os elementos do sistema foram imediatamente enquadrados numa ordem e disciplinados por uma lei. Deus tornou-se centro do sistema e permaneceu situado no topo da hierarquia. Esse lugar lhe cabia de pleno direito. As criaturas, que lhe deviam a vida, não podiam existir senão em função Dele, devendo-lhe perfeita obediência. Estas eram, logicamente, as bases nas quais devia apoiar-se a vida de todo o sistema, tanto quanto de cada elemento componente. Estas eram as condições indispensáveis para que a criação não se desfizesse em desordem, despedaçando-se no caos.


Então, impunham-se dois imperativos categóricos: primeiro, a presença de uma lei emanada de Deus, reguladora da ordem; segundo, absoluta obediência a essa lei por parte da criatura. Estas são as regras fundamentais indispensáveis para dirigir qualquer unidade coletiva, seja molecular ou astronômica, seja fisiológica ou social, unidade constituída em forma orgânica. Encontramo-nos logo diante da necessidade lógica de uma obediência absoluta. A necessidade da colaboração numa ordem perfeita era tanto maior, quanto o sistema era perfeito e devia funcionar na perfeição. Que desastre, pois, resultaria à mínima desobediência e desordem!


Mas seria possível uma desobediência? Começam aqui as objeções. Num sistema perfeito, composto de elementos perfeitos, não é concebível uma possibilidade de erro. O grau de perfeição que a ordem possui, devia torná-lo invulnerável, pois estava isento de qualquer defeito. Como tal, o sistema devia permanecer inviolável, acima de qualquer risco.


Mas, observemos com maior atenção. Se as criaturas, sobre as quais pesava o perigo de uma desobediência, eram perfeitas porque constituídas de substância divina, elas possuíam uma perfeição relativa. Eram perfeitas em relação à sua posição na hierarquia, e a função que deviam executar no organismo. Em si mesmas, em relação às suas posições, eram totalmente perfeitas, mas não o eram diante da perfeição de Deus, a única absoluta. Esta é a conseqüência lógica da estrutura hierárquica do sistema, o que dava lugar a uma subordinação de posições no todo, tanto como função a executar, quanto como perfeição ou como conhecimento. Com relação à sua posição e função a executar, as criaturas possuíam em grau perfeito as qualidades necessárias e o completo conhecimento. Mas não possuíam as qualidades do Ser Supremo, e diante de Deus não sabiam tudo. Daí a necessidade da aceitação de algumas partes da Lei apenas por obediência, nos pontos que seu conhecimento não atingia, como acontece com as células dos tecidos musculares que obedecem às células nervosas, embora todas juntas obedeçam ao “eu” central do ser.


Era nessa relatividade da perfeição como do conhecimento, – conseqüência direta da estrutura hierárquica do sistema – que se aninhava a possibilidade de erro. As criaturas podiam errar todas as vezes que, fora do campo que lhes fora preestabelecido, se aventurassem nesse espaço desconhecido; todas as vezes que houvessem procurado ultrapassar os limites impostos pela obediência à ordem da Lei; todas as vezes que elas tivessem querido exagerar o próprio egocentrismo, indo além dos limites de suas funções e de seu conhecimento relativo.


Dada a estrutura orgânica do sistema, não podia ser concedido a cada elemento componente o conhecimento absoluto, que só podia caber a Deus. O mesmo ocorre em nosso organismo, no qual cada célula sabe e executa o seu trabalho e não pode entrar no campo de trabalho e de conhecimento das outras células, de outra natureza, adaptadas a funções diferentes. Cada uma, em perfeita obediência, permanece no seu posto diante do “eu” central, que dirige todo o organismo. Em cada sistema orgânico há necessidade absoluta de todos trabalharem de comum acordo. Todos os elementos sabiam disso, conheciam o dever e a utilidade imediata da obediência. Mas sabiam também que acima de cada um, acima de si, na hierarquia, havia alguém que sabia mais, até chegar a Deus que sabia tudo. E o egocentrismo em que se baseava a sua individualidade, é, por natureza sua, expansionista e depois centralizador. Cada um teria podido permanecer no posto a si designado, em sua perfeição e conhecimento relativos, limitados, mas completos em relação à posição ocupada e ao trabalho a executar. As posições mais altas eram mais ricas de poder, mas também de deveres, e todas igualmente dignas e honrosas. Só assim, todos coordenados, pode existir um belo edifício, onde os menores tiram proveito do poder e sabedoria dos maiores.


A hierarquia não constituía uma injustiça. Representava apenas uma distribuição de funções e de trabalho. Com relação à própria posição todos eram igualmente perfeitos, sábios e poderosos. Obedecendo a essa ordem, todos aproveitavam essa distribuição de trabalho, ajudando-se reciprocamente. Tudo podia assim funcionar com perfeição, se fossem respeitadas as regras estabelecidas. Podemos constatar quanto sejam verdadeiros estes princípios, porque ecoam em nosso mundo, onde tudo caminharia na perfeição se fossem aplicados. Mas a verdade é haver necessidade absoluta de respeitar a ordem estabelecida, pois ela é indispensável ao funcionamento de qualquer coletividade organizada. Por isso, havia uma lei do Sistema e como primeira condição, o dever de obedecer-lhe com perfeita disciplina.


Mas, se de um lado, existiam elementos que impeliam à manutenção da ordem, de outro lado havia elementos que impeliam em direção contrária. Se havia de um lado, para o ser, uma zona de conhecimento completo com relação à própria posição na hierarquia e à função a executar, além dessa zona, havia para cada um, também uma zona que em relação a eles era de ignorância, onde a criatura não podia penetrar, por incompetência, falta de conhecimento e aí era possível o erro. A obediência do ser fazia parte da disciplina compreendida no Sistema de ordem, na qual estava construído todo o organismo do Tudo-Uno-Deus. O ser possuía a sua zona de domínio próprio. Estava assinalado o limite além do qual não podia passar. Além dele estava a zona tabu, proibida, que, por obediência, devia ser respeitada. Isso tudo não constituía uma imposição caprichosa ou irracional do Chefe, mas era uma conseqüência lógica e necessária da estrutura do Sistema; não era uma prisão ou escravidão do ser, pois este permaneceu tão livre, até lhe ser possível desobedecer: era apenas uma medida de defesa para sua própria vantagem.


Entretanto, permanecia sempre diante dos olhos das criaturas essa zona inexplorada, na qual, em verdade, não se deveria entrar, mas que, de fato, escapava ao seu domínio não se sabendo o seu conteúdo. Podia representar uma zona de domínio ainda maior e uma vantagem a conquistar. Esse impulso de autocrescimento, que impelia a explorar o desconhecido para ampliar o próprio domínio, derivava da própria natureza do ser, criado à imagem e semelhança de Deus, como individuação egocêntrica, e portanto tendente ao expansionismo. E era esse o impulso fundamental do ser.


Entre esses impulsos contrários, a criatura estava perfeitamente livre apenas cabendo-lhe a escolha. Tendo-a criado de sua própria substância, Deus lhe havia transmitido as mesmas qualidades que lhe eram próprias, e em primeiro lugar a liberdade. Essa também foi uma condição lógica e necessária na construção do Sistema. Baseava-se esta na ordem e na disciplina, mas numa disciplina espontânea de seres livres e convictos, e não naquela escravidão forçada ou inconsciente de autômatos. Sendo livre a criatura, a obediência devia ser o resultado de uma escolha livre, que concluísse numa adesão espontânea à ordem da Lei, expressão da vontade de Deus. Sendo livre o ser, ele devia obedecer espontaneamente, mas podia também não obedecer. Ninguém o podia impedir. Permanecia tudo em poder da livre aceitação da criatura.


Tratava-se de uma verdadeira prova de verificação, de modo a só poderem vir a participar definitivamente do Sistema os seres que a tivessem superado. Os elementos que não tivessem sabido superar o exame, deveriam aprender a lição de forma mais dura e forçada, para atingir o estado perfeito em que tinham sido criados e em que teriam podido permanecer, se tivessem obedecido. Tratava-se como de um segundo curso, mais lento e cansativo, para os mais duros e rebeldes, a fim de os trazer ao porto de salvação. Condições necessárias, dados os elementos em jogo, como vimos. Doutra forma, como teria podido a bondade de Deus obrigar todos a salvar-se, sem violar a liberdade individual? Este segundo curso ou queda, não foi portanto, um erro, por defeito, mas uma possibilidade prevista, deixando à liberdade da criatura o pleno direito de escolha. Esse respeito à liberdade da criatura, Deus a tem, porque a vê em Sua própria natureza, e foi elevada a um grau tão alto, que Deus respeita essa liberdade até mesmo no rebelde que quisesse permanecer para sempre rebelde. Só por último destruindo-lhe a individualidade com a perda da substância que a constitui. Somente voltando a substância a Deus, é possível a eliminação definitiva do eterno rebelde, sem violar o princípio de liberdade.




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Estamos no momento decisivo. Vimos os impulsos que estavam em ação. O ser estava no meio, a fim de realizar sua livre escolha. Qual das duas forças contrárias teria vencido, tomando a supremacia? O conflito está no seu auge e o ser envolve-se num turbilhão.


Os seres foram criados do tipo “eu sou”, menores mas do mesmo modelo de Deus. No centro de cada um domina o egocentrismo. No espírito de disciplina, na consciência da Lei, na obediência a Deus, o ser devia achar a força para resistir ao impulso expansionista do próprio eu. Na livre aceitação do limite, o ser devia achar o freio que o mantivesse em seu lugar. Ele devia reconhecer, espontaneamente, que era menor diante do Chefe, colocar-se na sua posição devida à escala hierárquica, subordinando-se como menor ao maior, pois isto é indispensável a uma coletividade orgânica. Eles conheciam esse seu dever, viam que a disciplina era necessária para o bom funcionamento do todo, conheciam a lei que ordenava obediência e sabiam que essa Lei exprimia o pensamento e a vontade de Deus.


Mas havia mais. Os seres sabiam que esse mesmo “eu” que ansiava expandir-se, como existência individual autônoma, fora um dom de Deus. Esse dom, de existir como “eu” distinto independente, fora-lhes dado gratuitamente por Deus, por um ato de Amor. Antes da criação existiam como substância, mas desta ainda não havia nascido a sua individualidade, que agora os constituía, tornando-as criaturas existentes como tais. Para gerá-los, Deus os havia tirado de um estado em que eles, como indivíduos, não existiam, constituindo-os com a própria substância. Para poder fazer isto, fora necessário subdividir-se em tantos “eu” menores, por ato de Amor; a Divindade quisera como que despedaçar-se em tantos infinitos fragmentos, aos quais, por um ato de altruísmo, comunicava a sua existência, o próprio existir. Amor infinito. Nascidos do Amor e do sacrifício, primeiros elementos da criação, e por isso também primeiros elementos da redenção (Cristo), o qual reconstrói o que estava destruído, esses infinitos seres em que a Divindade se havia pulverizado, tinham o dever sagrado de obedecer, como dívida de gratidão.


Mas, se num primeiro momento, o Tudo-Uno-Deus se havia como que dividido em tantos elementos, num segundo tempo, para não se dispersar, os havia retomado em unidade, reconstituindo-se em forma orgânica, na ordem de um Sistema do qual aqueles elementos constituíam o que, em nosso organismo, são as células. Feito isto, era necessário que eles se mantivessem aderentes à ordem estabelecida, em perfeita obediência à Lei. Da criação nascera u'a máquina perfeita. Mas tudo precisava ficar em seu lugar.


Tudo isso pode justificar a agravar a culpabilidade, mas não suprime a possibilidade da desordem, não eliminava os impulsos que constituíam as tentações, instigando-os ao abuso. Sem dúvida, além do limite imposto pela lei, havia um conhecimento e um poder maior. A criatura não os possuía. Por que não conquistar, também, tudo isso? Não eram livres os seres? Por que não experimentar? O eu, de acordo com sua natureza, fazia pressão internamente, na direção expansionista. Eis a tentação, o impulso que devia traí-los: uma exageração do eu. Isto foi chamado de orgulho. Era a natureza do seu “eu” que os havia de trair.


Mas os seres não sabiam o que havia além do limite. Aqui residia o perigo. E era justamente esse desconhecido que mais os tentava. Ele estava além de seu conhecimento. Podia ser também uma grande conquista, e por que perdê-la? É verdade ter Deus, com Sua Lei, traçado o caminho da obediência. Mas Deus teria podido fazê-lo para impedir-lhes esta conquista, reservando-o só para Si. O homem continua hoje também a fazer raciocínios semelhantes, e ninguém se pergunta de qual modelo tenha nascido essa sua forma mental. Assim, não sabendo os seres o que havia além daquele limite, fizeram uma suposição que não foi verdadeira. Foram punidos pela desilusão e pela ruína que se lhes seguiu. Dessa forma, colocaram-se fora da ordem, fora do Sistema, do qual se acharam automaticamente expulsos. A ruína não foi o Sistema, pois como obra perfeita de Deus, este não podia arruinar-se, mas foram eles que se precipitaram no Anti-Sistema, no qual tudo se emborcou. Assim caíram os elementos rebeldes, mas não a obra de Deus, que permaneceu inviolável. Não será este o significado profundo, oculto na simbólica narração da Bíblia, de Adão e Eva tentados pela serpente, que já era anjo rebelde e decaído, a fim de comerem o fruto proibido, e depois expulsos por sua desobediência do paraíso terrestre?


Os seres rebeldes enganaram-se quanto ao resultado de sua revolta, mas sabiam que era uma revolta contra a ordem. Seu erro e culpa foi de querer substituir a ordem, chefiada por Deus, por outra ordem chefiada ao invés, pela criatura. O movimento assume exatamente a forma de inversão. Explica-se dessa maneira o emborcamento de todos os valores que ocorreu no Anti-Sistema. Trata-se, portanto, de erro culposo, cometido, abusando da liberdade concedida por Deus. A reação que se seguiu, não foi apenas o último elo de uma concatenação lógica, de um exato desenvolvimento de forças, como efeito proporcionado à causa, mas também um fato merecido, segundo a justiça de Deus.


A culpa dos seres desobedientes foi querer possuir uma utilidade ainda maior do que derivava do manter-se disciplinados na ordem. Por isso, foram lançados fora. Como vemos, tratou-se de verdadeira expulsão do paraíso. O Anti-Sistema foi o produto de uma expulsão do Sistema, e por isso continuará desenvolvendo-se até agora a concatenação lógica, acompanhando o processo da queda e do reerguer-se, até ao fim, até à recuperação de tudo, restituído ao estado de perfeição originária.


Pela Divindade onisciente e previdente, o Sistema era munido de impulsos inibitórios ou freios contra o erro. Mas tudo isso, para não atentar contra a liberdade do ser, foi deixado em seu poder, à sua livre escolha; conforme o resultado, alcançado em perfeita liberdade, ficaria decidido, como após um exame, quem poderia ou não continuar pertencendo ao Sistema. Também isso era lógico. Era necessário ter aceito livremente uma ordem, à qual ninguém poderia obedecer à força. Com a sua obediência o ser devia dar provas de que aderira plenamente, de que quisera empenhar-se na manutenção da ordem. Doutra forma o sistema teria sido um amontoado de escravos, com a revolta ocultada em seu íntimo. A aceitação, demonstrada com a obediência, era a resposta lógica e necessária por parte do ser, expressando também o pensamento deste, resposta que Deus tinha o direito de exigir de um ser livre de aceitar ou não aceitar.


Ora, a resposta não foi igual para todos os seres. Uma parte ficou do lado da ordem, no Sistema, e outra parte lançou-se à desordem e, com isto, para fora do Sistema, rompendo as filas da disciplina. Esta parte, acreditando conquistar sabedoria e poderes, ao ultrapassar os limites da Lei, acabou achando-se perdida fora da Lei. Os primeiros escolheram o impulso centrípeto, unitário, dirigindo-se para Deus; os segundos escolheram o impulso contrário, centrífugo, tendo como centro o seu egocentrismo, para expansão deste contra Deus. Então partiu-se em dois o Sistema: em Sistema e Anti-Sistema, dando origem ao dualismo. Mas veremos agora que, ao invés de dizer: o Sistema se dividiu – implicando a idéia de um estrago – é mais exato dizer: o Sistema permaneceu perfeitamente íntegro como era, de estrutura inviolável; enquanto o Anti-Sistema foi produto da expulsão feita dos seus elementos rebeldes.


Uma vez iniciado este movimento, de afastamento, a desintegração da parte corrompida, expulsa do Sistema, continuou rápida e automaticamente, à maneira de uma desintegração atômica ou em cadeia. E tudo, como vimos, precipitou-se do estado de puro pensamento no estado de energia e, finalmente, no de matéria. Nas galáxias, na qual da energia nasce a matéria, está o mais profundo inferno do ser, tendo atingido o máximo da descida involutiva, e daí começa o estafante caminho da subida para Deus.





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Com estes esclarecimentos, não terminaram as dúvidas e objeções. Oferecendo uma visão mais pormenorizada, respondemos a muitas delas. Para responder a outras continuemos a observar.


Objetam: mas Deus, sendo onipotente, não podia impedir a queda e, com isso, todas as dolorosas conseqüências resultantes? Em geral, fazemos da onipotência uma idéia de arbítrio, de capricho que pode tudo, mesmo contra a lógica e a ordem da Lei. Nós mesmos, quando invocamos a liberdade, procuramos “obedecer” à lei escrita em nossos instintos. A onipotência de Deus não pode ir contra a lógica e a ordem da Sua Lei, porque se fosse contra ela, iria contra Si mesmo. Então a nós, filhos da revolta, pode parecer que Deus não seja onipotente.


Deus não podia impedir a queda sem violar o princípio da liberdade. Tinha construído um Sistema de ordem, em que cada impulso tinha uma função. A perfeição não pode ser senão determinística. Sendo perfeito o Sistema criado por Deus, ele se nos apresenta com as características de fatalidade. Num sistema perfeito, não se admitem oscilações de incerteza que derivam do livre arbítrio e da possibilidade de escolha. Chegamos, assim, a um conceito de Deus que se avizinha da abstração a que está chegando a ciência moderna: ou seja, um Deus inteligência e pensamento, um Deus Lei, que dirige, de dentro, todos os fenômenos. Então, para não contradizer a Si mesmo, o próprio Deus não podia sair da fatalidade, da concatenação lógica, representada pelo desenvolvimento das forças depositadas no Sistema, nem podia romper os liames que fatalmente prendem e fazem o efeito proporcional à causa.


Cada elemento ocupava no Sistema o seu devido lugar quanto a conhecimento e poder. A onisciência e a onipotência só podiam pertencer ao Chefe, elemento máximo e centro do Sistema. Cada ser havia recebido todo o necessário, de acordo com a sua posição e função. Além do mais, se não quisermos cair no absurdo, temos de admitir Deus como justo. Ora, não se pode negar o fato concreto, por todos conhecido, da presença do mal e da dor em nosso mundo e o fato do quanto custa emergir deles com a evolução. Se Deus é justo, tudo isso deve ser merecido. Termos sido criados, sem permissão nossa, para sermos condenados a achar a felicidade através de um caminho tão duro, sem termos merecido essa condenação, não é obra de justiça que possa ser atribuída a Deus.


Com a criação, estabeleceu-se um pacto, como um contrato de consentimento bilateral, entre a criatura e Deus. A esta Deus dera uma existência individual própria. Antes da criação, aquela criatura não era criatura, mas apenas uma substância não individuada como criatura. A lógica do organismo nascido pela criação impunha a criatura se coordenar no seio daquele organismo, com todos os elementos componentes, sem o que o Sistema não podia existir nem o organismo funcionar. Era indispensável cada um permanecer no lugar do seu dever. Como Deus aí executava a sua função suprema de direção, assim deviam estar todos os elementos componentes do Sistema, em suas posições subordinadas. Era lógico e fatal, diante de tudo isso, que a parte que rompera o pacto fosse expulsa do Sistema, pelo fato de numa ordem perfeita, não poder subsistir a mínima desordem.


Isto ocorreu de parte da criatura e o remédio foi possível, isolando a parte doente da parte sã, para esta não adoecer e tudo arruinar. Permaneceu de pé a parte sã, intacta; e a isto se deve que a parte enferma poderá curar-se, reentrando, após a cura, no Sistema. Mas imagine-se o que ocorreria se a desordem, ao invés, tivesse partido de Deus. Dir-se-á ser isto impossível. E no entanto é o que se pretende, quando se diz que Deus não deveria ter permitido a queda. Ora, na ordem da Lei, dados os princípios nos quais se baseava, isso teria sido uma revolução e uma tirania. Então Deus mesmo teria forçado o Sistema a uma revolução não periférica, centrífuga (revolta do povo), mas centrípeta (abuso do tirano) – uma revolução ainda pior do que a realizada pelas criaturas. Isto porque, partindo de Deus, teria feito desmoronar-se não apenas uma parte do Sistema, que se teria podido expelir dele, mas teria feito desmoronar todo o Sistema. Enquanto no primeiro caso tudo é remediável através de Deus e pelo Sistema, permanecidos íntegros, no segundo caso a queda teria sido irremediável, porque, tendo a rebelião atingido o vértice, teria arrasado o próprio Deus e tudo teria desmoronado irremediavelmente com Ele, sem outra possibilidade de recuperação.


Aí está, pois, o que ocorreu na revolta e na queda. Dessa forma, indiretamente respondemos a muitas dificuldades que apareciam contra a teoria da queda. Então, as posições hierárquicas se emborcaram, e quem estava mais no alto caiu mais em baixo, ou seja, quem estava mais próximo de Deus foi projetado mais longe até o maior de todos os rebeldes, que devia estar mais próximo de Deus e se tornou o chefe do Anti-Sistema. Este último, porquanto entre os maiores, era sempre menor que Deus, e necessariamente maior deve ter ficado também na queda. Isto significa existir entre os dois chefes, Deus – do Sistema, e Lúcifer – do Anti-Sistema, uma diferença de grau em tudo, significando ser o bem mais forte do que o mal, e, na luta entre os dois, a vitória final só pode ser do primeiro.


Assim, o Sistema permaneceu de pé, representando a possibilidade de recuperação e o ponto de apoio da redenção, que de outra forma seria uma palavra sem explicação e um esforço sem meta. E o Sistema ficou em pé, como o mais forte, como era indispensável para poder reabsorver, em seu seio, o Anti-Sistema. Um desmoronamento absoluto, ao invés de desmoronamento parcial, não teria oferecido nenhuma possibilidade de recuperação.


Pudermos ver, desta maneira, neste capítulo – vencendo todas as objeções que pudemos encontrar a respeito deste assunto – que Deus fez tudo otimamente e não teria podido fazer melhor. Quanto mais observamos, mais devemos convencer-nos de ser perfeita a obra de Deus.


Nesta verificação, executada nesta segunda parte de análise e de crítica, ao invés de conseguirmos demolir a teoria da queda, fomos achando dela sempre novas confirmações.




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sexta-feira, 4 de setembro de 2015



XXIX


FINAL DE UM DE CICLO HISTÓRICO


1950. Na Páscoa daquele ano, Pietro concluiu Ascensões Humanas. É mais um volume que desenvolve temas, apoiados em A Grande Síntese.

No ano anterior, o Prof. Clóvis Tavares, relendo esse li­vro, na tradução de Guillon Ribeiro, foi impulsionado a escrever uma carta ao seu autor, início de uma grande correspondência que iria mudar o curso da vida de Pietro Ubaldi. Naturalmente, que não estava em seus planos novas mudanças, mas, por certo, Cristo assim desejava. A luz que estava sob o velador, foi, novamente, co­locada sobre o mesmo, e outros países reacenderam a chama do pensamento ubaldiano. Estudos Psíquicos - Lisboa (Portugal), prestou a sua colaboração; Constancia — Buenos Aires (Argentina), publicou um belo artigo de Humberto Mariotti: "Pietro Ubaldi, Profeta do Espírito"; vários periódicos de nosso país e do estran­geiro se fizeram presentes nesse novo ciclo de divulgação.

O Apóstolo de Cristo estava chegando ao final do terceiro período de sua vida missionária. A Obra, denominada italiana, de­veria ser concluída, em breve. Faltava apenas um livro a ser escri­to em terras franciscanas: Deus e Universo. Mas ele não sabia, por­que os livros somente lhes eram revelados no momento de sua re­cepção. Quando chegou a hora, no primeiro semestre de 1951, “Sua Voz”, numa visão rápida e sintética, mostrou-lhe a derrocada espiritual do ser. Essa visão se desdobrou em outras menores e de­las nasceu o último livro escrito na Itália. Agora, não existia mais segredo para ele, sobre este universo e todos os universos. Na "Pa­rábola do Semeador", Jesus dirigindo-se aos discípulos, disse: "a vós vos é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas aos outros isso não lhes é dado". Vinte séculos depois, Cristo de novo surge para revelar ao mundo, através do apóstolo Pietro, a origem espiritual do homem e de todos os seres da criação.

Em A Grande Síntese, “Sua Voz” havia mostrado a evolução do homem, passando pelos diferentes reinos: mineral, vegetal e animal, chegando à condição de seres angélicos e se reinte­grando ao seio de Deus. Em Deus e Universo a visão se dilata, aparece a criação de espíritos puros e a sua descida aos planos inferiores da matéria. Primeiro houve a involução para agora haver a evolução. Podemos repetir, aqui, aquele ciclo do capítulo XXIII de A Grande Síntese, num movimento dextrogiro, a partir- de alfa:


— “vai para”
alfa (espírito)
Beta (energia)
Gama (matéria)

Outrora, na praia de Falconara (Falconara Marítima praia banhada- pelo Adriático, pertencente à Província de Ancona, que faz parte da Região de Anche. Está a 280 km de Roma e, naque­la época, tinha cerca de 12.000 habitantes), Pietro Ubaldi teve uma visão. Ele freqüentava aquela praia desde criança em companhia de seus pais.
"Um dia, à beira-mar, em Falconara, contemplando o en­cantamento da criação, senti, com evidência, numa revelação rápida como o raio, que tudo tinha de ser Matéria (M), Energia (E) e Conceito ou Espírito (C), e vi que esta era a fórmula do Universo:

(M = E = C) = S (Substância).

Esta é a grande equação da substância, isto é o mistério da Trin­dade, em que se move toda A Grande Síntese". Em Deus e Universo, "impunha-se ultrapassar os confins de nosso universo para imergir no pensamento de Deus transcendente, que está além de toda Sua Criação, por nós contemplada. Era imprescindível al­cançar a solução dos problemas últimos, diante da qual a mente de­ve conter-se saciada e assim ascender até à fonte de tudo, às cau­sas primeiras de que tudo deriva. O primeiro livro parte da gêne­se para alcançar o homem, no segundo se contempla o pensamento e a obra de Deus, mesmo antes da gênese e se atinge a solução úl­tima do problema do ser até os confins do espaço e do tempo, on­de a Criação terá atingido as suas metas". Assim, as duas obras se completam: a "primeira encara o universo em função do homem e a segunda coloca o universo em função de Deus”.

* * *

O Brasil liderou o movimento em torno de Pietro Ubaldi, que deu origem ao último período de vinte anos (65 aos 85 anos), inaugurado com sua vinda em 1951. Antes de sua longa peregrinação pelo nosso país, ele enviou duas Mensagens: uma no Natal de 1950 ("Mensagem aos Amigos Brasileiros") e outra às vésperas da partida ("Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho").

"Da minha histórica Itália, da Europa esgotada por tan­tas guerras, envio-vos esta minha primeira saudação, queridos ami­gos brasileiros, porque em 1951 estarei convosco, de julho a outu­bro. Espero conhecer vossas grandes cidades, que maravilhosamente se levantam de vossa virgem terra. Falarei a muitos de vós. As­sim poderemos conhecer-nos de perto. Essa é a forma concreta que agora deve assumir minha missão, que atinge, atualmente, uma ou­tra fase — a de realização, com a semeadura direta nas almas.

É necessário não mais apenas pregar o Evangelho de Cristo, mas, "vivê-lo", divulgando-o não só com a palavra, mas também com o exemplo.

Fui chamado por Cristo a essa grande experiência. Não basta, porém, um caso isolado: Agora, pela inspiração e com fatos, a vontade de Deus me indica o Brasil para dilatar essa experiência, para o vosso bem, entre muitos, no seio de um povo que me é de­signado como para isso pré-determinado. Assim se conclui a missão para a qual nasci e os nossos destinos se ligam nesta hora histórica".

Na segunda Mensagem, diz Ubaldi:

"Li nestes últimos dias, pela primeira vez, o belo livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, que me impressio­nou pela sua perfeita aderência ao meu ideal e missão. Ele foi es­crito em 1938 e concorda com tudo o que eu disse em "Apresenta­ção" e "Programa", em fevereiro de 1934, isto é, há 17 anos. E eu, que nessa época nada conhecia do Brasil espiritual, como poderia sabê-lo?

Sempre uma instintiva atração me guiou para o Brasil. Nos meus 24 anos, minha tese de formatura em Direito foi sobre o Brasil. Por que essa polarização de todo meu pensamento na direção de vossa Pátria? E, no entanto, nunca aí estive, embora houves­se percorrido toda a América do Norte. E por que o Brasil sempre me atraiu, até o ponto de eu ir agora conhecê-lo?

Quem poderia dizer qual será a função do Brasil no futu­ro? É certo que a vida não pode esquecer os valores espirituais, que são os essenciais. E o Brasil se apresenta adaptadíssimo a funcionar como coração do mundo, o órgão apropriado à bondade, à com­preensão e à conservação da vida sobre a Terra".


Essas duas Mensagens foram incorporadas no livro "Vi­da e Obra de Pietro Ubaldi", de Clóvis Tavares: a primeira biogra­fia do místico italiano, escrita em 1951 e com várias edições. 

Texto extraido de "Grandes Mensagens"
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domingo, 2 de agosto de 2015

O que é Deus e Pietro Ubaldi no capítulo 6 do livro "O Sistema"



Livro dos Espíritos - capítulo 1 Questão 1 :


Que é Deus?
- "Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas"

  nota de Kardec:
 o texto foi colocado entre aspas porque é a própria resposta dos      Espíritos da Codificação.
...

Pietro Ubaldi, no capítulo 6 do livro "O Sistema" nos fala sobre Deus.

Capítulo VI - Livro O Sistema



DEUS CRIADOR



Na primeira parte deste volume, expusemos a visão em síntese, tal como nos apareceu por intuição, em seu conjunto.
Retomemos, agora, a observação adotando uma atitude psicológica diferente, que justamente chamamos de Análise e Crítica. Embora tenhamos de repetir, voltemos ao início, olhando agora com os olhos da razão, mais do que com os da fé, mudando os pontos de referência e nossa perspectiva, de modo que tudo se torne claro, dando resposta a todas as objeções e resolvendo todas as dificuldades. Observamos o fenômeno da criação no volume
Deus e Universo e capítulo II deste livro. Muita coisa dissemos, mas, diante da imensidade do assunto parece-nos nada haver dito ainda. Os leitores, a quem apresentamos estas teorias, devem considerar que estamos observando a obra de Deus, quase como se Ele nos tivesse de prestar contas. Se alguns podem parecer ainda não satisfeitos, porque os frutos que têm nas mãos nem sempre são bons, a estes vamos demonstrar, agora, que Deus fez tudo otimamente e não podia fazer melhor, e, se o ser navega na imperfeição e na dor, a culpa não pode de maneira nenhuma ser atribuída a Deus. Tudo, qualquer que seja o estado atual e por mais difícil aceitá-lo, se desenvolveu em perfeita lógica, bondade e justiça.


Mas, procedamos com ordem. Aqui fala-se de Deus. É mister, pois, começar pesquisando o que entendemos pela palavra Deus. Dissemos que tudo deriva Dele, centro do Sistema, causa primeira de tudo, situado no vértice da pirâmide da hierarquia dos seres. Dissemos, também, que Deus não pode ser definido. Definir significa limitar, delinear, em relação a certos pontos de referência. Ora, o infinito não pode estar limitado e não existem pontos de referência para o absoluto que abarca tudo. Mas dissemos também que as definições, tentadas a respeito de Deus, foram obtidas elevando à potência infinita as mínimas quantidades de perfeição reconquistadas pelo homem com a evolução, ou percebidas, intuitivamente, como futura
realização a ser conquistada. Poderemos, assim, atribuir a
Deus algumas qualidades.


Foram surgindo à medida que fomos descobrindo o seu modo de agir, sendo lógico e evidente possuir Deus os atributos que cada um de nós, por instinto  e portanto axiomaticamente,
gosta de ver num chefe ou patrão. Satisfeita esta exigência, ficarão todos mais facilmente persuadidos. Parece existirem alguns axiomas fundamentais do ser, não demonstrados nem discutidos, em relação aos quais se ergue um consenso universal, axiomas que são aceitos porque neles a mente
repousa satisfeita, sem mesmo saber racionalmente o porquê.


A nossa mente, para satisfazer-se, exige, pois, que Deus seja perfeito, quer dizer, possua em grau de perfeição as melhores
qualidades conhecidas pelo homem na escala de seus valores.
Por isso, o homem procura fazer de Deus um conceito, multiplicando ao infinito tudo o que de melhor possui e pode fazer, de seu ponto de vista situado no relativo. E neste caso o instinto não vai de encontro à lógica. Sem saber como isso ocorra, o homem sente instintivamente estar Deus no cimo de todas as coisas, e é a meta final para a qual tudo caminha. Assim, multiplicando ao infinito os pequenos graus de
perfeição conquistados com a evolução, o homem procura imaginar o que possa ser a perfeição completa do Ser Supremo.


Então, tal como exige a nossa mente, Deus deve possuir todas
as qualidades no grau da mais absoluta perfeição, e ser absolutamente perfeito em tudo, onipotente, onisciente, absolutamente livre, bom, justo, lógico, uno.
Colocadas em Deus estas qualidades, estas devem ser também atributos da Sua criação, pois esta saiu de Seu seio e, portanto, constituída por Sua própria substância. Isto porque não é possível dar à criação outra causa fora de Deus, que só pode ser o Todo, fora do qual nada pode existir.


Vemos, então, que a criação de Deus só pode ser uma obra perfeita. Das mãos de um Deus perfeito não pode sair uma obra imperfeita, cheia de erros, males e dores, como é a nossa
atual criação. A verdadeira criação operada por Deus deve pois ter sido outra, e não a que conhecemos. Esta em que vivemos deve ter sido derivada de outra causa, sobrevinda mais tarde. Não é possível sair desta lógica. Tanto mais que, sendo Deus onipotente, não poderia haver obstáculos à consecução da perfeição; e sendo onisciente, não podia cometer erros.
De uma tal criação só podiam nascer seres absolutamente livres. Ora, se a perfeição implica na existência dos seres de forma disciplinada, de acordo com uma ordem e uma lei que estabeleça tal ordem, isto não podia de forma alguma acontecer num sistema escravagista, mas apenas no regime de absoluta liberdade.


Mas Deus deve ser, também, sumamente bom. Então, a criação não pode ser fruto de seu egoísmo, mas apenas um ato de amor pela Sua criatura. E Deus não pode deixar de continuar a amá-la sempre, procurando a sua felicidade. Ora, vemos quão longe estamos disso em nosso mundo. Então, se isto ocorre porque Ele não tem o modo de no-lo dar, Deus não é onipotente; e se Ele não no-la quer dar, Ele não é bom. E se é onipotente e bom, porque não no-la dá? Por ser bom, Deus representa o bem. Por que permite Ele, então, a existência de tanto mal em nosso mundo?


Aqui não estão de acordo causa e efeito. Ambas devem ser da mesma natureza e ter os mesmos caracteres. Se entre causa e efeito há essa discordância, isto demonstra ter sobrevindo outro fato, alterando a ação da causa pela introdução de novos impulsos estranhos. De outra forma não se pode explicar essa injustiça num Deus que deve ser absolutamente justo, esta ilogicidade num Deus que deve ser absolutamente lógico.


Deus deve ser justo, isto é, imparcial, sem favoritismos e dádivas não razoáveis e injustas, porque não merecidas. Surge, assim, a idéia de uma ordem e de uma lei que a dirija. Um Chefe, com o direito de comandar e para com o qual se tenha o dever de obediência, não podendo ser um déspota caprichoso que abuse do poder em suas mãos. Compete, em primeiro lugar, a quem personifica a lei, representar a sua perfeita atuação na ordem e na disciplina. Só quem jamais transgride pode ter o direito de exigir a obediência. E se esta Lei representa apenas o próprio pensamento e vontade de Deus, com isto Ele obedece apenas a Si mesmo em perfeita liberdade. E se a criatura tem de reconhecer em Deus o direito de comando, isto implica, de seu lado, o dever de obediência; e se esta não for respeitada, por causa da revolta, implica a merecida reação da justiça de Deus. É assim que, só pela simples observação das qualidades que devemos atribuir à Divindade, vemos, já presentes, todos os elementos dos quais poderá, mais tarde, desenvolver-se lógica e fatalmente, o drama da queda.


Mas Deus deve ser também uno. Ou seja, não apenas ser único, possuindo tudo dentro de si, mas deve também ser unitário, e não cindido em formas contrastantes. Não pode haver em Deus aquele contraste entre qualidades opostas, pertencente ao nosso mundo, contraste, pois, que deve ter outra origem, sobrevinda mais tarde. Deus só pode ser todo positivo, afirmação. O aspecto negativo do ser não pode ter tido origem direta de Deus. Ora, se uma das qualidades fundamentais de nosso mundo é justamente o dualismo, e se este não pode de maneira nenhuma existir em Deus, nem na criação, que saiu do Seu seio, então este dualismo só pode ser o resultado de uma ruptura, posteriormente ocorrida na obra de Deus.

              
Tendo assim feito da Divindade o máximo conceito que nos é possível, seres situados no relativo, vejamos agora como Ela operou na criação. Neste Seu operar, devem reaparecer as Suas qualidades, pois Deus operou de acordo com elas, que constituíam a Sua própria natureza. Dessa forma, podemos imaginar como foi executada a criação, ou seja, aplicando-lhe as características próprias de Deus.


Eis então como, mediante simples imagens, podemos fazer uma representação mental de como ocorreu a criação.


Em ilimitada planície deserta, onde nada havia, nem uma casa, nem um fio de erva, nem ser algum, uma planície tão igual que impossível fosse ali estabelecer qualquer ponto de referência ou de distância, nesse espaço incomensurável havia um bloco imenso, sendo ele a única coisa que podia existir.


Só ele existia ali. Além dele, nada mais havia, sendo tudo o que podia existir ali. Dizemos “só”, porque vivemos em relação com outros seres, mas não estava só, pois compreendia dentro de si todos os seres. Uma parte pode permanecer isolada se lhe falta qualquer outra parte, mas não o pode quem abarca tudo dentro de si, porque dessa forma, faltam-lhe, do lado de fora, pontos de referência para poder estabelecer a própria solidão em relação a eles.


Assim sendo, ele não podia olhar para fora de si, pois fora de si nada mais havia. Olhava então para dentro de si. Sendo este bloco, uma unidade, feito não de matéria, mas de pensamento, esta sua auto-contemplação, representava a consciência que possuía de sua existência, consistindo num pensamento único, sintético, homogêneo, indiferenciado, imóvel, concentrado em si mesmo.


Mas eis que, em dado momento, nesse estado de autoconsciência imóvel, se inicia um movimento de descentralização, pelo qual esse pensamento se torna multíplice, analítico, diferenciado, imóvel, resultante de muitos pensamentos diferentes. Esses pensamentos diversos são as criaturas nascidas da primeira criação, feitas de puros espíritos.
 
Isto não significa, porém, ter sido perdida a unidade do pensamento de origem. Ao contrário, a necessidade dessa unidade permanecer íntegra – sem o que teria desaparecido o supremo “eu” da Divindade – impôs também a necessidade dessa multiplicação ocorrer em sentido orgânico. Em outros termos, nesta primeira criação não podia nascer uma multidão de elementos iguais, simplesmente se somando no todo, mas apenas um sistema, um verdadeiro organismo do qual fossem parte integrante, como hierarquia de posições e distribuição de funções, como é necessário em todo organismo ou sistema. Satisfaz a nossa mente e nos convém pensar que o processo
dessa criação tenha sido regido por uma concatenação lógica, sendo esta uma das qualidades da Divindade. Eis como aparece logo, necessariamente, em virtude dessa lógica, a idéia do Sistema, ou seja, que a criação não produziu apenas uma simples multiplicidade, mas um verdadeiro organismo. Daí nasce a necessidade de admitir-se a presença de uma ordem, e portanto de uma lei que discipline os movimentos de todos os elementos constitutivos do Sistema, lei que representa a continuação da autoconsciência da Divindade que, como pensamento central, situado no topo da hierarquia, a dirige e, dessa forma, dirige todo o Sistema.


Só assim o Tudo-Uno-Deus podia, apesar de tão grande transformação, permanecer idêntico a si mesmo. Se Deus era Tudo, é lógico que a criação não podia ocorrer fora de Deus, mas só dentro Dele. Mas era necessário, também, que isso tudo não alterasse, de nenhum modo, a unidade de Deus. Podemos imaginar o estado antes da criação como um incêndio, com luz e calor, igual em todos os seus pontos; e, após a criação, como o mesmo incêndio organicamente dividido em muitas centelhas. Cada criatura é uma centelha, da mesma substância do fogo de origem, todas juntas continuando a constituir elementos de um todo que permanece, após as transformações, idêntico a si mesmo, tal como era antes.


Eis então que, ocorrida a criação, Deus se nos apresenta como uma unidade orgânica constituída por muitos elementos diferentes, mas mantidos ligados pelo estado orgânico, no qual se transformou o Todo, assim como todas as células de nosso organismo físico são mantidas ligadas por seu estado orgânico, sem o qual elas, também consideradas como seres separados, não podem viver. Daí a absoluta necessidade dessa concórdia e dessa unidade que rege o sistema, sem as quais tudo desmorona. Dessa forma, é fácil compreender o que pode ocorrer à mínima desordem. O fato de cada elemento possuir agora a sua individualidade separada, qualquer menor egocentrismo seu, à semelhança daquele egocentrismo máximo de Deus, torna possível ocorrer uma desordem tão logo falhe a obediência à disciplina imposta pela lei. Por isso há necessidade absoluta de todos os elementos permanecerem ligados, conjuntamente, no mesmo estado orgânico do Sistema, sem o que desmorona a unidade do bloco, no qual permaneceu o Tudo-Uno-Deus, tal como era antes.
Podemos imaginar o estado de origem como o de uma estátua de mármore igual em todos os seus pontos. Um dia esse mármore se transforma em uma porção de células vivas, hierarquicamente disciplinadas, governadas por uma lei à qual é desastroso desobedecer. Elas se reagrupam em tecidos e órgãos e desempenham determinadas funções, das quais depende a vida do organismo, tanto quanto as suas.


Assim ocorreu a criação e nisso consistiu. Só nesta segunda parte, de análise e de crítica, podíamos observá-la mais detalhadamente. E para nos tornarmos mais compreensíveis tivemos de nos apoiar em representações concretas. Trata-se
de imagens torcidas e opacas, porém só estas pode o nosso
mundo oferecer-nos.


Temos de admitir essa criação, porque representa o terceiro momento da Trindade, que sem isto permaneceria incompleta. Trindade composta, como vimos, de três pessoas ou momentos, ou seja:

Espírito (a concepção),
Pai (o Verbo ou ação),
Filho (o ser criado)1.

Isto quer dizer que a Divindade, esgotado o processo da criação, se achou constituída no estado do Filho, ou unidade coletiva ou sistema orgânico, em que permaneciam íntegros os dois estados precedentes. Permanecia o Espírito ou concepção, porque subsistira na obra o plano geral e a lei que lhe disciplinava o funcionamento. Permanecia o Pai ou a ação, porque aquela lei era também vontade de realização, não apenas norma, mas também poder de atuação. E no estado orgânico do Sistema, a multiplicidade dos elementos fundidos na ordem da Lei, constituía uma unidade coletiva, em que Deus permanecia o Tudo-Uno-Deus.


Era necessário esclarecer até o fundo, agora que podemos analisar o fenômeno, estes conceitos que representam o seu ponto de partida, porque se não os tivermos compreendido, não poderemos tampouco compreender depois o fenômeno da revolta e da queda, nem os fatores já presentes que o possibilitaram e nem o modo como o processo, dadas as suas premissas, se desenvolveu com logicidade férrea. 

Leia mais sobre Deus... aqui neste link:

http://omundoextrafisico.blogspot.com.br/2015/09/deus-ciencia-as-criaturas-e-o-criador.html
 

 O capítulo primeiro do Evangelho de São João confirma em cheio essa teoria: “No princípio era o Verbo (O Pai, o Logos criador), e o Verbo estava em Deus (o Espírito, o pensamento), e o Verbo era Deus (porque ambos eram um só). E o Verbo (Pai) se fez carne (se exteriorizou, ou seja, tornou-se Filho) e habitou entre nós cheio de graça e verdade, e vimos sua glória como no unigênito (filho, gerado) do Pai (do Verbo que o produziu)”. João, 1:1 e 14; Mateus, 12:31-32; Marcos, 3:28-29 e Lucas, 12:8-10: (N. do T.) 


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